Bernardo Martotta / PSD
Bernardo Martotta / PSD

Catarinenses são vereadores há 44 anos seguidos; conheça ‘longevos’ que buscam reeleição pelo País

Nirdo Luz tenta a vereança pela 11ª vez e Orvino de Ávila disputa a prefeitura de São José (SC); veja outros ‘veteranos’ que disputam novamente pelo País

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 21h50

SOROCABA – Há 44 anos consecutivos no cargo, os dois vereadores com mais tempo de Legislativo municipal do País escolheram trajetórias diferentes neste ano. Após vencer dez eleições seguidas como vereador do município de São José, na região metropolitana de Florianópolis, Orvino Coelho de Ávila (PSD) pretende trocar a Câmara Municipal pela prefeitura da cidade de cerca de 250 mil habitantes.

No município vizinho de Palhoça, de pouco mais de 175 mil moradores, o vereador Nirdo Artur Luz (PSD) poderá transformar sua vereança na mais longa da história política recente do Brasil. Ele concorre ao 11.º mandato e, se eleito, pode bater o recorde de mais tempo no cargo, segundo a União de Vereadores do Brasil (UVB): 48 anos.

Apesar de terem dez mandatos de vereador, dois deles foram de seis anos. Com a justificativa de unificar as eleições, o governo militar prorrogou mandatos de prefeito e vereador por dois anos para os eleitos em 1976 – o mandato foi até 1982.

No último fim de semana de setembro, Pitanta, como Luz é mais conhecido, deu um susto nos familiares. Diagnosticado com covid-19, foi internado e, no domingo, transferido para a UTI de um hospital local. Na quarta-feira, após receber alta para continuar o tratamento e isolamento em casa, disse que espera se recuperar rápido para retomar a campanha.

Os dois políticos têm idades e trajetórias parecidas. Pitanta, de 66 anos, e Ávila, de 65, foram eleitos para seus primeiros mandatos ainda em 1976. Na época, o País estava sob o regime militar e não havia eleição direta para presidente e governador, mas o povo já elegia prefeitos e vereadores. Aos 22 anos de idade, Pitanta foi eleito pelo Arena, partido que apoiava a ditadura. Nas três eleições seguintes, de 1980 a 1988, foi o vereador mais votado, ficando em segundo na eleição de 1992. No pleito seguinte, voltou a ser o mais votado e teve votos em 100% das urnas, fato inédito na história local.

Para Entender

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Em 2000, já no PFL, foi outra vez o mais votado. Em 2013, como presidente da Câmara, assumiu a prefeitura da cidade. Desde 2012, correligionários tentam convencê-lo a se candidatar a prefeito. “Mantenho os sonhos de quando era jovem, de fazer o melhor pela cidade, mas na Câmara. Isso é reconhecido pelo eleitor.”

Quando Ávila se elegeu para o primeiro mandato em São José, aos 21 anos, foi considerado o vereador mais jovem do Brasil. Em 40 anos de Câmara, foi presidente do Legislativo por quatro gestões. Formado em Contabilidade e Direito, ele também ocupou funções na prefeitura, como procurador concursado, secretário municipal e procurador-geral, além de ter sido presidente da Ceasa catarinense. Nos anos de 2015 e 2018, assumiu a prefeitura interinamente.

Neste ano, decidiu mudar de rumo e, convencido pelo partido, se lançou candidato a prefeito. “Sinto-me com o mesmo vigor e energia de quando, aos 21 anos, fui eleito vereador pela primeira vez”, disse Ávila, que disputa o posto com oito candidatos.

Delegado e motorista tentam o 10º mandato consecutivo

Há 38 anos, dia após dia, o delegado de polícia licenciado Mário Marte Marinho Júnior cumpre a rotina de ouvir moradores, disparar telefonemas, despachar ofícios e fazer o esboço de projetos de lei, em Sorocaba, interior de São Paulo. Marinho Marte, como é conhecido, concorre este ano ao 10º mandato consecutivo de vereador na cidade, agora pelo PP. Ele já foi filiado ao MDB, PFL e PPS.

Tendo vivido metade dos seus 66 anos de idade nos gabinetes do Legislativo municipal, Marinho venceu a primeira disputa para a Câmara em 1982, com 2.017 votos. Nessa ocasião cumpriu um mandato de seis anos e, desde então, se reelegeu oito vezes.

“Não sou vereador de um bairro ou de uma instituição. É um voto plural, das muitas pessoas que me conhecem, por isso comparo meu eleitor ao torcedor corintiano, sempre fiel”, disse. Se for eleito em novembro, ele pode chegar a 42 anos consecutivos de mandato.

Marinho Marte foi presidente da Câmara três vezes e, em 2018, foi acusado pelo Ministério Público de ter pedido dinheiro para aprovar um projeto de lei na Câmara em benefício de uma associação, fato que teria ocorrido em 2016. Na época, ele já respondia à acusação de cobrar “mensalinho” de funcionários de seu gabinete. O vereador permaneceu cerca de um ano afastado da função, mas manteve o mandato. Em maio deste ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou que ele retornasse ao cargo.

O processo ainda não teve julgamento final. Marte afirma que é vítima de perseguição. “Houve ataque de ordem pessoal e, como não há provas, a acusação busca retardar o processo”, disse.

Em Curitiba, o comerciante e motorista profissional Jairo Marcelino (PSD), 77 anos, também vai tentar se eleger para o 10º mandato consecutivo como vereador de Curitiba. Eleito pela primeira vez em 1983, pelo extinto PFL, Marcelino tem com base eleitoral a classe dos motoristas – taxistas –, segmento para os quais apresentou projetos de isenções de taxas municipais.

No último final de semana, Marcelino foi internado com um quadro de pneumonia e a previsão é de que sua campanha se inicie nos próximos dias. O presidente da Câmara, o economista Sabino Pícolo (DEM), 70 anos, tentará seu sétimo mandato. Ele foi eleito pela primeira vez em 1996 pelo PPB.

Em Salvador, decano da Câmara Municipal de Salvador, o vereador Alfredo Mangueira (MDB), aos 72 anos, busca a eleição para o oitavo mandato consecutivo. De ex-taxista a empresário – ocupação declarada à Justiça Eleitoral –, Mangueira é um dos candidatos mais ricos à vereança de Salvador, com patrimônio declarado de R$7.344.990 milhões. O vereador é autor da lei que proíbe a comercialização de produtos em embalagens de vidro e espetos, objetos utilizados como arma branca em festas populares. Suas bandeiras são saúde e educação.

Em Campinas, o vereador de Campinas Aurélio Cláudio (PDT), de 66 anos, tenta sua sétima reeleição neste ano. Ele é comerciante do setor varejista, assumiu uma cadeira na Casa em 1999 pelo PPS e, em 2003, filiou-se ao PDT. Em 2016, deixou a sigla para presidir o Partido da Mulher Brasileira (PMB) local, mas voltou ao PDT agora em 2020. “Trabalho a interlocução de regiões afastadas com a prefeitura. Não é uma posição política que vai atender as pessoas. É uma via asfaltada, uma passarela”, diz a respeito de ter sido reeleito várias vezes.

Aurélio enfrenta uma ação do Ministério Público, que acusa sua gestão na presidência da Câmara, em 2010, de fracionamento irregular de compras e dispensa ilegal de licitação. Seu mandato foi cassado em primeira instância, mas coube recurso e ele se manteve no cargo. “Minhas contas tinham sido aprovadas, mas dois servidores extrapolaram e fizeram sociedade com fornecedores. Houve indignação e foram demitidos. Estou confiante de que agi com clareza”, diz.

Em Ribeirão Preto, apesar de ter se renovado em 2016, quando oito vereadores envolvidos na operação Sevandija – de combate à corrupção – não foram reeleitos, a Câmara Municipal de Ribeirão Preto tem em seus quadros um vereador há mais de duas décadas.

O médico Jorge Parada foi eleito pela primeira vez em 1996 pelo PT e mantém mandatos de vereador desde então. Boliviano naturalizado brasileiro, é graduado pela Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto e dedicou sua carreira à saúde pública e à política. Presidiu o PT local e foi secretário municipal de Cidadania, no governo de Gilberto Maggioni (PT), em 2003. Aos 71 anos, busca ser eleito pela sétima vez.

Empate histórico marca início da carreira do vereador com mais mandatos em Rio Preto

O acaso levou o advogado rio-pretense Gerson Aparecido Furquim dos Santos, de 64 anos, a trilhar os caminhos da política. E do primeiro mandato até hoje já são 32 anos ininterruptos de vida pública.

“Em 1988, fui convidado por dois amigos, o Olavo Taufic e o Celso Melo, para concorrer como vereador. Escolhi sair pelo PFL do Celso. O Olavo era PDS. Levei a campanha a sério e comecei pedindo voto para os meus clientes no escritório”, recorda.

O primeiro santinho foi feito com papel de pão, doado pelo dono de uma gráfica. Naquela época, a contagem dos votos era manual e realizada no ginásio de esportes do Palestra Esporte Clube. Furquim estava perto de um mesário quando ouviu que ele iria anular um voto, pois estava escrito na cédula Celso Furquim.

“Falei que ele tinha que validar o voto para mim e não para o Celso Melo, pois o que valia pela lei era o nome e não o prenome. Ele manteve a decisão de anular e chamei o juiz eleitoral, que me deu razão e incluiu o voto na minha contagem. Eu e o Celso empatamos com 676 votos. Como eu era mais velho, fui empossado. Celso recorreu à Justiça, mas não conseguiu reverter”, conta.

Furquim é o recordista de toda a história do Legislativo de Rio Preto: está no oitavo mandato consecutivo e é candidato à reeleição pelo Podemos. Indagado se existe uma fórmula para tantas vitórias foi enfático: “Trabalhar muito e fazer projetos para ajudar a população, principalmente a mais carente”. / COLABORARAM JULIO CESAR LIMA, REGINA BOCHICCHIO, CLAUDIO LIZA JUNIOR, DANIELE JAMMAL e EVERTON SYLVESTRE, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

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