Coaf vê movimentação atípica de empreiteira

Segundo revista, conselho registrou, de 2006 a 2011, repasse suspeito de R$ 115 milhões da Delta para empresas fantasmas

BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h04

Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mostra movimentações atípicas da empreiteira Delta com o repasse de R$ 115 milhões a empresas fantasmas. Segundo reportagem da revista Veja, os dados são referentes ao período de 2006 a 2011 e revelam a existência de oito empresas que atuariam como laranjas da construtora.

A Delta está na berlinda desde a eclosão do escândalo que levou à prisão do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, que tinha uma relação próxima com a construtora.

As movimentações chamaram a atenção do órgão de fiscalização porque o dinheiro entrava na conta das empresas e saía logo em seguida, na maioria das vezes por saques feitos na boca do caixa. As retiradas eram feitas em valores inferiores a R$ 100 mil justamente para tentar evitar chamar a atenção do órgão de controle. A maior parte das transações se concentrou em 2006, 2008 e 2010, anos eleitorais. Em 2006 foram realizados 59 saques sucessivos nos 30 dias anteriores à eleição, totalizando R$ 5 milhões. O responsável por retirar o dinheiro teria sido o gerente financeiro da Delta, Alexandre Wilson Pinto.

Um dos laranjas da Delta seria a GM Comércio de Pneus e Peças Ltda., de Goiânia (GO). Proprietário da GM, o policial civil aposentado Alcino de Souza admitiu à Veja que emprestou seu nome a Fábio Passaglia para a abertura da empresa e que atuava também como office boy, sacando o dinheiro que entrava na conta. A GM recebeu da Delta depósitos superiores a R$ 6 milhões, entre novembro de 2009 e maio de 2010.

Passaglia atuou como auxiliar dos ex-governadores Iris Rezende e Maguito Vilela, os dois caciques do PMDB goiano. Ele afirmou que a GM era fornecedora da Delta.

Outras três empresas de São Paulo também são suspeitas de atuar como fachada da Delta. A Legend Engenheiros Associados recebeu R$ 23,2 milhões da empreiteira. Seu dono é o técnico de refrigeração Jucilei Lima dos Santos, que mora em um sobrado modesto no bairro Carandiru, na zona norte da capital. Ele diz nunca ter ouvido falar da existência da empresa. Outras duas empresas paulistanas que receberam vultuosos repasses da Delta são Rock Star Marketing e S. M. Terraplanagem, R$ 3,9 milhões e R$ 20,7 milhões, respectivamente.

Por trás delas está Adir Assad, empresário do ramo de eventos. Ele confirmou ser o dono de fato das três empresas e disse prestar serviços à empreiteira. Disse nunca ter tido relações com políticos, mas a Legend já fez doação à campanha do PT em Campo Grande em 2008. Assad disse ter esquecido da contribuição.

CPI - Em outra reportagem, a Veja afirma que documento obtido na liderança do PT mostra que o partido pretendia usar a CPI do Cachoeira para atacar o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes e o procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

Em relação a Mendes, o material dedicava a ele quatro tópicos: "O processo da Celg no STF"; "Satiagraha, Fundos de Pensão, Protógenes"; "Filha de Gilmar Mendes" e "Viagem a Berlim". Sobre Gurgel, o documento focaria a atuação dele na Operação Vegas, de 2009, que investigou Cachoeira e já sugeria seu envolvimento com o senador Demóstenes Torres (ex-DEM,sem partido-GO). O íder do PT na Câmara, Jilmar Tatto, negou ontem a existência de um documento oficial orientando deputados do partido na CPI. Ele disse a revista apresentou um documento apócrifo.

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