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Contradição essencial

Ao contestar a criação da CPI da Petrobrás, em plenário, o senador José Inácio Arruda (PC do B-CE) cobrou à oposição o fato novo que a justificaria, considerando que, dois anos antes, outra CPI já investigara o caso da refinaria de Pasadena.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2014 | 02h05

Omitiu o senador, por memória falha ou seletiva, a acusação da presidente Dilma Rousseff de que a diretoria da empresa sonegara ao Conselho dados essenciais da operação que, se conhecidos, levariam à sua rejeição.

A acusação da presidente, em resposta a pergunta formulada pelo Estado sobre sua chancela à compra da refinaria, é fato não só novo em relação à primeira investigação parlamentar, como da maior gravidade.

A manifestação da presidente estabeleceu uma contradição com a versão da empresa - reiterada ontem pelo ministro da Fazenda Guido Mantega -, de que a operação comercial foi não só legítima como um bom negócio respaldado por consultoria internacional do Citigroup.

Como Dilma não refez sua versão , governo e Petrobrás têm narrativas diferentes para o mesmo caso. É essa contradição que inviabiliza a gestão da crise pelo governo e o condena à limitada estratégia de redução de danos.

A oposição ganhou espaço e visibilidade sem fazer esforço e ainda capitaliza a agressão à minoria parlamentar configurada na guerra do palácio do Planalto para evitar a CPI.

Como demonstra a história recente, mesmo CPIs que tiveram seus resultados limitados por conveniência política suprapartidária - como a que levou o nome do contraventor Carlos Cachoeira -, produziram estragos irreversíveis.

Que o diga o governador do Rio, Sérgio Cabral, cuja popularidade despencou a partir dali.

Essa imprevisibilidade é que leva governos a impedirem CPIs. A partir de sua discussão, geram vazamentos por interesses contrariados ou por atores do processo que reagem em legítima defesa.

Ou por reações de agentes envolvidos nas operações que não se dispõem a pagar solitariamente a conta de esquemas em que tiveram a cumplicidade oficial. Foi o caso do ex-deputado Roberto Jefferson, que acabou na denúncia do mensalão.

E que parece ser o caminho escolhido pelo ex-diretor da Petrobrás, Nestor Cerveró, identificado como o agente da fraude a que se refere a presidente Dilma Rousseff.

Cerveró não parece ter condições de desmentir a presidente, mas certamente tem elementos para agravar a situação da Petrobrás e de parlamentares com influência política na empresa,

É com esse cenário que o governo terá de conviver daqui em diante. A oposição ganhou um palanque, cuja legitimidade foi dada pela presidente da República.

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