PATRICIA CRUZ
PATRICIA CRUZ

Adversários criticam fala de Russomanno sobre morador de rua: ‘preconceituoso’, ‘escárnio’

Palácio do Planalto, que apoia campanha do deputado em São Paulo, ficou incomodado e recomenda que candidato evite declarações polêmicas

Pedro Venceslau e Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2020 | 15h32
Atualizado 15 de outubro de 2020 | 19h00

Candidatos à Prefeitura de São Paulo criticaram nesta quarta-feira declaração dada por Celso Russomanno (Republicanos) a respeito de moradores de rua. Na terça-feira, durante discurso na Associação Comercial, o deputado federal sugeriu que quem vive na cracolândia seria mais resistente à covid-19 por não tomar banho todos os dias. Além dos concorrentes, a declaração também causou incômodo no Palácio do Planalto. Segundo assessores do presidente Jair Bolsonaro envolvidos com a campanha em São Paulo, a ordem é que Russomanno apareça o mínimo possível e evite declarações desastradas que possam causar desgaste e tirá-lo do segundo turno.

"Infelizmente, um outro candidato está tratando a população de rua como se fosse uma classe diferente de ser humano", disse o prefeito Bruno Covas (PSDB), candidato à reeleição, durante almoço com empresários. Depois do encontro, Covas afirmou em entrevista coletiva que é preciso ter "ética e compostura" na campanha. 

"Estamos falando de uma doença grave. É preciso ética e compostura. Não podemos tratar essa doença como uma questão de esquerda, direita ou eleitoral. Muito menos estabelecer que a população em situação de rua é diferente. Condeno a fala por ser preconceituosa, como se a população em situação de rua não tomasse ou não quisesse tomar banho", disse o prefeito. 

Para Covas, a fala do seu adversário não tem nenhum embasamento científico que demonstre relação entre tomar banho e contrair coronavírus. 

Candidato do PSOL, Guilherme Boulos disse que ficou "enojado". "Eu juro que fiquei enojado. Acho que foi a pior declaração desta campanha até aqui. Entendi como um escárnio, uma piada. É brincar com o sofrimento das pessoas. Coisa de quem não tem humanidade", afirmou Boulos.

"A declaração do candidato foi péssima, uma grande infelicidade", declarou Márcio França (PSB). "As pessoas mais vulneráveis à Covid são exatamente as que têm menos condições e recursos de acesso à saúde e higiene", continuou.

Jilmar Tatto (PT) se manifestou pelas redes sociais, lembrando o mote de campanha de Russomanno, de "defender" o povo. "Quem fala grosso com trabalhador e despreza pessoas em situação de rua não pode dizer que defende o povo", escreveu. Ele aproveitou a publicação para lembrar que na gestão do PT na Prefeitura foi criado o programa "De Braços Abertos" para atender usuários de drogas da região da Luz, no centro de São Paulo. 

Andrea Matarazzo (PSD) afirmou ao Estadão que a fala demonstra desconhecimento da realidade paulistana. “Me impressiona, numa eleição para a Prefeitura de uma cidade como São Paulo, o desconhecimento de alguns candidatos sobre a nossa realidade”, escreveu.

Ao defender o isolamento vertical – modalidade de afastamento apoiada pelo presidente Jair Bolsonaro em que apenas pessoas de grupos de risco da covid-19 ficam em casa –, o deputado Celso Russomanno (Republicanos) sugeriu nesta terça-feira que moradores de rua podem ser mais resistentes ao novo coronavírus porque não conseguem tomar banho todos os dias.  

“Temos casos pontuais, não temos uma quantidade imensa de moradores de rua com problema de covid. Talvez eles sejam mais resistentes que a gente porque eles convivem o tempo todo nas ruas, não têm como tomar banho todos os dias, etcetera e tal. Mas não era o que se esperava”, disse o deputado, que está em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. 

Transferência de renda

No evento desta quarta-feira, Bruno Covas também falou sobre as propostas de seus adversários de ampliar na capital o programa Renda Cidadã do Governo Federal. 

"Aqui na cidade de São Paulo nós criamos mais um programa de transferência de renda. Enviamos um cartão para 770 mil famílias com alunos na rede municipal. Só que não vou fazer nessa campanha um leilão de quem dá mais para quantas mais pessoas. O principal é a grande porta de saída que é o emprego", disse o tucano.

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