Celebração de 1964 põe jovens e militares da reserva em conflito

Cerca de 300 pessoas sitiaram sede do Clube Militar, no Rio; PM usou bomba de efeito moral contra manifestantes

RIO , O Estado de S.Paulo

30 de março de 2012 | 03h04

Dois dias antes do aniversário de 48 anos do golpe de 1964, um debate marcado por elogios à ditadura terminou ontem com cerca de 300 pessoas - a maioria militares da reserva e alguns ex-integrantes do regime - sitiados por manifestantes que os acusavam de tortura e assassinato, na sede do Clube Militar, na Cinelândia, no centro do Rio. A Polícia Militar fez um corredor entre a porta principal da instituição, na Avenida Rio Branco, e uma das bocas da estação do Metrô, para garantir a saída em segurança das pessoas, e usou bombas de gás e de efeito moral contra os ativistas.

Mas foi impossível evitar que os manifestantes, ligados a PT, PC do B, PSB, PDT e movimentos sociais, os insultassem com palavrões e gritos de "assassino" e "torturador", além de berros como "mulheres foram estupradas pela repressão". Cercados ao tentarem sair pela lateral, alguns militares da reserva ganharam banhos de tinta. "Um caminhão da PE (Polícia do Exército) aí acabava com isso", disse uma senhora que tentou sair pela portaria secundária, pela Rua Santa Luzia.

Dois dos cerca de 300 ativistas foram detidos e levados para a 5.ª Delegacia de Polícia. Em meio à confusão, militares da reserva saíram escoltados. Um deles era o general Nilton de Albuquerque Cerqueira, ex-presidente do Clube e que foi secretário de Segurança Pública do Rio nos anos 1990 e, ainda como major servindo no DOI-Codi de Salvador, empreendeu a caçada que matou o ex-capitão do Exército Carlos Lamarca na Bahia, em 1971.

Dois manifestantes foram derrubados por disparos de pistolas Taser (elétricas). "Torturador! Assassino!", berrou um manifestante para um homem de cabelos brancos que entrava no acesso ao Metrô, sob escolta de PMs. "É a tua mãe!", respondeu o idoso.

O vice-presidente do Clube, general da reserva Clovis Bandeira, afirmou que os manifestantes queriam impedir uma reunião de quem pensasse diferente.

Debate. Lá em cima, o debate "1964 - A Verdade" foi marcado por elogios à ditadura e críticas à Comissão da Verdade. "Devemos olhar para a frente", pediu um dos debatedores, o jornalista Aristóteles Drummond. "Não estou interessado em pedir ao Comitê de Ética do Senado para investigar o senador Aloysio-não-sei-das-quantas (Aloysio Nunes Ferreira, PSDB-SP) que era motorista do (Carlos) Marighela (chefe da Ação Libertadora Nacional)."

Houve porém quem dissesse que a Comissão vai expor os ex-integrantes do governo "autoritário" à execração pública e à possibilidade de produzir provas contra si mesmos. "A imprensa foi infiltrada", lamentou outro debatedor, Heitor de Paola. Um terceiro, o general da reserva Luís Rocha Paiva, justificou o golpe. "A nação era imatura para a plenitude democrática." / WILSON TOSTA, HELOISA ARUTH STURM e FÁBIO GRELLET

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