CENÁRIO: Anfitrião de Lula

Na passagem do ex-presidente por Montes Claros (MG), em outubro, o empresário Josué Gomes recebeu o petista; articulação tentava reeditar no imaginário do eleitorado chapa vencedora de 2002, que uniu 'trabalho' e 'capital'

Eduardo Kattah, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2018 | 05h00

No dia 27 de outubro do ano passado, o empresário Josué Gomes da Silva recebeu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sede da fábrica da Coteminas, em Montes Claros, no norte de Minas. Lula havia completado naquele dia 72 anos e estava em caravana pelo Estado. Como normalmente ocorria nas agendas do comboio do ex-presidente, um clima de campanha eleitoral marcou a visita: “O povo quer Lula presidente e vice Josué”, gritava um grupo, segundo registros da imprensa local.

O coro era o gesto explícito de uma articulação que vinha sendo construída para, conforme avaliavam petistas, reeditar no imaginário do eleitorado a chapa vencedora de 2002, que uniu o “trabalho” e o “capital”.

Josué costumava desconversar e era evasivo quando questionado sobre a possibilidade de se candidatar novamente neste ano – ele disputou o Senado por Minas em 2014, mas não foi eleito. No entanto, o empresário costumava reconhecer em conversas reservadas a gratidão a Lula pelo tratamento carinhoso e atencioso dispensado ao pai, o ex-vice-presidente José Alencar, durante os dois mandatos presidenciais e, principalmente, quando seu estado de saúde se agravou. José Alencar morreu em março de 2011, pouco depois de deixar o governo.

Quando Josué recebeu Lula na fábrica da Coteminas, o líder petista havia sido condenado a nove anos de prisão pelo juiz federal Sérgio Moro, e sua intenção de disputar um novo mandato no Planalto já estava sob o espectro da prisão na Lava Jato e da inelegibilidade com base na Lei da Ficha Limpa. 

O empresário mineiro, contudo, indicava de que lado estava no tabuleiro político: “O que eu tenho que defender, até por obrigação de filho, são as conquistas no campo econômico e social de um governo do qual meu pai participou”, disse ao Estado em janeiro. Josué surpreendeu colegas da Fiesp e correligionários do MDB mineiro ao se filiar ao PR (o antigo PL de José Alencar) no início de abril, no prazo final da chamada janela partidária. O fez a pedido de Lula. 

Segundo integrantes da coordenação de campanha de Geraldo Alckmin , o empresário foi muito educado e gentil nas tratativas com o tucano, mas o candidato do PSDB percebeu que ele estava desconfortável com o convite para ser vice. Ainda conforme esses tucanos, a outros interlocutores do mundo político, o empresário teria alegado também uma ligação histórica com o ex-ministro José Dirceu para recusar o convite.

Foi Dirceu quem insistiu e levou Lula, na época a contragosto do ex-sindicalista, para conhecer o seu futuro vice, numa concorrida festa que marcava os 50 anos de vida empresarial de José Alencar, no Palácio das Artes de Belo Horizonte, em março de 2000.

Josué afirma que não visitou o ex-presidente na prisão em Curitiba. Ele praticamente não falou publicamente sobre a condenação e encarceramento dele. O PT, porém, nunca deixou de considerá-lo um aliado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.