Cautela e apelo a parcerias marcam a posse de prefeitos em todo o País

Cientes de que as verbas federais são vitais para suas gestões, e não tendo à vista um quadro claro de alianças partidárias para a disputa presidencial de 2014, os prefeitos das principais cidades do País - novos ou reeleitos, da situação ou da oposição - tomaram posse ontem com discursos cautelosos, sem críticas aos adversários vencidos, falando em parcerias para governar e distribuindo elogios a todo o espectro partidário. Nesse clima de "paz e amor", mesmo os que protagonizaram disputas acirradas contra nomes apoiados diretamente pela presidente Dilma Rousseff evitaram partir para o ataque ao governo federal.

O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2013 | 02h03

Foi o caso do prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM), e de Marcio Lacerda (PSB), reeleito em Belo Horizonte, que tiveram de enfrentar durante a campanha o empenho pessoal não só de Dilma como do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma e Lula foram a Salvador para fazer campanha para Nelson Pellegrino (PT) e a Belo Horizonte para tentar eleger o ex-ministro Patrus Ananias (PT). Lacerda venceu a disputa no primeiro turno e ACM Neto, no segundo.

"A eleição acabou, é hora de descer do palanque. Não vou governar fazendo política partidária. Não vou permitir negociar o futuro da cidade por vantagens políticas", afirmou ACM Neto, ao assumir a prefeitura de Salvador. Já Marcio Lacerda, que assumiu o segundo mandato na presença de seu principal mentor político, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), fez elogios gerais. "Belo Horizonte, por meio de parcerias com o governo do Estado e com o governo federal, está tendo o maior volume de obras de sua história". Ele distribuiu agradecimentos a Dilma, a Lula, a Aécio e ao governador Antonio Anastasia "por todo o apoio que Belo Horizonte teve e terá".

Lugar de destaque. No Recife, onde a disputa foi forte entre PT e PSB, o novo prefeito, Geraldo Júlio (PSB), também evitou o confronto, enaltecendo os projetos conjuntos com Brasília para governar. Ainda assim, não perdeu a chance de elogiar seu padrinho político, o presidente nacional do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos. "Um lugar de destaque o espera no futuro político deste País", disse ele do governador, que tem sido lembrado como possível candidato do partido à Presidência em 2014. Ele o saudou "pela habilidade e capacidade de juntar as pessoas" e mencionou uma de suas bandeiras mais caras, o "novo federalismo".

A rivalidade PT-PSB foi marcante, da mesma forma, nas eleições de Fortaleza- mas ali também o novo eleito, Roberto Cláudio (PSB) chegou falando em "pacto de governabilidade" com os 43 vereadores e disse considerar essenciais as parcerias com o governo Dilma Rousseff.

No Rio de Janeiro, o prefeito reeleito Eduardo Paes (PMDB), que em campanha saudou as parcerias com os governos federal e do Estado do Rio, não fez nenhuma menção ao apoio recebido pelo ex-presidente Lula em sua campanha. Garantiu, no discurso de posse, que ficará no cargo até o último dia de mandato e que seu candidato ao governo do Estado em 2014 é o atual vice-governador, Luiz Fernando Pezão.

Paes anunciou um conjunto de propostas que incluem turno integral escolas, ponto biométrico para médicos e bilhete único de transportes para a população, além de propor um corte linear de 10% nos gastos da administração. As medidas foram publicadas em forma de 40 decretos na edição de ontem do Diário Oficial do Município.

O tom conciliatório valeu mesmo em cidades onde a disputa foi dura entre legendas de esquerda - casos de Porto Alegre e Campinas. O novo prefeito de Porto Alegre, José Fortunati (PDT), evitou fazer criticas ao PT ou governo federal e ressaltou as "parcerias imprescindíveis para a boa gestão da nossa cidade", que pretende manter. Mencionou ainda "a parceria do governo federal, onde temos encontrado uma profunda receptividade por parte da presidente Dilma Rousseff e dos seus colaboradores" e a "parceria do governo do Estado, onde o governador Tarso Genro tem dado indicativos do aprofundamento dessa relação".

No caso de Campinas, o prefeito eleito Jonas Donizette (PSB) - cujo adversário, o petista Marcio Pochmann, teve apoio pessoal e direto do ex-presidente Lula - repetiu o exemplo dos demais. Passada a tensão eleitoral, ele citou a presidente Dilma e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), como aliados. "Nossa gestão busca a união com forças políticas ligadas tanto ao governo Alckmin, quanto ao governo Dilma. É, portanto, uma administração ampla, não é uma administração para um partido", afirmou.

Em Curitiba, Gustavo Fruet (PDT) elogiou o PT, que o apoiou -, mas evitou as feridas com PSB e PSDB, dedicando seu discurso ao desafio dos transportes. Em Maceió, o tucano Rui Palmeira disse que vai trabalhar "em conjunto com a bancada federal de Alagoas" para obter recursos.

Novas eleições. Nem todos os 5.565 municípios brasileiros, no entanto, viram ontem os prefeitos eleitos em 2012 tomarem posse. Em 59 cidades, o cargo foi para o presidente da Câmara de Vereadores, porque os eleitos obtiveram mais de 50% dos votos válidos mas tiveram o registro negado pela Justiça Eleitoral. No caso, a lei exige uma nova eleição.

Em sete municípios as novas eleições já estão marcadas - a primeira, em Guarapari (ES), será no dia 3 de fevereiro. Outros seis irão às urnas a 3 de março.

O Tribunal Superior Eleitoral não conseguiu julgar ainda todos os processos da última campanha eleitoral. Cerca de 780 recursos ainda estão pendentes. / ÂNGELA LACERDA, ALFREDO JUNQUEIRA, MARCELO PORTELA, ELDER OGLIARI, HELIANA FRAZÃO, RICARDO BRANDT, ALCINÉA CAVALCANTE e LAURIBERTO BRAGA.

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