Débora Bergamasco/Estadão
Débora Bergamasco/Estadão

Com as mãos na cabeleira dos poderosos

Médico Fernando Basto, que fez implantes em Dirceu, Múcio e Henrique Alves, diz que faltou discrição a Renan Calheiros no dia de sua cirurgia

Débora Bergamasco, Enviada especial/ Recife, O Estado de S.Paulo

12 Janeiro 2014 | 02h03

Um misto de desobediência e falta de sorte acabou fazendo com que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), fosse flagrado gastando R$ 27 mil de dinheiro público a fim de bancar viagem em um avião oficial da FAB até o Recife para fazer implante capilar, realizado em dezembro passado. Mas se ele tivesse seguido à risca a sugestão de seu médico, o cirurgião Fernando Basto, pode ser que o segredo não fosse revelado - nem o dinheiro devolvido aos cofres da União.

O médico, acostumado com pacientes do alto escalão político que prezam pela discrição, recomendou a Renan que chegasse ao hospital Memorial São José para ser internado às 6 horas da manhã, horário em que o local tem menos movimento. A reserva para o senador no bloco cirúrgico foi devidamente disfarçada sob um codinome, para não alertar quem manuseasse o livro de entrada.

Porém, Renan contrariou a sugestão e chegou às 10 horas. Aí entra o azar: naquele dia, o cantor Reginaldo Rossi estava internado no mesmo hospital e o local estava cheio de jornalistas para acompanhar o estado de saúde do artista.

Basto, 56 anos, é quem detalha o episódio. O médico tem como pacientes, além do presidente do Senado, o presidente da Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), o deputado federal Fábio Faria (PSD-RN), o ministro do Tribunal de Contas da União José Múcio Monteiro, o ex-ministro José Dirceu e tantos outros que ele não revela a identidade - desde o recesso de fim de ano, quatro nomes da política receberam cabelos novos. Pesquisa de mercado indica que o procedimento não sai por menos de R$ 15 mil.

Clientela. A fama de Basto entre os poderosos começou quando seu amigo José Múcio redesenhou a cabeleira, época em que era ministro das Relações Institucionais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "O Múcio estava muito angustiado com isso (calvície). Eu vivia conversando com ele nas reuniões de família e dizia: 'Rapaz, você precisa fazer (o transplante), você é muito visado nacionalmente', mas ele dizia: 'Eu tô louco pra fazer, mas eu me pelo de medo'. E fez. Ele evoluiu tanto espiritualmente, ficou tão feliz que acabou sendo um divulgador do meu trabalho e faz isso com naturalidade", explica Basto.

'Bocão'. Influenciado por Múcio, José Dirceu foi seu segundo garoto-propaganda de peso - e veio a público porque a operação do ex-ministro também "vazou" na imprensa. "As coisas vazam. Com o Dirceu aconteceu porque ele confidenciou a João Paulo (Lima e Silva, então prefeito do Recife) que ia fazer o transplante comigo. Dirceu fez direitinho: chegou às seis da manhã no hospital, o nome no livro de registros era outro", lembra.

Enquanto Dirceu estava na sala do pré-operatório conversando com o médico e tendo a cabeça riscada com canetinha, para indicar onde seriam implantados os folículos capilares, o telefone de Basto tocou. Era um repórter, querendo confirmar se Dirceu seria operado por ele.

"Eu disse: 'Meu amigo, não posso falar com você agora não, me dê um minuto, por favor'. Aí desliguei o telefone, continuei o meu trabalho, mas saí da sala aperreado. Pensei: 'Como é que eu vou dizer para esse homem que a história já vazou?' Pensei: 'Não vou dizer é nada'. E fui operar. Quando acabou a cirurgia, já era aquele festival no hospital, uma loucura. Mas foi o nosso amigo João Paulo que abriu o bocão."

Quando procurou Basto, o hoje presidiário José Dirceu pediu o que pedem quase todos os homens que o procuram: "muito cabelo e aparência natural". "Dirceu queria manter as entradas, mas queria encher o cabelão para dar uma remoçada", conta o médico.

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