Caso Feliciano projeta PSC, que já fala em Presidência

Partido do pastor que preside a Comissão de Direitos Humanos quase dobrou a bancada em 10 anos e faz articulações para 2014

Eugênia Lopes, de O Estado de S.Paulo

08 Abril 2013 | 02h11

BRASÍLIA  - Embalado na polêmica em torno do deputado pastor Marco Feliciano (SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos, o PSC ganhou visibilidade e faz planos para sair da sombra de seu maior aliado, o PMDB. Tradicional coadjuvante nas alianças capitaneadas pelos peemedebistas, o PSC já fala em lançar candidato próprio à sucessão da presidente Dilma Rousseff em 2014.

A candidatura faz parte da estratégia do partido de ampliar as bancadas federais e eleger, pelo menos, um governador. Internamente, Feliciano e o vice-presidente e homem forte do PSC, pastor Everaldo Pereira, disputam a vaga de candidato.

"A decisão é que teremos candidatura própria à presidência da República", afirma Everaldo. "Ser inteligente é fazer o que outros inteligentes fizeram. E o PT foi inteligente em fazer o Lula ser candidato à Presidência três vezes, antes de ganhar a eleição", completa. Cauteloso, ele desconversa ao ser questionado sobre a própria candidatura: "Sou soldado do PSC, que é um partido democrático. Todos os que quiserem podem disputar".

Embora o nome de Everaldo seja referendado pelas principais lideranças, Marco Feliciano, acusado de racismo e homofobia, também colocou seu nome à disposição do partido.

Em uma reunião de presidentes de diretórios em Salvador no ano passado, ele se entusiasmou. Declarou que conhece bem o Brasil, já que percorre todo o País em suas pregações a milhares de pessoas. Por isso, teria condições de impulsionar a candidatura. Recentemente, seus apoiadores passaram a estimular a ideia nas redes sociais.

'Votação estrondosa'. Mesmo assim, aliados e companheiros de partido defendem que o deputado aproveite o destaque e volte à Câmara com uma votação estrondosa. "Do jeito que conheço o meio evangélico, o Feliciano se elege com mais de um milhão de votos no ano que vem e traz com ele uns três deputados", diz o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ).

A pretensão do PSC em ter candidatura própria é calcada na trajetória do partido que, em uma década, passou de uma sigla nanica a emergente. Com apenas um deputado federal em 2003, o PSC começou a crescer depois que o ex-governador Anthony Garotinho (PR-RJ) resolveu usar a sigla como satélite de uma eventual candidatura sua à Presidência da República, em 2006.

Com a ajuda do pastor Everaldo, subchefe da Casa Civil do governo fluminense, Garotinho, então filiado ao PMDB, insuflou o crescimento do partido, que ganhou a adesão em massa de fiéis da Assembleia de Deus.

Como resultado, a sigla elegeu nove deputados federais, dos quais sete eram evangélicos. Em 2010, o número praticamente dobrou: foram eleitos 17 deputados, dos quais oito são evangélicos. O PSC também elegeu o primeiro senador, Eduardo Amorim (SE), hoje líder nas pesquisas de intenção de voto ao governo do Estado.

Em 2012, o deputado Ratinho Júnior (PSC-PR), um dos expoentes da legenda, foi ao segundo turno na corrida para a Prefeitura de Curitiba, excluindo do páreo o então prefeito, Luciano Ducci (PSB).

Verba em ascensão. A escalada do PSC também se traduz em cifrões. O fundo partidário do PSC aumentou 800 vezes nesses dez anos. Em 2003, com apenas um deputado, o partido recebia R$ 12,7 mil em recursos federais. No ano passado, entraram para os cofres da legenda R$ 10,7 milhões. Hoje, o PSC conta com 380 mil filiados.

A eventual candidatura presidencial valorizaria, ainda mais, o passe do partido que foi alvo de acirrada disputa entre PT e PSDB nas eleições de 2010. Em maio daquele ano, os dirigentes nacionais do PSC declararam apoio a José Serra (PSDB). Mas na reta final da formação das coligações, depois que o então chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, e o deputado Eduardo Cunha entraram em campo, o PSC recuou e aderiu à candidatura de Dilma, confiando o seu tempo de televisão aos petistas.

"Estamos em fase de transição para um partido de médio porte, buscando mais expressão nacional", diz o líder da bancada, deputado André Moura (SE).

Embora a maioria da bancada seja egressa da Assembleia de Deus, lideranças da sigla refutam a pecha de partido evangélico. "O PSC não é um partido religioso, de igreja A, B ou C. Há deputados espíritas, evangélicos, católicos", diz Everaldo, que, no entanto, entremeia todas as suas falas com citações bíblicas.

Desde 2006, Everaldo e Garotinho estão rompidos. Na época, o PMDB apoiou a reeleição do ex-presidente Lula e impediu a candidatura do ex-governador.

"O PSC é uma criança do Garotinho, que desertou", define o pastor Ronaldo Fonseca (PR-DF), coordenador político das Assembleias de Deus Convenção Geral e um dos articuladores do crescimento do PSC. / COLABOROU ANDREA JUBÉ VIANNA

 

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