Com o foco na Delta

Do ponto de vista administrativo, a operação de venda da Delta, capitaneada pelo ex-presidente Lula, pode resolver a continuidade das obras do PAC, mas não poupará o governo dos danos colaterais decorrentes das relações ilegais da empresa com agentes públicos. Politicamente, a transação remete à clássica piada do marido traído que retira o sofá da sala.

JOÃO BOSCO RABELLO, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2012 | 03h05

A oposição avalia que a fartura de grampos que desmascararam o senador Demóstenes Torres já o condenou à cassação, o que remete seu caso para o Conselho de Ética, criando as condições para que o foco da CPI seja, de fato, a empresa líder das obras públicas. Fixar-se no que já se conhece conspira contra isso e favorece a meta do governo de poupar aliados - e a si próprio.

Essa queda de braço ficou visível na última semana com o esforço pelas convocações do empresário Fernando Cavendish, dono da Delta, e mais três governadores (do PT, PSDB e PMDB), em contraponto à exploração de escutas telefônicas em que Demóstenes vende influência ao contraventor Carlos Cachoeira, mencionando encontros com autoridades do Judiciário.

Legítima para um senador então insuspeito, essa proximidade com juízes, alguns do Supremo Tribunal Federal, contribui hoje com o empenho do PT em minar a credibilidade de julgadores do mensalão.

Boa parte dos parlamentares considera que o foco na Delta prevalecerá e desvendará a teia de relações promíscuas de políticos e servidores com o submundo do crime organizado. O que será a pá de cal na tentativa de controle da CPI pelos seus proponentes.

Um freio na

arapongagem

O deputado Paulo Teixeira (PT-SP) quer discutir na CPI do Cachoeira o uso de grampos ilegais, que configuram invasão de privacidade e "espionagem política". Sua proposta é transformar a prática em crime, após a constatar que o monitoramento ilegal era uma das especialidades do contraventor Carlos Cachoeira, que depois utilizava o material para extorquir suas vítimas. Se vingar, o mesmo valerá para o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), acusado de usar o Gabinete Militar para espionar adversários e até o vice-governador Tadeu Filipelli.

Ao vivo e a cores

O presidente da CPI do Cachoeira, Vital do Rêgo Filho, vai garantir a transmissão das reuniões da comissão pelas TVs Senado e Câmara. Como o horário das reuniões coincide com as sessões plenárias, que têm prioridade de transmissão, ele cogita mudar uma ou outra. A disposição é garantir a transmissão integral da CPI, a partir do depoimento de Cachoeira, programado para o dia 15.

Nem aí...

Indiferente ao escândalo Cachoeira, o senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) torce pela aprovação de seu projeto de lei que autoriza o funcionamento de cassinos em hotéis da região amazônica e do Pantanal. "O funcionamento de cassinos é fator de desenvolvimento em qualquer parte do mundo, e um estímulo ao ecoturismo", justifica. Para reforçar a inoportunidade do tema, o relator da matéria é o atual presidente da CPI do Cachoeira, Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB), que ainda não apresentou parecer.

Mais juízes

Depois de negar aumento ao Judiciário, o governo garantiu recursos para a criação de 225 novas vagas de juízes federais. O projeto, prestes a ser votado pelo Senado, libera 120 vagas ainda no curso deste ano.

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