Candidatos minimizam risco do tráfico e mantém agenda no Rio

Fim de semana registrou ameaças a campanhas políticas nas favelas; Chico, Molon e Gabeira foram intimidados

Alexandre Rodrigues, de O Estado de S. Paulo,

03 de agosto de 2008 | 18h33

Depois de mais um fim de semana de incidentes envolvendo ameaças de traficantes a campanhas políticas em favelas do Rio, candidatos à prefeitura da capital fluminense afirmaram que continuarão a visitar áreas dominadas por bandidos e milicianos. Para candidatos ouvidos pelo Estado, deixar de ir às comunidades seria privar os eleitores dessas áreas do direito à informação e ao debate político. Concordam, porém, com a necessidade de não expor seus contatos nas comunidades a risco excessivo.   Veja também: Tráfico 'mostra poder' e intimida candidatos a prefeito do Rio Justiça Eleitoral não investe em política de confronto, diz TRE TSE pede reforço policial no Rio e avalia uso de Forças Armadas Justiça faz mutirão policial contra milícias em eleição no Rio Pesquisa Ibope - Rio de Janeiro Perfil dos candidatos no Rio   "É como andar no fio da navalha. Temos que ter a sensibilidade de não aceitar uma restrição maior ao debate democrático e, do outro lado, não estimular um desafio (aos bandidos). Temos que ir às favelas, mas não cair lá de pára-quedas. Sigo o padrão de ir a convite de pessoas que têm vínculos com a comunidade, que têm vivência cotidiana naquele local marcado pela ausência do Estado", afirmou Chico Alencar (PSOL), que se reunirá com o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Carlos Ayres Britto, amanhã para tratar do tema.   Chico e o candidato petista Alessandro Molon foram constrangidos por traficantes armados, no sábado, no Complexo da Maré. Fernando Gabeira (PV) enfrentou situação semelhante na Vila Cruzeiro. Na favela Nova Holanda, uma das maiores da Maré (zona norte), traficantes armados abordaram equipes de produção de Molon e de Chico para proibir filmagens na favela. Tentaram confiscar câmeras e fitas. Os candidatos, que visitaram o local com duas horas de intervalo, também tiveram que passar por bocas-de-fumo, onde pessoas consumiam drogas livremente à luz do dia.   Já na Vila Cruzeiro, favela adjacente ao Complexo do Alemão (zona norte), Gabeira decidiu interromper a caminhada na metade do caminho, depois de cruzar com homens armados de metralhadoras. Havia, segundo ele, informações desencontradas sobre ruas que seriam "proibidas". Ontem, Gabeira afirmou que sua equipe está mapeando favelas sob domínio de grupos paramilitares e de traficantes. Ele pretende, a partir da próxima semana, visitar duas delas a cada sábado.   "Defendo uma combinação de estratégias. Entrar para conquistar cidadania e delimitar o espaço da democracia nessas áreas, mas saber recuar quando há risco de vida. Não podemos fazer bravatas", afirmou Gabeira. "Há favelas em que pode entrar, mas sem câmeras. Não aceito. Vamos lutar pela imprensa. Não existe campanha escondida, que não possa ser documentada."   Molon admitiu que há riscos em fazer campanha em favelas, mas defendeu que é preciso correr riscos para alcançar a população. "Vou continuar minhas visitas às comunidades para que as pessoas de bem tenham o direito de conhecer as minhas propostas de trabalho", afirmou. "Sei que o risco é maior para quem fica do que para mim, que depois vou embora", ressaltou.   Neste domingo, Molon se encontrou com o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) no Arpoador (zona sul), que se ofereceu para visitar com ele uma favela, que ainda será definida, no próximo dia 18. "Vamos provar que o poder do tráfico não impedirá o eleitor carente de conhecer as propostas do PT", prometeu Suplicy.   A candidata do prefeito Cesar Maia, Solange Amaral (DEM), disse que continuará a visitar favelas, mas minimizou os riscos. "Comigo nunca aconteceu nada e nem vai acontecer. Sempre circulei em favelas, as pessoas me conhecem. Irei cada vez mais. Lamentável é a postura do governo do Estado, que permite territórios paralelos. Agora, tem muita gente querendo aparecer com esse tema", afirmou.   O governo do Estado do Rio divulgou uma nota em que classifica os incidentes envolvendo candidatos como "graves", afirma "não ser novidade para ninguém" o domínio paralelo de áreas da capital e assegura atuar "permanentemente no combate à criminalidade". O candidato do governador Sérgio Cabral, Eduardo Paes (PMDB), disse que não vai restringir sua campanha e prometeu visitar as mesmas favelas onde Gabeira, Molon e Chico foram constrangidos pelo tráfico. "Não vamos nos intimidar em lugar algum da cidade. "   Por meio de sua assessoria, Marcelo Crivella (PRB) também defendeu a manutenção de visitas a favelas. Na última sexta-feira, ele foi à Vila Vintém (zona oeste) de surpresa, sem a imprensa. Crivella foi o primeiro candidato a se deparar com bandidos armados, no início de julho, quando visitou a Mangueira (zona norte). Há uma semana, jornalistas que o acompanhavam na Vila Cruzeiro foram coagidos a apagar fotos do momento em que o senador tentava cumprimentar supostos criminosos. Jandira Feghali (PC do B), que também passou por incidente parecido na Maré, não fala mais sobre o assunto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.