O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2013 | 02h02

A presença do coronel da reserva Carlos Alberto Brilhante Ustra perante a Comissão Nacional da Verdade deixou exposta uma das questões centrais que envolvem o trabalho do grupo criado um ano atrás pela presidente Dilma Rousseff: como definir o regime autoritário imposto militarmente ao País entre 1964 e 1985?

Ustra voltou ao século passado ao tentar reencarnar a lógica da Guerra Fria, que via o mundo dividido em dois grandes blocos, o capitalista e o comunista, envolvidos numa guerra de vida ou morte. Por essa lógica, tudo o que ele e seus colegas da repressão fizeram foi justificável. Tratava-se de evitar, afinal, que o Brasil caísse nas mãos dos comunistas, representados por grupos armados.

Era um embate de "defensores da liberdade" contra "terroristas", diz o coronel, que se situa no primeiro grupo e faz questão de incluir o nome da presidente Dilma Rousseff na banda do mal.

Desmontar esse tipo de argumentação é um dos principais objetivos da comissão. No relatório final, que deve estar concluído em 2014, o grupo pretende deixar claro que a existência de um alguns grupos armados foi uma das desculpas usadas para impor a toda a sociedade brasileira, particularmente a partir de 1968, um estado de terror que atingiu todos os brasileiros, amordaçou a imprensa, intimidou o Judiciário, encurralou as universidades.

No amplo retrato que desenha do período, a comissão deve falar não só dos casos mais emblemáticos, de mortos e desaparecidos: vai mostrar como milhares de cidadãos foram perseguidos, perderam empregos, tiveram direitos políticos cassados. Não foram atos isolados, obra de agentes violentos encastelados em órgãos como o DOI-Codi, mas resultado de uma política de Estado.

Nesse embate pela verdade, a simples presença de Ustra perante a comissão já é uma derrota para ele. Afinal, até hoje nenhum oficial do Exército havia sido confrontado de maneira pública e tão duramente como aconteceu ontem.

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