Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Centrão busca 'culpados' por estagnação de Alckmin nas pesquisas

Líderes do bloco elegeram o próprio PSDB como o maior responsável pelos erros na campanha tucana

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2018 | 23h01

BRASÍLIA -  Dirigentes do Centrão já procuram culpados pela estagnação do candidato do PSDB à Presidência, Geraldo Alckmin, nas pesquisas de intenção de voto. Na lista dos erros da campanha, líderes do bloco elegeram o próprio PSDB como o maior responsável pelo mau desempenho do tucano nas eleições 2018.

Inconformado com o “fogo amigo” de políticos do PSDB, o comando da campanha de Alckmin está pedindo a correligionários, a 11 dias da eleição, que parem de fazer críticas públicas ao candidato e de apontar problemas na equipe. Em conversas reservadas, dirigentes do Centrão dizem ser difícil segurar traições na aliança quando os próprios tucanos partem para o bombardeio.

O último ataque partiu do deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), candidato ao Senado. Ao participar de uma sabatina em Pernambuco, Araújo -- que foi ministro das Cidades no governo de Michel Temer -- disse que o ex-prefeito João Doria, hoje candidato do PSDB ao governo paulista -- teria um perfil mais “assertivo” para disputar o Palácio do Planalto.

“Quem tem essa característica no PSDB é o Doria, mas o governador Alckmin poderia ter avançado nesse tipo assertivo”, afirmou Araújo. Questionado se a campanha havia sido mal administrada, o deputado não titubeou. “Acho que sim. Acho que faltou vigor nas ideias. O eleitor brasileiro, hoje, exige firmeza nos pensamentos”, respondeu ele.

O tucano também não descartou a possibilidade de apoiar o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, caso ele chegue ao segundo turno com o ex-prefeito Fernando Haddad (PT).  “Uma coisa é certa: eu não voto no PT. Aí é discutir com a sociedade e o partido, mas tenho certeza de que o PT não é o caminho para o País”, insistiu o ex-ministro.

As declarações de Araújo foram feitas logo depois que o deputado Marcos Montes (PSD), candidato a vice na chapa de Antonio Anastasia (PSDB) ao governo de Minas, admitiu a possibilidade de “dar as mãos” a Bolsonaro. Em ato com prefeitos na cidade mineira de Patrocínio, Montes afirmou que “lamentavelmente” Alckmin mantinha-se estagnado nas pesquisas de intenção de voto. “A partir do momento que eu achar e o professor Anastasia também achar que o candidato Alckmin não vai ao segundo turno, nós precisamos dar as mãos ao candidato Bolsonaro”, disse Montes, aplaudido pela plateia.

Ao Estado, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, jogou água na fervura e amenizou as afirmações do deputado. “Ele tem sido correto com o Geraldo. Nós não trabalhamos com a hipótese de não irmos para o segundo turno”, desconversou Kassab, que é ministro de Ciência, Tecnologia e Comunicações. O PSD integra a coligação de apoio a Alckmin.

Nas fileiras do PSDB, o senador Tasso Jereissati, ex-presidente do partido, e o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, também criticaram a campanha tucana, nos últimos dias. Tasso, por exemplo, disse que o PSDB cometeu “erros memoráveis”. O principal deles, na sua avaliação, foi o fato de o partido ter entrado no governo Temer. “Foi a gota d’água, junto com os problemas do Aécio (Neves). Fomos engolidos pela tentação do poder”, afirmou Tasso ao Estado.

Desafeto de Alckmin, com quem tentou, sem sucesso, disputar prévia para a escolha do candidato ao Planalto, Virgílio disse, por sua vez, que ninguém no PSDB estava satisfeito com a campanha do ex-governador de São Paulo. “Não vejo nenhuma chance de vitória dele. Não tenho como apoiá-lo. Alckmin não é uma pessoa confiável aos olhos do eleitor do Amazonas”, disse Virgílio.

Além do “fogo amigo”, dirigentes do Centrão observam que outro erro da campanha foi o fato de Alckmin ter subestimado o peso de São Paulo. A portas fechadas, líderes do bloco comentam que, como o tucano governou o Estado por quase 14 anos, achou que poderia concentrar a caça aos votos em outras regiões. Com isso, acabou permitindo que Bolsonaro o ultrapassasse no maior colégio eleitoral do País e tenta, agora, recuperar o terreno perdido.

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