CENÁRIO: Ex-prefeito terá de se adaptar à estrutura pensada para Lula

É usando o figurino herdado do padrinho preso em Curitiba e sob desconfiança de setores do PT que Fernando Haddad vai ter de se apresentar ao eleitorado do ex-presidente

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2018 | 05h00

Com a decisão da Justiça Eleitoral de negar o registro da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad assumiu, finalmente, a cabeça da chapa do PT na disputa presidencial, mas vai ter de se virar para caber em um figurino que não é seu, é do ex-presidente petista.

Tudo o que Haddad vai ter a seu dispor daqui até o dia 7 de outubro (data do primeiro turno), desde os nomes da coordenação da campanha até a equipe de comunicação, programa de governo e discurso, foi pensado, escolhido e moldado segundo as medidas e o gosto de Lula. As lideranças petistas mais próximas de Haddad, como o tesoureiro do PT, Emídio de Souza, e o ex-presidente do partido Rui Falcão, não integram o time da campanha. O grupo da atual presidente do partido, Gleisi Hoffmann, coordenadora-geral da campanha, foi um dos que mais impuseram restrições à escolha do seu nome. 

Algumas semanas atrás, quando os próprios petistas já admitiam em reservado que Lula seria barrado pela Justiça, um assessor próximo do ex-prefeito usou a seguinte comparação: “Vamos herdar um terno pronto que não é nosso e podemos, no máximo, fazer um ajuste aqui, outro ali”.

Haddad tem seguido à risca as orientações de Lula e se esforçado para caber no figurino. Vestiu chapéu de vaqueiro no Nordeste, passou a usar metáforas futebolísticas em discursos e entrevistas, recuou de posições que desagradavam ao PT, como as críticas ao governo Dilma Rousseff e a negação da palavra golpe – agora, ele diz que queria “adjetivar” o “golpe legislativo”. 

A estratégia é promover uma espécie de amálgama entre Haddad e Lula, mas alguns petistas avaliam que em algum momento o ex-prefeito vai ter de se livrar da tutela do ex-presidente. Por isso, já existe quem o oriente a abrandar o discurso de Lula e fazer acenos a setores que se distanciaram do PT desde o impeachment de Dilma.

Por outro lado, alas do PT e movimentos sociais que se opuseram ao nome de Haddad até o último momento, e só o aceitaram devido à imposição de Lula, vão esticar a corda para o lado oposto, o da radicalização.

É assim, usando o figurino herdado do padrinho preso em Curitiba e sob desconfiança de setores do PT, que Haddad vai ter de se apresentar ao eleitorado do ex-presidente que ainda o desconhece, convencer estes eleitores em exíguo espaço de tempo de que é o autêntico sucessor de Lula e evitar o avanço de Ciro Gomes, candidato do PDT à Presidência, sobre o espólio do petista. 

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