Cineasta nega presença em protesto contra militares no Rio

Acusado pelo Clube Militar de fomentar protesto, Silvio Tendler avisa que tratamento o impedia de sair de casa

WILSON TOSTA / RIO, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2012 | 02h07

Em cadeira de rodas há cerca de um ano, o cineasta Silvio Tendler afirmou ontem ao delegado Alcides Pereira, titular da 5.ª DP (Gomes Freire), que não participou do ato contra o golpe de 64 que terminou em confusão entre ativistas e oficiais da reserva próximo ao Clube Militar, no Rio, em 29 de março passado.

Nem poderia: quando houve o tumulto, Tendler, autor de documentários de sucesso como Os Anos JK e Jango, se recuperava de cirurgia na medula, que sofrera em fevereiro, e já não podia andar. Enquanto depunha, cerca de 50 pessoas, entre ativistas do Partido Comunista do Brasil, Movimento dos Sem Terra, Grupo Tortura Nunca Mais e estudantes, com cartazes com os rostos de mortos e desaparecidos da ditadura, como Rubens Paiva e Iara Iavelberg, protestavam contra a investigação.

Tendler é um dos citados em investigação aberta pela Polícia Civil a pedido do Clube Militar para apurar o crime de constrangimento ilegal qualificado, que teria ocorrido quando ativistas de partidos e organizações de esquerda cercaram a entidade, no Centro do Rio, durante ato que lembrava os 48 anos do golpe.

"Acho que consegui reverter a acusação", declarou Tendler, depois do depoimento, que prestou com apoio de advogados, de seu médico e de representantes da Ordem dos Advogados do Brasil e outras entidades.

"Eles me consideram presente no ato. Não fui não por falta de vontade, mas porque não podia sair. Me puseram presente jogando pedra", reagiu o cineasta. E foi adiante: "Consegui mostrar todas as mentiras. No processo, chamam de reunião um ato para comemorar o golpe, desacatando determinação da presidente da República de proibir esses atos." Tendler lembrou também que sua mãe foi presa durante a ditadura. "Não só roubaram o relógio dela, como foi agredida, torturada, humilhada, nas dependências do DOI-Codi. Provavelmente um dos torturadores dela estava no ato", afirmou.

Advogados que acompanharam Tendler consideraram que o depoimento foi legal, mas um deles, Modesto da Silveira, afirmou que ele poderá processar quem lhe causa danos morais e materiais .

Depois de sitiados no prédio na esquina da Avenida Rio Branco com rua Santa Luzia, no centro do Rio, os oficiais precisaram de proteção policial para sair. Houve bate-boca, acusações de tortura e estupro de presos, muita tinta vermelha jogada nos militares e até cusparadas. A Polícia usou gás de pimenta e bombas para garantir a retirada.

Em seu protesto de ontem, ativistas exigiram a abertura dos arquivos da ditadura e prisão para os torturadores. Houve gritos de "Silvio Tendler é meu amigo/mexeu com ele/mexeu comigo". Perto dali fica a ex-sede do antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), um dos órgãos de repressão da ditadura. O prédio, em reforma, possivelmente dará lugar a um shopping.

Outro lado. O presidente do Clube Militar, general da reserva Renato Tibau, não foi localizado para comentar a investigação, assim como seu assessor, general Clóvis Bandeira. O chefe de gabinete da presidência da entidade, coronel da reserva Pedro Figueira Santos, negou que o clube tenha acusado Tendler de estar presente ao ato que degenerou na confusão. "Ele incitou a fazerem o que fizeram. Não dissemos que ele estava presente", afirmou.

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