CENÁRIO: ruas querem mais gastos; investidores, cortes de custeio

A promessa do governo de cortar gastos de custeio vai na contramão do que exigiram as manifestações que tomaram conta do País. Mais médicos, melhores salários para professores e mais subsídios para os transportes são todos gastos incluídos nesse grupo. Também estão nele as viagens, os cafezinhos, os cartuchos de impressora e despesas grandes, como os benefícios previdenciários e salários do funcionalismo. Entram na conta ainda a manutenção de escolas, postos de saúde e hospitais. "Se o governo quiser dar uma resposta de curto prazo, a tendência é de haver mais custeio, e não menos", observa o economista Mansueto Almeida.

Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2013 | 02h05

Assim, o governo se encontra no meio de duas fontes opostas de pressão. Por um lado, as demandas das ruas por mais gastos. De outro, a necessidade de recobrar a confiança dos investidores na condução da economia, que poderia começar com um ajuste no gasto público. A recomendação dos economistas é que o corte recaia principalmente sobre o custeio, para não sacrificar os investimentos. A balança parece pender agora para a segunda opção, mas qualquer aperto anunciado pelo governo será recebido com ceticismo.

Especialistas acreditam que não há espaço para um corte relevante de despesas. "Eles podem anunciar um corte de vento", observa o economista-chefe da corretora Tullett Prebon, Fernando Montero. "Espaço há, mas eu duvido que seja um corte real." Ele observa que a programação de gastos deste ano prevê um total de despesas primárias de R$ 933 bilhões, ante R$ 805 bilhões no ano passado. Nesse crescimento, estão incluídos investimentos que o governo não conseguirá realizar, a exemplo do que ocorreu em anos anteriores.

Cortá-los permitirá anunciar uma medida de austeridade. Mas, na prática, é um corte sobre o nada.

E reduzir custeio, como vem indicando o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não é tarefa fácil. De tudo o que o governo gasta a cada ano, 90% são despesas obrigatórias, como salários e aposentadorias, que não podem ser cortados. Restam 10%, onde estão parte do custeio e todo o investimento. "Se o governo cortar todas as viagens e diárias, o que é impossível, a economia seria de R$ 2 bilhões, o que é quase nada em comparação com o total das despesas", observa Mansueto.

Em seu primeiro ano de governo, a presidente Dilma Rousseff prometeu uma forte contenção de despesas de custeio. As viagens foram justamente a parte mais bem- sucedida do ajuste. Mas não foi possível conter, por exemplo, os gastos com seguro-desemprego. Pelo contrário, os gastos aumentaram em comparação com 2010.

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