Cautelosos, candidatos no Rio de Janeiro fazem debate morno

Diferente do último encontro, postulantes ao Palácio Guanabara foram mais cuidadosos em suas falas com adversários

Wilson Tosta, O Estado de S. Paulo

27 de setembro de 2014 | 01h18

Tom um pouco mais cauteloso e ataques em geral focados no governador e candidato à reeleição Luiz Fernando Pezão (PMDB), que lidera as pesquisas de intenção de voto, marcaram o debate entre candidatos a governador do Rio promovido pela Rede Record e encerrado na madrugada deste sábado (27). Diferentemente de outros confrontos, no quais todos os postulantes ao Palácio Guanabara trocaram acusações e palavras fortes, algumas até com dedo apontado para o oponente, desta vez os cinco primeiros colocados na disputa foram mais cuidadosos e menos ríspidos. Mesmo atacado, Pezão evitou responder e, mais uma vez, ignorou as críticas ao ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), padrinho da sua candidatura. Com baixa popularidade, Cabral não tem aparecido na campanha, para não contaminar o afilhado.

O resultado foi um programa morno, sem muita emoção e com alguma discussão de temas, apesar de alguns momentos um pouco mais tensos. Nesses, houve menção a questões recorrentes na campanha: doadores de campanha, empreiteiros, milícias, corrupção. Em geral, Pezão foi o alvo, embora o candidato do PR, Anthony Garotinho, também tenha sido atacado.

Garotinho foi o primeiro a perguntar no primeiro bloco, no qual ocorreu confronto direto entre os postulantes ao governo. Por sorteio, sua pergunta foi para Tarcísio Motta.

"Terminamos um levantamento e descobrimos que há passagens (de ônibus) que estão superfaturadas entre 20% e 40%. O que gostaria de saber é se o senhor tem um ideia, como eu tenho, de entrar, enfrentar este cartel dos ônibus e reduzir o preço", afirmou Garotinho.

"Esta é uma excelente pergunta", disse o candidato do PSOL. "Estamos diante do caos da mobilidade urbana, em que o direito de ir e vir da população é negado de diversas formas". Ele criticou as altas tarifas no setor. "Temos nas barcas a segunda maior tarifa de todo o mundo. Por quê? Porque este governo, o governo Cabral-Pezão, sempre se rendeu aos interesses das empreiteiras e das empresas que controlam o transporte público".

Ele disse que o PSOL defende uma política de redução tarifária "para chegar à tarifa zero" e declarou que o ICMS da gasolina e o IPVA poderiam ser usados para cobrir esses custos.

Garotinho citou preços de passagem que afirmou serem superfaturados e quanto, supostamente, deveriam custar, para que, afirmou, os telespectadores em casa pudessem "ter ideia do tamanho do assalto".

"No nosso governo, tenha certeza de que as tarifas vão baixar", respondeu Tarcísio. Ele declarou que a autonomia em relação às empreiteiras é necessária para poder enfrentar a questão. "Não pode Garotinho receber R$ 300 mil da OAS, que controla o Metrô, como sua campanha recebeu agora, nesta eleição", alfinetou.

Em sua vez de perguntar, Tarcísio ironizou e disse que faria a pergunta "ao governador (Sérgio) Cabral, que dizer para Pezão" (PMDB). "Quem são os financiadores de sua campanha?", indagou. Pezão afirmou ter um comitê financeiro que recebe doações e presta contas. Declarou também que a relação de doações está nos sites do T R E e do T S E.

"É só ir no nosso site e ver que tem a maior transparência. São doadores que acreditam no nosso governo acreditam no futuro do Estado do Rio e fizeram essas doações."

"Já disse isso outra vez, quem paga a orquestra escolhe a música", respondeu Tarcísio. Ele citou alguns dos doadores do candidato do PMDB: OAS, Odebrecht, JBS/Friboi. "Empresa não faz doação, faz investimento", disse. "Depois, vão governar para eles, são empregados das empreiteiras."

Na sua vez de perguntar, Pezão perguntou a Marcelo Crivella (PRB) o que achava do Arco Metropolitano, obra parcialmente inaugurada. "É uma esperança de redenção para a Baixada Fluminense. Infelizmente atrasou. Era para ficar pronto em 2009, ficou pronto só em 2014", disse Crivella.

Pezão disse que se orgulhava muito de ter feito o Arco Metropolitano, "uma obra estava no papel desde 1971". Ele afirmou ter sido muito difícil, mas, afirmou, "com a presidenta Dilma (Rousseff)" teve sucesso.

Foi a primeira citação da mandatária como aliada. Voltou a falar dela em outras ocasiões, durante o confronto.

"Olha, não dá para ter euforia na questão da economia do Rio de Janeiro. Falta planejamento. Nossa Secretaria de Planejamento, aliás Orçamento e Gestão, só cuida de folha de pagamento, só cuida de fazer gestão de secretaria. Não fazemos planejamento no Estado do Rio de Janeiro", criticou Crivella.

Respondendo a uma pergunta de Crivella, Lindbergh Farias (PT) defendeu a educação em tempo integral. "Tenho falado muito disso, de resgatar o projeto do (Leonel) Brizola e do Darcy Ribeiro dos Cieps, com ensino técnico profissionalizante", prometeu. "Hoje, só 3% dos alunos do Ensino Médio têm ensino técnico profissionalizante. Dá para ampliar muito, dá para chegar a 30%. Tem o Pronatec." Em seguida, perguntou a Garotinho sobre segurança.

"Houve crescimento das milícias aqui no Estado do Rio de Janeiro. No último período, cresceram 115%. Hoje são 368 comunidades ocupadas por milícias. Queria saber a proposta do candidato Garotinho para o enfrentamento dessas milícias" afirmou o petista.

"Bem, quem entende muito bem de milícia é o Pezão", disse Garotinho. "No debate passado, apresentei uma foto dele e de seu padrinho Sérgio Cabral abraçados com os milicianos que comandam a milícia em Campo Grande", afirmou. "Nós entendemos de segurança pública, que passa pela prevenção. Todos os programas de prevenção - Jovens pela Paz, Reservistas da Paz, Casa da Paz - eles (o governo Cabral) acabaram."

Garotinho aproveitou para negar que vá acabar com as UPPs, "uma mentira que o PMDB espalhou para jogar as comunidades com UPP contra mim", atacou.

Lindbergh disse que Garotinho tem razão quando fala do envolvimento do PMDB com as milícias, mas o criticou. "Isso é notório, deputados do PMDB em suas bases eleitorais... Agora, o candidato Garotinho não pode falar muito. Porque o seu governo também tinha envolvimento com as milícias. O chefe de Polícia do governo Garotinho foi preso. E na operação que prendeu o chefe da Polícia Civil Álvaro Lins tinha justamente este tema: envolvimento com milicianos", disse.

Garotinho contra-atacou. "Acho engraçado o Lindembergh (sic). Vários ministros da Dilma foram demitidos por corrupção, do PT, do PMDB, mas culpa não é da Dilma. Agora no governo do Pezão, a cúpula toda da Polícia está envolvida com corrupção. A culpa também não é dele (Pezão). Aí, no meu caso, uma pessoa é afastada, cometeu erros O responsável sou eu?"

No segundo bloco, com perguntas mandadas por telespectadores via WhatsApp, o tom foi mais tranquilo, embora também com críticas ao governo estadual. Um morador da Tijuca perguntou a Lindbergh sobre o Estádio Célio de Barros e o Parque Aquático Júlio Delamare, desativados desde as obras de reforma do Maracanã para a Copa do Mundo. O objetivo inicial do governo era demoli-los, o que só não aconteceu por causa das manifestações de junho de 2013.

"Esta é a pergunta que todo mundo que fazer ao atual governo. Essas obras tinham de ter recomeçado. No último período, houve três reformas no Maracanã. Houve duas no governo Garotinho e Rosinha Garotinho e agora teve a reforma feita por Cabral e Pezão, cujo orçamento era R$800 milhões, na verdade gastaram R$ 1,5 bilhão", acusou. "E agora o mais impressionante é que vai ter de ser feita uma outra reforma para as Olimpíadas. Eu não consigo entender isso, a falta de planejamento, o desperdício."

Questionado por outro telespectador sobre UPPs, Crivella foi duro na resposta, referindo-se a problemas que envolveram Cabral.

"UPP é uma conquista nossa. Agora, as UPPs sofreram uma opção política. Cresceram demais. Aí, expuseram a vida de muitos policiais. Uma outra coisa que é muito importante a gente pensar aqui agora. Um governo precisa ter mãos limpas. Senão, suja tudo. Maracanã fica o dobro do preço. Polícia vira milícia. Suja até a Petrobrás. Se não tiver mão limpa, suja tudo. E nesse caso, é como limpar escada. Tem de limpar de cima para baixo. Se não houver exemplo do governador, se ele viver envolvido em escândalos, se seus auxiliares diretos saem para festa, colocam guardanapo na cabeça, não há como ter moral para motivar a tropa e se impor diante dos bandidos. A política exige exemplo. Se não der exemplo, não tem segurança pública."

No quarto bloco, Pezão disse que vai fazer o "Parque da Baixada", na Baixada Fluminense, inspirado no Parque de Madureira e perguntou a Crivella sua opinião. O candidato do PRB respondeu dizendo ao peemedebista que era necessário explicar ao povo da Baixada Fluminense por que até hoje falta água na região e falou de outros problemas de lá.

"Aplaudo que você, em um ato de remorso, tenha prometido fazer o parque. Mas isso não paga os seus pecados do passado com a Baixada Fluminense. Pezão, você vai ter de ir para o confessionário e pedir muito perdão a Deus", disse Crivella.

Quando Lindbergh perguntou a Garotinho como foi sua relação com Pezão em seu governo, o candidato do PR aproveitou para atacar o peemedebista. Ele se dirigiu aos telespectadores.

"O passado pertence ao passado. Graças a Deus me livrei de Pezão,(presidente do PMDB do Rio) Jorge Picciani, (presidente da Assembleia Legislativa) Paulo Melo e da quadrilha do PMDB. Graças a Deus! Hoje, quero olhar nos seus olhos e dizer que errei. Todos nós erramos! Confiei em pessoas que colocam os seus interesses pessoais acima dos interesses do povo. Quando confiei em Pezão, ele era uma pessoa humilde, lá de Piraí. Não morava no Leblon. Quando confiei em Pezão, ele era uma pessoa vocacionada para ajudar o povo, e não para se envolver com essa curriola de mafiosos com quem ele se envolveu. Mas hoje é olhar para a frente. Pezão é passado. Vamos olhar para a frente."

Apesar das críticas duras que sofreu, o governador não pediu direito de resposta.

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