Werther Santana /Estadão; Gabriela Biló /Estadão; Alex Silva/ Estadão; Nilton Fukuda/Estadão
Werther Santana /Estadão; Gabriela Biló /Estadão; Alex Silva/ Estadão; Nilton Fukuda/Estadão

Cenário da eleição em São Paulo põe polarização em xeque

Com 11 pré-candidatos até aqui, disputa na capital paulista dá sinais de que vai romper com embate PT x PSDB dos últimos 16 anos e ter briga por voto bolsonarista

Pedro Venceslau, Paula Reverbel e Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2020 | 05h00

A três meses e meio do primeiro turno, a corrida pela Prefeitura de São Paulo já tem 11 pré-candidatos declarados. A disputa projeta neste momento o rompimento com a tradicional polarização PSDB x PT na cidade – os dois partidos disputaram o segundo turno três vezes entre 2004 e 2016. Indica também que não haverá, na capital paulista, a repetição do embate entre bolsonarismo e petismo que marcou a última eleição presidencial. Enquanto a direita conservadora busca os votos bolsonaristas, mas evita se associar ao presidente Jair Bolsonaro, a esquerda vê o PT isolado. 

Para o cientista político Carlos Melo, professor do Insper, a campanha em São Paulo deve ser marcada pelo que ele chama de “antipolaridade”: o antipetismo de um lado e o antibolsonarismo de outro. “A direita quer o eleitor conservador anti-PT, mas sem se estigmatizar como eleitor anti-bolsonarista. Já na esquerda muita gente aposta no pós-Lula”, afirmou Melo. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou a prisão, onde cumpria pena por corrupção e lavagem de dinheiro, em novembro e chegou a ser questionado por sindicalistas e aliados por não ter retomado o mesmo ritmo de atuação política, como mostrou o Estadão em janeiro.

Entre os postulantes, o pré-candidato do PRTB, Levy Fidelix, que comanda o partido do vice-presidente da República, Hamilton Mourão, é um dos que se definem como bolsonarista. Ex-aliado do governador João Doria (PSDB), Filipe Sabará, do Novo, também elogia o governo federal, mas evita o rótulo de apoiador do presidente. “Vou defender as coisas boas e criticar as ruins do governo dele (Bolsonaro). Vou buscar os votos da direita raiz.”

Aliada de Bolsonaro até o ano passado, a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) deve buscar o voto da direita que tem críticas ao presidente. A mesma postura deve ser adotada por Andrea Matarazzo, embora seu partido, o PSD, tenha indicado o ministro das Comunicações no mês passado. “Costumo dizer que buraco de rua não é de direita, de esquerda nem de centro, mas precisa ser tapado.” 

No campo da esquerda, o PT escolheu o ex-secretário municipal de Transportes Jilmar Tatto como pré-candidato e deve caminhar para a disputa mais isolada da história do partido. Até o PCdoB, satélite petista desde 1989, pela primeira vez vai ter candidatura na capital, com o deputado Orlando Silva. Tatto é visto como um nome de pouca projeção – obteve apenas 6% dos votos na disputa por uma vaga no Senado em 2018. Apesar disso, o PT aposta em Lula para garantir votos. “O PT ainda tem a hegemonia da esquerda e Lula será o nosso grande cabo eleitoral”, disse o deputado estadual Enio Tatto, irmão do pré-candidato. 

Guilherme Boulos, pré-candidato do PSOL, também acredita na influência de Lula, mas duvida de sua atuação na campanha. “Justamente pela dimensão da sua figura, não creio que ele vai entrar de cabeça nas disputas municipais, ainda mais onde a esquerda está dividida.”

Além de ser uma resposta à polarização política dos últimos anos, a dispersão de candidaturas pode ser explicada pelo fim das coligações, na avaliação do cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV. A regra permitia que partidos se unissem para ter mais chances de atingir o quociente eleitoral – número formado pelo total de votos válidos dividido pela quantidade de cadeiras na Câmara. Apenas legendas que atingem essa cota conseguem eleger vereadores. A partir da eleição de novembro, não haverá mais coligações. Por isso, partidos menores veem na possibilidade de lançar um candidato a prefeito a chance de puxar votos na Câmara Municipal. 

“É até recomendável que partidos pequenos lancem um candidato próprio na disputa pela prefeitura, para atrair eleitores”, disse Teixeira.

A definição das candidaturas para comandar a maior cidade da América Latina ainda depende da realização das convenções partidárias. De acordo com o calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alterado devido à pandemia do novo coronavírus, os partidos devem definir suas chapas entre 31 de agosto e 26 de setembro.

Eleições 2020 em Campinas

As eleições em Campinas seguem em uma situação parecida com a da capital paulista. Lá, também se observa um pleito ainda completamente indefinido, em que mais de uma dezena de potenciais nomes se apresentam como pré-candidatos. O Estadão apurou que, nas pesquisas internas de partido, nenhum dos nomes apresenta mais que 10% das intenções de voto.

No campo da esquerda, dois nomes despontam como sendo os com o maior potencial eleitoral. O candidato petista será o vereador Pedro Tourinho, que não tem a expressão eleitoral de Marcio Pochmann, nome que disputou o cargo pelo PT em 2012 e 2016. Adversários do PT avaliam que o recuo de Pochmann faça com que a sigla perca eleitores na cidade. A esquerda conta ainda com o pré-candidato do PDT, o ex-prefeito Hélio de Oliveira Santos, também conhecido como Doutor Hélio. Apesar de ele ter sido eleito por dois mandatos consecutivos, não terminou o segundo, tendo sofrido um impeachment em 2011, e possui condenações na Justiça. 

Mais à direita há Tenente Santini (PP), que é um dos candidatos mais ligados ao bolsonarismo. Ao centro, há o deputado estadual Rafa Zimbaldi (PL), que está com cerca de 8% das intenções de voto.

Ainda será definido quem será o candidato da aliança PSB-PSDB, já que o prefeito socialista Jonas Donizette – que não tem direito à reeleição – e o deputado federal tucano Carlos Sampaio são as principais lideranças políticas da cidade. Haverá reprise da aliança, e ambos vão decidir qual nome terá o crivo do governador João Doria (PSDB). O próprio Carlos é uma possibilidade. 

Eleições 2020 em Ribeirão Preto

Em Ribeirão Preto a situação está mais definida, já que o atual prefeito, Duarte Nogueira (PSDB) vai disputar a reeleição e conta com o apoio do governador. O principal adversário seria o ex-vereador socialista Ricardo Silva, que ainda não confirmou o seu nome para a disputa, mas foi o segundo colocado nos pleitos anteriores. Silva também era o segundo suplente do PSB na Câmara dos Deputados e foi efetivado no exercício do mandato, com a morte de Luiz Flávio Gomes e o afastamento de Jefferson Campos.

A terceira via é o pré-candidato João Gandini, juiz aposentado que deve disputar pelo MDB com o nome Juiz Gandini. Nas últimas eleições municipais, ele disputou pelo PHS e terminou em terceiro lugar. De lá para cá, chegou a passar pelo PSD de Gilberto Kassab antes de se filiar ao MDB a convite de Baleia Rossi. Há ainda a possibilidade do presi­dente da Câmara, Lincoln Fer­nandes (PDT), entrar na disputa. 

Eleições 2020 em São José do Rio Preto

O cenário também está mais nítido em Rio Preto, onde o atual prefeito Dinho Araújo, do MBD, também disputará a reeleição com boas chances de sair-se vencedor. O principal adversário será o vereador tucano Renato Pupo, que conta com o apoio do governador. O DEM também lançou a pré-candidatura do ex-deputado estadual Orlando Bolçone.

No campo da esquerda, o PSOL lançou o ex-vereador e ex-petista Marco Rillo, pai do também ex-petista João Paulo Rillo. O filho, que havia sido candidato a prefeito da cidade em três ocasiões – 2008, 2012 e 2016 –, desistiu de se lançar este ano quando não conseguiu formar uma frente de esquerda que abrangia o PT e o PC do B. O PT anunciou a pré-candidatura da ex-vereadora Celi Regina.

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