Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Maioria dos candidatos em SP ignora demandas de população de rua

Planos de governo analisados pelo ‘Estadão’ deixam propostas para grupos vulneráveis em segundo plano ou repetem ideias existentes; apenas Boulos, Tatto, Marina Helou, Orlando Silva e Vera Lúcia assinaram compromisso com movimento

Fernanda Boldrin e Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2020 | 05h00
Atualizado 14 de novembro de 2020 | 10h16

Foi durante uma briga de família que José Fernandes Junior, o Zeca, decidiu que não podia mais ficar em casa. Seu irmão mais novo, contou, era usuário de droga “desde que o crack chegou em São Paulo”. Após uma discussão, quando o caçula ameaçou atacá-lo com uma faca peixeira, Zeca tomou sua decisão.

“Percebi que minha vida estava em risco”, relatou Zeca. Naquele dia, aos 36 anos, pegou suas coisas, fez a mala e saiu pelas ruas da zona leste da capital. Isso foi há 17 anos. Desde então, milhares de pessoas tomaram decisão semelhante - atualmente, pelo menos 24 mil estão em situação de rua, segundo o censo municipal. 

Mesmo sendo um dos grupos mais vulneráveis da cidade, essas pessoas têm suas demandas pouco contempladas pelos candidatos a prefeito de São Paulo. Parte deles tem propostas genéricas, já existentes, ou que não dialogam com o que é reivindicado por este segmento, segundo levantamento do Estadão. A reportagem analisou as menções expressas à população de rua nos planos de governo de todos os candidatos. 

Líder nas intenções de voto na pesquisa Ibope mais recente, o prefeito Bruno Covas (PSDB) tem como única proposta explícita, nessa área, a transformação do Hospital Santa Dulce dos Pobres, no centro, em unidade de atendimento exclusivo para moradores de rua. 

Conforme mostrou o Estadão, o modelo de exclusividade não existe na rede e é considerado ilegal por especialistas. Covas ressaltou que o que propõe é um “hospital referência” para essa população, e que iria incluir essa informação em seu plano de governo. O tucano também fala em aumentar vagas em Repúblicas, locais que costumam atender a população em situação de rua. 

Coordenadoria. Já Celso Russomanno (Republicanos) propõe uma “coordenadoria intersecretarial” controlada por representantes da sociedade civil e do governo. Já existe, atualmente, o chamado Comitê PopRua, com políticas para moradores de rua que, segundo a Prefeitura, inclui integrantes de diversas secretarias e, na composição, paridade entre governo e sociedade civil. Procurado, Russomanno não explicou como sua proposta seria diferente desse comitê. 

Outros candidatos - entre eles Levy Fidelix, do PRTB -, nem sequer mencionam moradores de rua em seus planos. Alguns citam essa população sem apresentar medidas objetivas - caso de Vera Lúcia (PSTU) e de Márcio França (PSB). França chega a mencionar “programas específicos” para a população de rua e fala em “ações articuladas” em temas como educação e reinserção social, mas sem detalhar.

A ausência de medidas para essa população contrasta com o destaque dado pelos candidatos à Cracolândia. Arthur do Val “Mamãe Falei” (Patriota), por exemplo, dedica uma seção inteira de seu plano à região, mas traz como única proposta fora deste contexto a ampliação de “canis para que moradores de rua possam ter seus pets em centros de acolhimento”.

No caso de Joice Hasselmann (PSL), a candidata só menciona a população de rua fora do contexto da Cracolândia ao defender a “filantropia” e a participação de um “Conselho da Melhor Idade” na retirada de crianças da rua.

Coordenadora da Rede Brasileira de Pesquisadores sobre População em Situação de Rua, Silvia Schor alerta que a discussão sobre políticas para a população em situação de rua não deve ser misturada com a da Cracolândia. De acordo com Silvia, trata-se de “recortes diferentes”, que, em certos aspectos, não têm as mesmas características. 

Grupo elaborou documento com reivindicações

Nesse cenário de esvaziamento das propostas, moradores de rua produziram uma carta com 31 itens que julgam necessários na gestão da cidade. Organizados por grupos como O Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR) e o Fórum da Cidade, eles convidaram todos os candidatos à Prefeitura de São Paulo para discutir os temas e prometer lutar por eles.

Nessa carta, os moradores de rua pedem benefícios como instalação de bagageiros, chuveiros, bebedouros públicos, ampliação das equipes de consultório na rua, garantia de uma renda básica e modelos de acolhimento com maior autonomia.

“É uma chance que a população de rua tem de não ficar submissa ao que eles propõem”, disse José Fernandes Junior, que passou por seis abrigos e hoje não vive mais na rua. Segundo Robson Mendonça, do Movimento Estadual da População em Situação de Rua, os candidatos que assinaram o compromisso com as propostas são Guilherme Boulos (PSOL), Jilmar Tatto (PT), Marina Helou (Rede) Orlando Silva (PCdoB) e Vera Lúcia (PSTU).

Já nos planos de governo, Boulos, Tatto e Helou propõem medidas que se relacionam com ao menos um terço do que é reivindicado pelos moradores de rua no documento. 

"Quando os candidatos têm uma preocupação com os vulneráveis, não dizem que vão dar atenção a eles, mas sim como", diz Alderon Costa, membro da Associação Rede Rua. Para ele, a carta da população de rua aos postulantes contribui para que desenhem medidas  que se encaixem com as necessidades dessas pessoas. "Eles são conhecedores dessa realidade e podem dizer para os candidatos o que é melhor."

Número de moradores de rua aumentou

Censo. Atualmente, de acordo com informações coletadas pelo censo municipal, pelo menos 24 mil pessoas estão em situação de rua na cidade de São Paulo.

Alta. Segundo o IBGE, essa população cresceu 53% em São Paulo em relação ao censo anterior, do ano de 2015. Deste total, metade vive em centros de acolhida.

Pandemia. Silvia Schor diz que, embora ausentes dos planos de governo, propostas para essa população se tornam mais urgentes por causa da covid-19

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