Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Candidatos nas eleições 2018 são arrojados com suas finanças

Políticos têm perfil de investidor que difere da média do brasileiro típico, segundo consultores

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2018 | 05h00

BRASÍLIA - Os candidatos aos cargos em disputa nas eleições 2018 distribuem seus investimentos financeiros em produtos considerados conservadores, embora se comportem de forma mais arrojada do que o investidor típico brasileiro, conforme especialistas em finanças pessoais ouvidos pelo Estado. Ao todo, eles declararam à Justiça Eleitoral R$ 3,9 bilhões em investimentos, de um total de R$ 25,2 bilhões em patrimônio.

Ações de empresas, sobretudo as negociadas em Bolsa, representam 14% do total de investimentos financeiros dos candidatos. Dos R$ 3,9 bilhões, eles aplicam em renda variável o equivalente a 35% ou R$ 1,42 bilhão – já incluídas as ações. O porcentual indica, segundo consultores financeiros, mais confiança deles na economia do que o cidadão comum.

“Esse é um grupo apto a apostar mais e a correr riscos, mais em linha com o título de candidato. A carteira tem jeitão conservador, mas é mais agressiva do que a média”, diz Fabio Gallo, professor de Finanças da PUC-SP e da FGV-SP. “O investidor brasileiro, o cidadão comum sem grandes conhecimentos em finanças, deixa dinheiro fortemente na caderneta de poupança e renda fixa.”

O porcentual em ações é puxado por alguns dos candidatos mais ricos do País, como o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (MDB), dono de R$ 283 milhões em ações de empresas negociadas em Bolsa no Brasil e postulante à sucessão do presidente Michel Temer. O segundo com mais ações é o ex-prefeito de Cuiabá Mauro Mendes (DEM), candidato a governador de Mato Grosso, com R$ 105 milhões.

Além das ações, outro elemento de renda variável na carteira dos candidatos indica que eles são mais agressivos que a média ao investir o próprio dinheiro é o porcentual de 6% – R$ 230 milhões – em Fundos de Longo Prazo e Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDC). Os FIDC são direitos de crédito vendidos a terceiros.

“Em comparação com a população média, esses caras acreditam muito mais na economia. Se a economia piora, e a inadimplência aumenta, que seria uma consequência natural de se esperar, a primeira coisa que vai sofrer é o FIDC. As pessoas vão começar a virar inadimplentes, parar de pagar o crédito e o fundo vai começar a ter prejuízo na hora”, diz Marcio Reis, diretor de pesquisas econômicas do aplicativo GuiaBolso. “Você só investe em FDIC se acreditar que a economia vai estar no mínimo estável ou melhorar.”

As aplicações na categoria são puxadas pelo empresário do ramo farmacêutico Fernando Marques, candidato a senador no Distrito Federal pelo Solidariedade, que tem R$ 67,5 milhões na aplicação. O segundo na categoria é Meirelles, com R$ 58,8 milhões, e o terceiro, o candidato do partido Novo à Presidência, João Amoêdo, com R$ 44,2 milhões.

Um diferencial entre o comportamento financeiro dos candidatos e do investidor comum é a pequena participação da previdência privada na carteira de aplicações dos políticos, apesar de estarem diretamente vinculados aos debates sobre a reforma da previdência no Congresso Nacional. São apenas R$ 184 milhões, o equivalente a 5% do total. A caderneta de poupança soma R$ 90,3 milhões – 2,3% da carteira global, num patamar também considerado baixo.

Marcio Reis afirma que os dados indicam que os candidatos aplicam em planos de previdência privada como uma forma de diversificação da carteira de investimentos e não com planos reais de usar o dinheiro para complementar renda no futuro. Em comparação, 25% do dinheiro dos 4,5 milhões de usuários do aplicativo estão em planos de previdência particular. “Se os candidatos estivessem pensando em aposentadoria, provavelmente teriam uma concentração muito maior nessa linha. A aposta deles para a aposentadoria é o portfólio inteiro”, analisa Reis.

Dos cerca de 28 mil candidatos que solicitaram registro de candidatura, 69% são homens. A maioria está na faixa entre 45 e 54 anos. A metade, aproximadamente, declara ter ensino superior completo, e a maioria é branca. A ocupação declarada mais comumente é a de empresário.

“É diferente do perfil desse público em particular. Eu tinha expectativa de eles estarem com investimentos mais carregados em previdência, o que deixaria a carteira ainda mais conservadora”, diz Fabio Gallo, comentando também que a média é de R$ 142 mil aplicados por candidato. “Pensando que são homens, maduros, com ensino superior, não é nenhum milagre. Era de se esperar que tivessem um tíquete médio maior, mas obviamente está bastante acima da média do brasileiro.”

Os candidatos que declararam mais dinheiro aplicado em VGBL (Vida Garantidor de Benefício Livre) foram a candidata a deputada estadual no Amazonas Nejmi Aziz (PSD), dona de R$ 15 milhões e mulher do senador Omar Aziz (PSD), candidato ao governo do Estado, e o senador José Agripino Maia (DEM), que concorrerá a deputado federal e tem R$ 6,9 milhões num plano do Banco do Brasil.

Caixa. Outro dado que atraiu críticas foi o porcentual de valor em caixa, sem nenhum tipo de remuneração, como destaca Betty Grobman, professora de MBAs dos mercados financeiro e de capitais na BM&F/Bovespa. Ela considera que tais investimentos, que representam 17% e somam R$ 673 milhões (depósitos em conta corrente no País e no exterior, além de um alto volume em espécie), são ultrajantes e fazem os candidatos perderem pelo menos R$ 33 milhões por ano em juros, se a remuneração de uma aplicação básica fosse atrelada à taxa Selic: “Os candidatos estão se dando ao luxo de não ganhar R$ 33 milhões no período de um ano. Quem é maluco de perder essa oportunidade? Por que essas pessoas têm tanto dinheiro parado e com que finalidade?”, questiona Betty.

Como o Estado revelou, 2.390 candidatos declararam ter R$ 304 milhões em espécie neste ano, sendo que 36 deles informaram ter quantias que variam entre R$ 1 milhão e R$ 5,3 milhões no colchão. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a Receita Federal suspeitam de lavagem de dinheiro e caixa 2 de campanha. “Hoje em dia é raro algum lugar que você precise de dinheiro em moeda. Cartão de crédito resolve tudo”, diz Reis. “Vejo dois cenários: ou a pessoa não acredita muito na economia e está se protegendo; pode ter algum lado de fraude e a pessoa que é muito informal.”

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