'Candidatura de Campos não será de oposição a Dilma'

Para articulador político do PSB, eventual segundo turno entre seu partido e o PT na eleição presidencial de 2014 seria 'maravilhoso'

Entrevista com

EDUARDO BRESCIANI / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2013 | 02h06

Braço direito de Eduardo Campos no comando do PSB, o vice-presidente a sigla, Roberto Amaral, afirma que não vê a possível candidatura do governador de Pernambuco como opositora à presidente Dilma Rousseff. Ele chama de "uma coisa maravilhosa" a chance de um segundo turno entre os dois em 2014.

Amaral descarta que seu partido deixe os cargos na administração federal de imediato e critica alianças "conservadoras" feitas pelo PT, mas admite que Campos poderá estar com o DEM nas próximas eleições.

O que leva o PSB a buscar uma ação mais independente do PT?

O fato de nós termos alianças preferenciais no campo da esquerda não pode impedir diferenças e processos ideológicos próprios. Se não tivéssemos divergências, não seríamos vários partidos, seríamos um só. Estamos no governo e não é de graça, faz parte da história e do apoio que demos em 2010. É uma consequência que vai até onde interessar a eles e a nós. O fato é que nem o governo deve se colocar como nosso devedor e nem nós como devedores.

O fato de ter cargos não amarra o PSB ao governo e ao PT?

Não, e nem amarra a uma eleição futura - uma eleição futura que está sendo antecipada. O Eduardo Campos fez várias vezes o discurso de que não ia discutir 2014 em 2013. Acho muito injusto para a presidente Dilma a antecipação do debate, porque reduz o mandato dela. Do nosso lado, não estou dizendo que o PSB terá necessariamente candidato à Presidência, mas não abre mão de poder ter.

E como fará para viabilizar uma candidatura?

Tem que negociar. Ninguém é candidato de si mesmo e nenhum partido é projeto de si mesmo. Tem de ter ressonância na sociedade. Quais são os interesses que representaremos na disputa? Quais interesses de classe, quais interesses da sociedade que serão atendidos no nosso programa, qual será nossa contribuição para o processo democrático? Ainda não temos uma resposta. Estamos no momento das perguntas. Estamos a um ano e meio das eleições. É cedo. A única coisa natural é a reeleição.

Se a reeleição é natural, manter uma aliança também não é?

Pode se apresentar como alternativa, como continuidade, como um avanço, pode se apresentar como projeto de autoafirmação. Lula só chegou em 2002 por causa de 1989. Temos um nome. Se é candidato ou não, está sendo tratado como tal.

Está sendo testado?

Está, inclusive pela imprensa. É um nome na praça, um nome novo. Sai do círculo vicioso do PSDB paulista. Será que tem repercussão? Vamos ver. Agora, eu não entendo temores no nosso lado. Imagine que coisa maravilhosa seria uma disputa de Dilma com Eduardo, você não dar margem para a direita... Nossos companheiros não estão compreendendo o processo. É sempre bom lembrar que o sistema é de dois turnos. Em hipótese alguma a esquerda está ameaçada se disputa com dois nomes. O que pode ocorrer? Ir Dilma com Eduardo, o que é ótimo, ou ir Dilma com outro, e nós vamos apoiá-la. É escolher entre duas coisas ótimas.

Como se relacionar com o PT no meio desse processo?

É uma responsabilidade bilateral. Nós estamos tendo muito cuidado, mas é preciso que o PT também tenha. No que eu converso com a direção do PT, mais o Rui Falcão (presidente do partido) e menos o Lula, há essa preocupação. O autoritarismo é injustificável na esquerda, não se pode dizer que partido tal pode ter candidato e outro não.

As alianças feitas pelo governo incomodam o PSB?

Isso é uma tragédia do presidencialismo brasileiro que chegou a esse nosso governo principalmente depois de 2005 (ano do mensalão), quando a direita tentou dar um golpe e derrubar o Lula. Ele viu que precisava de duas coisas: apoio popular e uma maioria ampla. Esse é o nosso presidencialismo de coalizão. Ele tem uma vantagem em relação ao bipartidarismo norte-americano, que leva a um impasse atrás do outro. Aqui você resolve pela transação, mas não é negociação política, é cargo. O governo precisou do PMDB. Montou-se uma base tão grande, tão larga, que vai de nós, PC do B, PDT até Paulo Maluf. Uma base em que os conservadores são maioria.

É possível fazer alianças eleitorais com esses setores, tendo, por exemplo, o DEM na chapa? Eu não gostaria, mas a política não é feita só com sabores. Existe a política e a realpolitik. A política real e a dos desejos. O sistema de alianças tem duas mãos: quando se apoia, transforma-se em caudatário, mas outra coisa é você ser apoiado. Claro que tem limites. Vamos recuar dos nossos programas para aceitar apoio de A ou B? Não, não vamos recuar. Se você não faz concessões programáticas, não há problema.

Qual o tempo certo para o PSB se decidir sobre a candidatura?

Há companheiros que acham que devemos fechar os olhos e ouvidos e decidir tudo em 2014. Outros acham que setembro deste ano terá mais claridade. Sou súdito da realidade objetiva. Se alguém me perguntasse há três meses se o Eduardo Campos teria a exposição que tem hoje, eu diria que não. A realidade é que decide.

O momento de decidir é também o momento de deixar cargos no governo federal?

Essa hipótese vai ser discutida lá na frente. Não recebi nenhum sinal da presidente de que está incomodada. Se recebermos esse sinal, e ela tem como mandar, não há problema.

É possível ter candidato e continuar tendo ministros?

Acho muito difícil. Eu não vejo nossa candidatura como de oposição, mas talvez o partido entenda como mais correto, se sinta mais à vontade, saindo.

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