Epitacio Pessoa/Estadão
Epitacio Pessoa/Estadão

'Celso nunca jogou para a plateia'

Em Tatuí, cidade onde ministro do Supremo nasceu, amigos se dividem sobre voto decisivo

BRENO PIRES, ENVIADO ESPECIAL A TATUÍ (SP), O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2013 | 02h18

O ministro Celso de Mello, em termos culinários, é um homem tradicional. O pedido de costume no restaurante Docas, na cidade de Tatuí (SP), onde o decano do Supremo Tribunal Federal nasceu e fez o ensino fundamental, é o filé à parmegiana.

O dono do restaurante, Claudio Ferreira, de 61 anos, acredita que Celso de Mello também não vai descartar a ideia que defendeu na primeira sessão do julgamento do mensalão, em agosto de 2012: a de que os embargos infringentes devem ser admitidos na Corte. "Assim como ele não muda o prato, acho que ele não vai mudar de opinião", disse o dono do restaurante. "Mas eu gostaria que ele encerrasse de vez (o mensalão)."

O Docas é apenas um dos pontos que Celso de Mello frequenta quando vai passar férias na cidade natal. No restaurante Opera Mix e no Café Canção, ele forma o quarteto dos "J's", com os amigos José Rubens do Amaral Lincoln, advogado e professor de processo penal, José Reiner Fernandes, diretor do jornal Integração, e José Erasmo Negrão Peixoto, cirurgião-dentista.

Na última visita do ministro à cidade, em julho, a discussão mais quente não foi o mensalão, mas a redução da maioridade penal. "Ficamos divididos no nosso 'Supreminho', com uns a favor e outros contra, mas Celso não declarou voto", conta José Erasmo. A música também faz parte das rodas de conversa. José Erasmo conta que o ministro chegou a estudar saxofone no tradicional Conservatório Musical Carlos de Campos, que ajuda Tatuí a ser conhecida no Estado de São Paulo como "capital da música".

Amigo de Celso de Mello desde antes de entrar na escola, Lincoln esteve presente na posse de Mello na Promotoria de São Paulo em 1970 e no Supremo em 1989. Pela proximidade com o ministro, o professor foi bombardeado por perguntas de seus próprios alunos na aula de processo penal na quinta-feira à noite, horas depois de Joaquim Barbosa ter suspendido a sessão do STF que decidia sobre a aceitação ou não dos embargos infringentes. Eles queriam saber o voto do ministro.

Lincoln disse que não tinha como saber a decisão, mas afirmou aos alunos que não seria incoerência se Celso de Mello contrariasse o argumento defendido no passado a favor dos embargos infringentes. "Ele tem precedentes a favor dos embargos, mas não está necessariamente preso a eles. Mas isso não seria incoerência? Não, no caso do ministro Celso, isso seria consciência. Pois ele nunca jogou para a plateia", disse Lincoln, que enviou um e-mail para o amigo contando o caso. "Tudo muda, tudo evolui ou involui", disse Lincoln na mensagem, em raciocínio semelhante ao do ministro Marco Aurélio Mello na última sessão. "Tenho certeza de que a decisão está na melhor mão possível."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.