Felie Rau/Estadão
Felie Rau/Estadão

Coronel da PM deixa campanha de Doria por discordar de ampliação da Rota

Segundo o coronel, levar os batalhões para todas as regiões do Estado não resolverá o problema de criminalidade

Fabio Leite, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2018 | 19h01

Ex-secretário nacional de Segurança Pública e consultor internacional na área, o coronel reformado da Polícia Militar paulista José Vicente da Silva Filho deixou a campanha de João Doria (PSDB) ao governo do Estado por discordar de uma recente promessa feita pelo tucano de ampliar de 5 para 22 o número de batalhões de ações especiais, a tropa de elite da corporação em São Paulo.

Silva Filho integrava um grupo com 22 pessoas, entre PMs, delegados e especialistas, que trabalha no plano de segurança do programa de governo de Doria. Segundo o coronel, a promessa de levar os batalhões para todas as regiões do Estado não estava sendo discutida no grupo e não resolverá o problema de criminalidade em São Paulo, centrada hoje nos crimes patrimoniais (roubo e furto).

"Ninguém sabe de onde veio essa ideia que o Doria tem defendido com tanta ênfase. Alguém soprou isso e ele começou a anunciar", disse Silva Filho. "O discurso pode ser interessante do ponto de vista do marketing político, mas tem de ser calcado em dados concretos. Ampliar unidade especial constitui uma falha grave e não leva à melhoria da segurança. Não foi assim que Bogotá, Nova York reduziram significativamente a criminalidade. O Rio de Janeiro tem excesso de unidade especializada e a segurança lá é uma tragédia", completou.

O coronel disse que desde que soube da promessa de Doria, há cerca de 15 dias, se manifestou contra a medida e tentou fazer o tucano mudar de ideia. Mas no último dia 31, Doria repetiu a promessa em uma entrevista à Rádio Jovem Pan. "Temos cinco batalhões especiais da PM no Estado. Vamos para 22, já a partir do próximo ano. São policiais militares da Rota, são os mais preparados, os mais municiados, que atuarão no interior. E vão atuar com armas de primeiro mundo, vamos proteger o que é melhor, que é a vida das pessoas", afirmou o candidato.

Segundo Silva Filho, o grupo discutia o conceito de "fortalecimento  da polícia territorial" (batalhões e delegacias), integração entre as polícias Civil e Militar, e aprimoramento da inteligência policial. "São esses conceitos de segurança nos quais acredito e que vi funcionar em várias cidades que visitei pelo mundo", disse. "Não sou contra o Doria, acho que ele pode ser um bom governador. Mas essa ideia que ele está apresentando é completamente equivocada, indefensável. Desafio qualquer um a debater comigo", completou.

Ele argumenta que criar 17 novos batalhões especiais, que podem ter de 200 a 400 homens, poderá desfalcar o policiamento territorial das regiões que receberão o policiamento de elite. Os batalhões especiais são formados por policiais da Força Tática, que seriam treinados com policiais da Rota, a tropa de elite da PM paulista.

"De onde vão tirar 10 mil PMs. Isso leva uns três anos para você colocar ou substituir", disse o Silva Filho, que foi secretário nacional de Segurança Pública no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e coordenador do programa de governo na área de segurança pública do ex-governador Mário Covas em 1994. 

Embora tenha saído da campanha de Doria, o coronel disse que continuará contribuindo com o grupo de segurança da campanha presidencial do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), do qual faz parte. 

Em nota, a assessoria do candidato João Doria afirmou que o tucano "respeita a opinião do coronel José Vicente por entender, sobretudo, que ele é um dos maiores conhecedores da área de segurança, mas não o único". O texto afirma que Doria "decidiu não ignorar a proposta feita por outros membros do grupo de trabalho para estender os cinco Baeps (Batalhões Especiais), que foram criados na gestão Alckmin e tem atuado com efetividade no combate ao crime". 

"Levar os Baeps para regiões do Estado que ainda não contam com esse tipo de policiamento ostensivo é um anseio da população e significa, por consequência, expandir o padrão Rota de policiamento. Houve um aumento no tipo de ocorrências de crimes graves no interior do Estado, como assaltos a caixas eletrônicos e transporte de valores. João Doria entende que ninguém discute a qualidade e a eficiência dos serviços prestados pelos policiais da Rota, a tropa de elite da Polícia Militar do Estado de São Paulo", afirma.

Segundo o deputado Coronel Camilo (PSD), ex-comandante da PM em São Paulo e integrante da campanha de Doria, a ampliação dos batalhões foi discutida no grupo e é necessária para combater crimes como assalto a carro forte e caixa eletrônico de bancos, nos quais quadrilhas especializadas costumam usar armamentos pesados.

"Os batalhões especiais não são uma invenção do grupo, eles já existem. O que nós defendemos é levá-los para todos os 22 comandos de área do Estado. Isso não quer dizer que estamos deixando a prevenção de lado. Mas a polícia precisa ter força de reação rápida e proporcional ao tipo de crime a ser combatido. Estamos falando de roubo e furto de caixas eletrônicos e transporte de valores com uso de explosivos. Nos Estados Unidos tem a Swat, no Rio, o Bope. Aqui em São Paulo é a Rota", disse Camilo. 

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