Convidada de honra

A definição é de um ministro: a presidente Dilma Rousseff é vista e tida no PT como uma espécie de "convidada de honra". É bem tratada, recebida com reverência, mas não priva da intimidade.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2011 | 03h05

Faz essa comparação como ponto de partida para reflexão sobre as perspectivas da reforma ministerial inicialmente prevista para janeiro e agora esperada para março a fim de coincidir com a data-limite para a desincompatibilização dos candidatos às eleições municipais.

De acordo com aquele raciocínio, a presidente da República não fará a mudança de estrutura reclamada pelo presidente da Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade do governo federal, Jorge Gerdau, para quem é pacífica a impossibilidade "de se governar com 40 ministérios".

Segundo Gerdau, seriam reduzidos em prol da eficiência. "A presidenta já tem se movimentado no sentido de criar grupos de ministérios", anunciou ele, em seminário promovido pelo jornal Valor Econômico, em novembro.

Na mesma semana, a Presidência da República informava por meio da assessoria que a ideia seria acabar com os feudos partidários da máquina pública.

De lá para cá, porém, houve uma adaptação nas versões. As mais recentes rezam que pode haver uma ou outra incorporação e substituições pontuais de ministros.

Um palpite: tudo devidamente apresentado com discurso de que o rumo pretendido pela presidente, a meta a ser alcançada é a mudança paulatina da cultura do loteamento.

Mas, os penduricalhos criados por Luiz Inácio da Silva para abrigar o maior número possível de correligionários continuarão na essência intocados.

O motivo está contido em parte na definição do ministro sobre a condição de Dilma como "convidada de honra" no PT: ela não tem autoridade nem influência no partido para desarticular a acomodação das tendências representadas nesses cargos, para todos os efeitos apelidados de "conquistas da sociedade".

Tampouco tem independência em relação a Lula para, com uma reforma de fundo, renegar a concepção que o mentor imprimiu ao modo petista de governar.

E se Dilma Rousseff não vai mexer nos balangandãs que estão nas mãos do PT, não terá liberdade para mexer nos quindins de iaiá de nenhum outro partido.

Corte real. O rei Juan Carlos, da Espanha, anunciou o afastamento do genro da agenda de compromissos da Casa Real.

Por suspeita de envolvimento em corrupção. O suficiente para o rei concluir que o comportamento do marido da filha não é "exemplar" e, portanto, incompatível com a imagem da Coroa.

Brado retumbante. Um deputado obscuro é eleito por acidente presidente da Câmara e, por obra do acaso, assume a Presidência da República com a morte do presidente e do vice em acidente de helicóptero.

Revoltado com o cenário de corrupção que encontra no governo, inicia uma cruzada que provocará demissões em série de ministros, mas também vinganças que o levarão a ser alvo de denúncias e ameaça de impeachment.

Em linhas gerais é o resumo da série Brado retumbante, que a TV Globo exibirá em oito capítulos a partir de 17 de janeiro, abordando a temática política raramente tratada na televisão.

A despeito de todos os elementos da realidade política atual, o autor, Euclydes Marinho, diz que não há mensagens nem referências destinadas a ninguém.

"Evidente que a abordagem de um tema como esse acaba levando as pessoas a pensar sobre o cotidiano real, mas o universo é de pura ficção", diz.

O diretor Ricardo Waddington afirma que a série conta "uma história que pode acontecer em qualquer democracia". O texto começou a ser escrito há três anos com a colaboração de Guilherme Fiúza, Denise Bandeira e Nelson Motta.

Apesar da preocupação dos autores em evitar comparações, as conexões serão inevitáveis.

Como não lembrar, por exemplo, da eleição de Severino Cavalcanti, das presidências acidentais de José Sarney e Itamar Franco ou do mar de lama que tomou conta da política brasileira?

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