Cantor popular engajado

Cantor popular engajado

Fagner e Beth Carvalho resgatam tempo em que artistas tinham lado na eleição e faziam questão de dizer a todos

O Estado de S. Paulo

11 de outubro de 2014 | 17h32

 No início, estavam todos juntos e misturados. Eram os tempos de luta contra a ditadura. Mas tão logo a democracia foi restaurada, os artistas passaram a se dividir nas suas preferências políticas. Divisão que já se configurava na primeira eleição direta para presidente depois do regime militar, em 1989. Naquele pleito, estavam majoritariamente ao lado do ex-metalúrgico Lula e contra Fernmando Collor. Mas houve quem desafinasse o coro e ficasse com o caçador de marajás. Cláudia Raia e Marília Pera causaram surpresa, e até indignação, ao aderirem a ele. 

Com o tempo, a participação dos artistas começou a se diluir. Em 2002, ainda houve certo protagonismo. Regina Duarte, apoiadora de Serra, foi à TV dizer que tinha medo de Lula no poder. Causou controvérsia, mas o petista venceu turbinado por Zezé Di Camargo & Luciano. Depois, os showmícios foram proibidos e a presença da classe artística nos palanques praticamente sumiu. 

Neste ano, muitos voltaram à cena. Marina Silva uniu a maioria deles. Caetano Veloso, Gilberto Gil e vários outros emprestaram sua imagem à candidata do PSB ao Palácio do Planalto. Ela, porém, ficou fora do 2.º turno.

Agora, entre os apoiadores de tucanos e petistas, destacam-se dois nomes. Dois artistas populares que dizem não ter receio de explicitar suas preferências eleitorais mesmo diante de um debate tão acirrado entre PSDB e PT. Raimundo Fagner é Aécio Neves. “Ele pode fazer um bom trabalho”, diz o cantor de Borbulhas de Amor. Beth Carvalho é Dilma Rousseff. “Tenho certeza do que estou fazendo”, diz a cantora de Coisinha do Pai. 

Abaixo, os dois artistas populares comentam, em conversa com o repórter Julio Maria, a cena política e falam sobre o engajamento em época de eleições.


Apoiador do tucano Aécio Neves na corrida presidencial, o cantor Fagner acredita que questões éticas e escândalos envolvendo o PT esfriaram o ânimo de antigos simpatizantes do partido. 

Havia algum tempo que a classe artística não se pronunciava tanto em uma eleição. Algo está mudando?

A classe artística não representa as cabeças individuais de cada artista. Houve época em que os artistas todos foram para o lado do Lula, mas acho que as questões éticas e os escândalos que envolveram o PT esfriaram muito os mais engajados, que passaram a não falar mais em público. Ficou aquele gato com medo de água fria. 

Essa pulverização de opiniões entre oposição, situação e terceira via é nova entre os músicos, não?

Eu acho salutar isso. O ruim é quando vai aquele bando de andorinha para o mesmo lado, como disse. Adorei artista não poder mais fazer campanha, não poder mais fazer shows para candidatos. Isso avacalhava muito. Época de comício era época de show. As pessoas subiam no palanque independentemente de suas ideologias.

Artistas são historicamente de esquerda. Você não se sente solitário em sua opção?

Sempre fui solitário. Desta vez, pelo contrário, tenho sentido muita manifestação de apoio. Estou até fugindo das pessoas, muitos acham que eu estou dentro (do PSDB). Querem me envolver mais na campanha.

Pensa em entrar na política?

Não, jamais, dessa água não beberei. Acho que Aécio pode fazer um bom trabalho, consertar erros do PSDB do passado ou do presente, sei lá. Ele recebeu uma lição dura da terra dele, Minas (onde Fernando Pimentel, do PT, venceu o candidato de Aécio, Pimenta da Veiga, do PSDB). Às vezes você não percebe que está errando dentro de casa. 

Supondo que Aécio ganhe e faça um governo desastroso. O que você faz?

Eu vou lá e chuto o pau da barraca. Espero por ele na porta do Palácio do Planalto e dou uns croques nele.


A cantora Beth Carvalho, que apoia a reeleição da presidente Dilma Rousseff, afirma que tem “horror aos tucanos” e que a falta de apoios artísticos ao PT pode ter a ver com os escândalos que envolvem o partido. 

Havia algum tempo que a classe artística não se pronunciava tanto com relação a uma eleição no Brasil. Algo está mudando?

Isso (a falta de manifestação) foi até por contratos, os próprios artistas acharam que estavam se expondo muito. Além disso, há contratos de gravadora e de emissoras de televisão que não permitem que você fale sobre política. A Globo não permite que seus artistas falem, por exemplo. Isso é público e notório, não sou eu quem diz.

Quando você declara um apoio, não teme se decepcionar?

Eu não, tenho certeza do que estou fazendo e acho que será uma tristeza se o Brasil se tornar tucano. Eu tenho horror aos tucanos. O PT cometeu pecados, vários, não vou dizer que não, mas Dilma fez muitas coisas boas. O Bolsa Família, o Mais Médicos, o Pronatec. Coisas que os tucanos não teriam feito jamais.

O PT perdeu apoio da classe artística nestas eleições?

Eu continuo na luta. Se outros desistiram, não sei os motivos, mas eu continuo. Sou uma cidadã antes de ser cantora, por isso minha participação sempre existiu e sempre vai existir.

A debandada do apoio de artistas ao PT teria a ver com os escândalos que envolvem o partido?

Acho que sim, mas esse negócio de mensalão é uma farsa. Investiga o mensalão do PSDB para você ver o que aparece.

Você está pondo sua palavra numa pessoa. Supomos que Dilma ganhe e faça um governo desastroso. O que você faz?

Eu tento ajudar. O ‘não dar certo’ vai ter a ver com a falta de apoio que ela pode sofrer. Não terá mais o apoio que tinha, mas não vou mudar de bandeira por causa disso. Eu estou apreensiva. O PSB apoiou o Aécio, isso é um absurdo na minha cabeça.

E se Aécio ganhar?

Vou ter que ter mais quatro anos de paciência.

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