Igo Estrela/Estadão
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Comissário europeu diz que vê 'sombra militar' por trás de Bolsonaro

Francês gera a primeira saia-justa com Bolsonaro na UE e questiona: "democrata?"

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2018 | 10h47

GENEBRA - O chefe da pasta de economia da União Europeia (EU), o francês Pierre Moscovici, abriu a primeira saia justa para Bruxelas em relação ao Brasil. Em declarações nesta manhã, o comissário para Assuntos Econômicos do bloco criticou a eleição de Jair Bolsonaro para Presidente e pediu que as lideranças no mundo “acordem”.

“Bolsonaro é evidentemente um populista de extrema direita”, disse o ex-ministro francês em diferentes governos socialistas em declarações à TV do senado francês. “Atrás dele, vemos a sombra dos militares que estiveram por um longo tempo no poder no Brasil, constituindo uma ditadura terrível”, declarou. 

Falando de uma forma mais ampla sobre os movimentos populistas, Moscovici alertou que tais líderes, quando chegam ao poder, depois “têm dificuldades em largar”. 

“Ele mesmo é um ex-militar e seu vice-presidente é um militar”, destacou o comissário. “É claro que é um sinal”, insistiu o francês, um dos homens de maior influência hoje dentro do bloco europeu. Bolsonaro é o terceiro militar eleito pelo voto direto no País.

Moscovici será a contraparte da equipe econômica do Presidente eleito nas reuniões do G-20 e em outros fóruns internacionais. 

A declaração de Moscovici levou a UE a se apressar em dar uma versão mais branda de sua avaliação sobre o novo governo brasileiro, insistindo que o comissário fala apenas por si mesmo e que o bloco, como um todo, não iria qualificar Bolsonaro. “O Brasil é um parceiro importante e também nas negociações com o Mercosul”, disse uma porta-voz da Comissão, Natasha Bertaud. “A UE espera fortalecer a parceria com o novo governo”, afirmou. 

“Evidentemente, respeitamos a escolha democrática do povo brasileiro. O Brasil é um país democrático com instituições sólidas e esperamos de todos os futuros presidentes do País que trabalhe para consolidar a democracia ao benefício do povo brasileiro”, afirmou a porta-voz, que qualificou o Brasil de um “parceiro muito importante”. Veja gráficos do histórico das disputas eleitorais à Presidência em dez mapas.

Questionada, a Comissão evitou fazer comparações entre Bolsonaro e líderes populistas que ganham terreno pelo continente. “Não vamos no domínio dos sentimentos. Essa comparação não leva a nada”, insistiu a porta-voz, que deixou claro que não iria dar seu “sentimento” sobre a vitória do candidato do PSL. “Não vamos entrar no debate sobre como sentimos ou não sentimos. Essa é uma eleição democrática”, pontuou, evitando o qualificar de “populista”. 

'Me pergunto: democrata?', diz comissário 

Moscovici ainda destacou que a vitória de Bolsonaro parece ser uma “tendência mundial” e que há uma perda de espaço democrático, inclusive na Europa. “Esse é um fenómeno que está ligado talvez a uma fadiga democrática sobre a qual aqueles que tem a democracia no coração deveriam refletir e organizar um contra-ataque”, alertou.

"Temos que refletir o que é a democracia e a liberdade", pediu. "Ela protege as minorias e impede a xenofobia", disse, dizendo que "teme" pelos brasileiros. Para ele, as primeiras "vítimas" no Brasil serão a imprensa, as minorias e independência da Justiça. "Quando eu vejo isso, eu me pergunto: democrata? sinceramente comprometido com as liberdades?", disse. 

Para o comissário, dirigentes em todo o mundo devem “acordar”. “Existe uma forma de fadiga com relação à crise que durou dez anos”, alertou, numa referência ao colapso econômico de 2008. “Ela não está mais, mas as sequelas são notadamente a desigualdade chocante”, disse o comissário, que pede para que as desigualdades sejam tratadas. 

Numa nota de imprensa enviada separadamente, a UE relembrou que o Brasil é um “parceiro de muitos anos em assuntos bilaterais e multilaterais”. “Temos uma ampla agenda de cooperação em áreas como comércio, ciência, tecnologia, energia, clima e direitos humanos”, indicou. 

Outro aspecto destacado foi a negociação com o Mercosul. “A UE está pronta para continuar a fortalecer sua parceria com o novo governo”, disse. “Estamos prontos para continuar a trabalhar de forma conjunta com o novo governo para fazer avançar nossos interesses comuns”, completou.

 

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