Cobrança acima das classes

Ricos ou pobres tem o mesmo discurso para saúde, transporte ou segurança

Roldão Arruda, O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2014 | 03h00

Existe uma diferença enorme entre as expectativas políticas e administrativas de um eleitor de baixa renda e outro mais rico em relação ao próximo governo. Quando se pergunta a um e outro, por exemplo, se os gastos sociais devem ser ampliados, o número de respostas positivas entre os pobres é quase cinco vezes maior do que o registrado entre os entrevistados de renda mais alta, segundo a mais recente pesquisa Ibope/CNI. Essa disparidade se estende a várias outros temas, como geração de emprego, salário mínimo, habitação popular. Em algumas áreas, porém, há uma expressiva convergência de interesses. A mais nítida é a da saúde. Das regiões mais pobres do País às mais ricas, as pesquisas apontam uma crescente preocupação da população com o tema.

Outro assunto que causa preocupação em todos os níveis, embora com índices menos significativos, é o da segurança pública. Em São Paulo, os eleitores dão hoje mais atenção à questão da segurança do que à educação, segundo outra pesquisa do Ibope, contratada pela Rede Nossa São Paulo.

No conjunto das expectativas e preocupações dos cidadãos, o trânsito e o transporte coletivo não aparecem com tanto destaque e de forma tão nivelada nas diferentes camadas de renda. Quando se aborda o tema de maneira mais específica, porém, com perguntas aos pesquisados sobre formas de solucionar os problemas, observa-se novamente a convergência de opiniões.

A mesma pesquisa Ibope/Rede Nossa São Paulo mostrou, por exemplo, que 70% dos paulistanos consideram o trânsito ruim. E quando se pergunta a eles o que pode ser feito para melhorar a circulação, 64% pedem mais investimento em transporte público - e 90% apoiam a criação de faixas exclusivas para ônibus.

Mudança de percepção. Na avaliação de Marcos Bicalho, consultor em planejamento de transporte e assessor da Associação Nacional de Transportes Públicos, a preocupação das pessoas em relação ao transporte está relacionada a dois fatores. De um lado existe uma enorme insatisfação com o sistema em vigor. De outro, já se começa a perceber que as soluções encontradas até agora não funcionam mais. É um momento de mudança e de insegurança.

“O sofrimento causado pelo trânsito e pelo transporte público, com perdas de horas e horas, desconforto e custo elevado, mesmo com subsídios para as tarifas, afeta todos os moradores há muito tempo”, observa. “A diferença é que só recentemente se começou a discutir a prioridade nos investimentos. Não se trata necessariamente de destinar mais dinheiro, mas de definir onde aplicá-lo. Quando o cidadão discute se deve haver ou não faixas exclusivas para ônibus ou bicicleta, está falando claramente em privilegiar um tipo de usuário da via pública em detrimento de outro.”

Bicalho acredita que o número de pessoas dispostas a deixar o carro em casa e usar coletivos ou bicicletas é menor do que os que declaram apoiar faixas exclusivas, mas ele vê no resultado das pesquisas um emblemático início de mudança de foco.

Até recentemente, segundo o especialista, os moradores das metrópoles viam o metrô como uma espécie de solução mágica para o problema: melhoraria a circulação, sem entrar em conflito com os carros e os ônibus. “Aos poucos estão percebendo, porém, que isso não acontecerá, porque o custo do metrô é altíssimo. Diante disso vamos ter que discutir cada vez mais como compartilhar o espaço público disponível.”

Distorção. Na área da segurança, os eleitores têm uma visão mais distorcida dos problemas e das soluções, na avaliação do cientista político Guaracy Mingardi, especialista em segurança pública. “O debate eleitoral nem sempre ajuda. A maioria das pessoas tem uma noção mais ou menos imprecisa do que fazem a União, o Estado e a Prefeitura. E sempre acham que a União, por ser a instituição que tem mais poder, é quem deve resolver tudo. O cidadão quer a Polícia Federal e o Exército na rua da sua casa, para se sentir seguro”, observa.

Embora ache que a União precisa participar de maneira mais ativa das questões de segurança, vigiando melhor as fronteiras, por exemplo, Mingardi afirma que a solução pode estar mais próxima do que o eleitor imagina. “Está sendo debatida no Congresso uma legislação que, se vingar, pode valorizar o papel da Guarda Municipal, o que é muito bom. Para o policiamento comunitário, o controle do trânsito e outras atividades urbanas, a Guarda Municipal é melhor que a Polícia Militar. As pessoas vão perceber com o tempo que não precisam de uma marreta para matar uma formiga.”

Modelo atrasado. Na questão da saúde, que paira ano após ano no topo das preocupações do eleitorado, um aspecto que chama a atenção dos especialistas é o fato de ter dimensões semelhantes tanto para quem utiliza o sistema público, o chamado Sistema Único de Saúde (SUS), quanto para os cidadãos que recorrem a convênios médicos. Na avaliação do médico Gonzalo Vecina Neto, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e superintendente do Hospital Sírio-Libanês, isso ocorre porque os dois sistemas utilizam modelos de atendimento ultrapassados.

“Há um estado geral de perplexidade”, diz Vecina. “Isso se deve, em grande parte, a mudanças que ocorreram no País e que não foram acompanhadas pelo setor público e a iniciativa privada. Nos últimos 30 anos, o número de doenças infectocontagiosas diminuiu em todo o País. As campanhas de vacinação deram certo, o acesso à água tratada aumentou, a taxa de natalidade caiu, a população envelheceu. Nesse meio tempo, doenças que não apareciam como causa importante de mortalidade começaram a se destacar.”

Segundo Vecina, hoje no Brasil 60% da mortalidade é representada por dois grupos de doenças: 35% de cardiovasculares, 25% de câncer. “Apesar dessa mudança, na qual as doenças crônico-degenerativas ganharam importância, o modelo de atendimento não mudou. Daí a insegurança. Enquanto você atende a uma infecção com duas ou três consultas, a doença crônica degenerativa é pelo resto da vida.”

Nesse novo cenário, o País precisa aumentar o número de médicos, alterar a formação nas escolas e mudar todo o sistema de atendimento, segundo Vecina.

Tudo o que sabemos sobre:
Desafios ServiçosEleições

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.