Chico Mendes e Gringo, um exemplo da discrepância

Sindicalistas atuaram na Amazônia na ditadura; família de Mendes, do PT, recebeu indenização; já o outro caso está parado

BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

02 Junho 2013 | 02h07

Os sindicalistas Chico Mendes, do Acre, e Raimundo Ferreira Lima, o Gringo, do Pará, atuavam contra grileiros numa Amazônia conflagrada. A ditadura tinha tirado da área rural os agentes do Centro de Inteligência do Exército (CIE). A repressão continuava, porém, com as polícias e as milícias privadas. Gringo foi morto por um consórcio de fazendeiros em 1980. Chico Mendes morreu mais tarde, em 1988.

A Comissão de Anistia começou a analisar os dois casos em 2005. Três anos depois, concedeu o benefício para a família de Chico Mendes, um filiado do PT e ativista do movimento ambiental que teve o nome gravado no Panteão da Pátria, num lobby dos irmãos petistas Tião e Jorge Viana - o primeiro, atualmente governador do Acre e o segundo, senador. O caso de Gringo, que não tinha filiação partidária, está parado há oito anos na comissão.

Prioridade. Representantes das Comissões dos Mortos e Desaparecidos e da Anistia dizem que a política de reparação por danos e violências do tempo da ditadura prioriza vítimas de agentes das Forças Armadas. Não há, porém, registros do envolvimento de militares na morte de Chico Mendes. No caso de Gringo, agentes do serviço secreto do Exército acompanharam a trajetória sindical do líder da região de Itaipava, no Pará, do começo da guerrilha do Araguaia, em 1972, até a morte dele.

O fato de Gringo ter sido um perseguido e um morto do regime militar não garantiu que ele entrasse na lista dos mortos cujas famílias receberam indenização. "O Gringo não era do PT ou do PC do B, mas era um adversário reconhecido pelo regime", afirma Gilney Viana, que coordenou o estudo Camponeses mortos e desaparecidos: excluídos da justiça de transição.

O estudo da Secretaria de Direitos Humanos é levantado em meio à pressão de sobreviventes dos movimentos populares de Trombas, em Goiás, e Perdidos e Viseu, no Pará, pelo reconhecimento dos massacres promovidos pelo Estado nos anos 1960, 1970 e 1980.

Na chamada revolta de Trombas, agentes das Forças Armadas e a polícia perseguiram e torturaram dezenas de camponeses num vasto período que começou ainda no tempo do governo de Getúlio Vargas.

O temor dos camponeses é que a Comissão Nacional da Verdade, instalada há um ano para investigar crimes ocorridos durante a ditadura militar, mantenha a velha prática das Comissões de Mortos e Desaparecidos e de Anistia de priorizar as vítimas "vips" e das classes média e alta em seus trabalhos.

Decepção. No balanço de um ano da Comissão Nacional da Verdade, divulgado no dia 21, o grupo de trabalho que investiga a violência no campo não apresentou resultados. Sobreviventes da repressão de Trombas saíram decepcionados do encontro. Para eles, as mortes e torturas de camponeses ainda não são uma prioridade do grupo. / L.N.

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