Com CPI criada, base de Dilma critica articulação 'amadora' do Planalto

'Desorientação'. Até parlamentares do PT reclamam da falta de diálogo do governo não só em relação à investigação do esquema Cachoeira como em projetos espinhosos no Congresso, atacam atuação de Ideli e temem que PMDB ganhe força para pedir mais cargos

VERA ROSA / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2012 | 03h07

No dia em que o Congresso deu sinal verde para a CPI que vai investigar a ligação de políticos e empresas com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, a articulação política do governo Dilma Rousseff foi alvo de fortes críticas por parte da própria base aliada. Sem orientação do Palácio do Planalto, até parlamentares do PT passaram a bombardear o "vazio" na coordenação do governo e, em conversas reservadas, disseram temer o preço que será cobrado pelo PMDB na CPI.

"A presidente Dilma está muito bem, mas a articulação política do governo é muito fraca e amadora", atacou o senador Lindbergh Farias (PT-RJ). Favorável à investigação, ele se surpreendeu ao saber que o Planalto deflagrou uma operação para controlar a CPI e evitar desgaste, já que a Delta Construções - suspeita de injetar dinheiro em empresas de fachada ligadas a Cachoeira - é responsável por obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

"A bola da CPI está quicando há duas semanas e ninguém do governo conversou com a gente", reclamou Lindbergh. Depois de Dilma se irritar com um vídeo no qual o presidente do PT, Rui Falcão, vincula a CPI à estratégia petista para neutralizar o escândalo do mensalão, a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) pediu cautela ao partido.

Na terça-feira, ela conversou com Falcão. O governo avalia que a direção do PT foi precipitada ao tentar desviar o foco do mensalão. Falcão, porém, só divulgou o vídeo de apoio à CPI no site do PT após reunião com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para Lula, a CPI ajudará a desvendar o que ele chama de "farsa do mensalão".

'Besteirol'. "É claro que dessa CPI pode nascer uma nova linha de investigação, revelando que o esquema Cachoeira, além de ajudar uns, trabalhava para macular outros, mas é um besteirol dizer que essa apuração vai apagar outros processos", afirmou o governador da Bahia, Jaques Wagner.

Diante das queixas de aliados, Lindbergh foi ontem à tribuna para apontar as falhas do Planalto na articulação política. No seu diagnóstico, falta diálogo não só com os parlamentares, mas com os governadores, que querem renegociar as condições de pagamento das dívidas dos Estados.

"Ideli é muito frágil e o grau de esgarçamento na relação com os governadores é grande", insistiu Lindbergh. "Há uma ausência de articulação política por parte do Planalto e, por isso, está havendo solidariedade federativa. Nós, do Rio, decidimos não votar nada que prejudique os Estados, independentemente dos partidos."

A revolta de aliados é o pano de fundo que pode contaminar a primeira CPI importante da gestão Dilma. Nos bastidores, integrantes da base avaliam que a precária negociação de temas espinhosos - como a dívida dos Estados, o fim da guerra dos portos e a partilha dos royalties - incentiva reação contra o Planalto.

Petistas dizem que o PMDB, com o senador Vital do Rêgo (PB) na presidência da CPI, tem a faca e o queijo na mão e pode pressionar por mais cargos no primeiro escalão. "Isso não existe. Também somos governo e temos consciência da gravidade de uma CPI como essa", observou o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN). "Lula também nos disse que é preciso equilíbrio para não usar a CPI contra ninguém."

Ideli não quis responder às críticas de Lindbergh. O ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral) disse que não cabe ao governo tratar de CPI. "Tenho dormido bem, não me preocupo". O líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), amenizou o clima de desorientação. "Ninguém me pediu para abafar nem desabafar nada." / COLABOROU RAFAEL MORAES MOURA

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