Com apoio do irmão e do PSD, Ciro esvazia poder de Tasso

Ex-deputado retorna ao Ceará e lidera desmonte do PSDB no Estado: sigla perdeu deputados e 50% dos prefeitos no interior

CHRISTIANE SAMARCO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2011 | 03h05

A volta ao velho domicílio eleitoral foi a senha da gana com que o ex-deputado Ciro Gomes (PSB) retomaria a ação política no Ceará. Arrependido da transferência do título de eleitor para São Paulo, em 2009, a pedido do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Ciro deflagrou uma ofensiva para ampliar interior afora a base de apoio do irmão, o governador Cid Gomes (PSB). E quem pagou a conta da operação foi o agora desafeto Tasso Jereissati, ex-senador do PSDB.

As andanças de Ciro já custaram ao PSDB no Ceará a exata metade do cacife de Tasso no interior: 26 dos 52 prefeitos tucanos deixaram a legenda. A bancada federal - que já ostentou o título de maior do Brasil, quando tinha 14 deputados - hoje tem apenas um representante. E também há baixas na Assembleia Legislativa: dos oito estaduais eleitos pelo PSDB, sobraram apenas os dois dos quais Ciro fez questão de desdenhar publicamente.

Ao participar de um seminário sobre o desenvolvimento do sertão cearense, no início de outubro, Ciro disse que o ex-padrinho político "não merecia" passar pela situação que amarga hoje, "depois de tudo o que fez pelo Ceará". Mas arrematou, em tom ácido: "Não merecia ficar com dois deputados estaduais: um porque é parente e outro porque é doido e ninguém quer".

João Jaime, o "parente" citado por Ciro, não protestou, mas o deputado estadual Fernando Hugo fez questão de rebater as declarações. Em nota, defendeu Tasso e lembrou que está no sexto mandato consecutivo na Assembleia. "Tasso Jereissati foi traiçoeiramente apunhalado pelas costas pelos Judas Escariotes (sic) que estão no poder", escreveu Hugo, que devolveu a provocação. Além de lembrar que o "mundo da honestidade é dos doidos", disse que nunca se prestou a "lamber botas" de Lula, transferindo o título eleitoral como "um capacho e serviçal".

Operador do PSD. Provocações à parte, a revoada dos tucanos do Ceará vem ocorrendo no embalo da criação do PSD, que tem em Ciro seu maior operador no Estado. A quase totalidade dos prefeitos que deixaram o PSDB migrou para a sigla do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que é vista por aliados e adversários do PSB dos irmãos Gomes como "sublegenda do Ciro".

Na Câmara federal, o PSDB cearense perdeu um de seus dois deputados eleitos em 2010 para o PSD - Manoel Salviano. O remanescente, Raimundo Gomes de Matos, reconhece a ação de Ciro no desmonte do PSDB e da liderança local de Tasso, mas não faz ataques ao predador.

"O problema maior do partido não é o Ciro. É a conjuntura, a falta de perspectiva de poder", lamenta. No cenário vigente, o deputado não tem dúvidas de que o processo migratório é muitas vezes uma questão de sobrevivência política. Entende que a situação se agravou por conta da derrota eleitoral de Tasso, que perdeu a vaga no Senado para o petista José Pimentel. "Com Tasso no exercício do mandato, isto não aconteceria", aposta.

Apoio. Apesar do rompimento entre os Gomes e os Jereissatis, e a despeito do processo de esvaziamento político a que Tasso tem sido submetido, Gomes de Matos não vê nada de pessoal na ação predatória de Ciro. "Ele trabalha para ampliar a base de apoio do irmão e não cabe incriminá-lo nem desqualificá-lo por isto", defende. O deputado está convencido de que o adversário apenas desempenha a função que lhe cabe, do mesmo modo que seu papel é tentar segurar os prefeitos. Como nesse embate cada um usa os instrumentos que tem, a eficiência do governo é sempre imbatível.

Quem acompanha a movimentação do ex-deputado e ex-ministro afirma que ele é o grande coordenador político do governo estadual e da regional do PSB. E que Ciro também já está trabalhando em causa própria, de olho nas eleições de 2014 - ele mudou o domicílio eleitoral para facilitar a composição dos aliados de Lula no Ceará com a promessa de se candidatar "ao que quisesse" em São Paulo.

Cid Gomes tem dito a mais de um interlocutor que não vai se candidatar a mais nada. Afirma que pretende ficar no governo até o fim do mandato e trabalhar para eleger o irmão senador.

A um aliado, o governador disse que seu projeto pessoal é passar uma temporada fora do Brasil, ampliando o "olhar para o mundo" em uma diretoria do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Como o Brasil tem duas vagas na diretoria do BID, o governador trabalha no bastidor para ocupar uma delas por um período de dois anos, depois de deixar o governo.

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