Candidatos a prefeito apostarão em voluntariado, redes sociais e horário eleitoral em campanha

Fim das doações de empresas levam à busca de meios alternativos para superar a falta de recursos

Leonardo Augusto, Carmen Pompeu e Anderson Bandeira, especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2016 | 14h14

Os candidatos à prefeito nas eleições deste ano vão tentar usar o voluntariado, redes sociais e programas de rádio e televisão no horário eleitoral gratuito para superar a falta de recursos que, afirmam, vai ocorrer nas campanhas com o fim das doações de empresas.

O candidato do PT em Belo Horizonte, deputado federal Reginaldo Lopes, afirma que não vai montar comitê físico e nem terá marqueteiro de campanha. "Rompemos com a política do passado", afirmou Lopes. O PT, juntamente com partidos como PSDB, PMDB e PP, tem integrantes investigados pela Operação Lava Jato. "Todas as legendas estão sob suspeição", afirmaLopes. O petista diz que não vai gastar mais que R$ 5 milhões na campanha pela Prefeitura da capital mineira. Na disputa de 2012, Patrus Ananias, que disputou o cargo pelo partido, declarou despesas de R$ 17,4 milhões ao Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG). Nesta terça-feira, 16, primeiro dia de campanha, Lopes visita casas na capital que funcionarão como centros de divulgação de sua campanha de forma voluntária.

O PSDB, que terá o deputado estadual João Leite como candidato, vai ter gastos inferiores a R$ 13 milhões, conforme informações do presidente estadual da legenda, deputado federal Domingos Sávio. Para economizar, o parlamentar afirma ter cedido sua sala na sede do partido para discussões de campanha. "Vamos ter comitê, vamos investir em programas de rádio e televisão no horário eleitoral gratuito, mas a campanha será franciscana", afirma. Na eleição passada à Prefeitura, os tucanos apoiaram o atual Marcio Lacerda, que siau vencedor na disputa e é o atual prefeito da capital.

O vice-prefeito Délio Malheiros (PSD), que na última hora ganhou o apoio de Lacerda, afirmou que ainda não sabe quanto deverá gastar na eleição, mas disse que vai priorizar a divulgação nas redes sociais de pontos que considera positivos na atual gestão. "Vamos mostrar que somente nós temos condições de avançar no que já foi conquistado", diz. Malheiros teve o apoio de Lacerda em 5 de agosto, uma sexta-feira. No domingo anterior, o prefeito havia lançado o empresário Paulo Brant como seu candidato, mas desistiu do nome e indicou o vice, Josué Valadão (PSB) na chapa de Malheiros. O PSB afirmou que Brant tinha uma condenação que o impedia de gerir instituições financeiras, o que poderia atrapalhar a campanha do então candidato.

O grupo de Lacerda vinha encontrando dificuldades para coligações. Segundo Malheiros, que afirmou ter comunicado ao prefeito ainda no início de mandato que queria disputar a Prefeitura esse ano, o apoio de Lacerda não aconteceu muito tarde. "Veio no tempo certo", avaliou. Nas eleições de 2012, os gastos de Lacerda, conforme informações prestadas ao TRE, foram de R$ 28 milhões.

Fortaleza. Na capital cearense, os candidatos não podem gastar na campanha deste ano mais que R$ 16 milhões cada um. Para o primeiro turno, cada um poderá usar até R$ 12,4 milhões. E, no segundo turno, R$ 3,7 milhões.

Das oito candidaturas homologadas nas convenções, apenas quatro haviam pedido, até a tarde da segunda-feira, 15, registro no Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE): Roberto Cláudio (PDT); Ronaldo Martins (PRB); Heitor Férrer (PSB); e Capitão Wagner (PR). Todos eles declaram o teto como previsão de gasto.

A coordenação de campanha da candidata Luizianne Lins (PT), informou que a arrecadação será feita através das redes sociais, dentro do que é permitido na nova legislação. Também serão realizadas atividades que já são padrão, como jantares. A coordenação informou ainda que a previsão de gastos só será informada quando sair o CNPJ da campanha.

Na convenção que homologou a candidatura dela, Luizianne, que já foi prefeita de Fortaleza por duas vezes (2005/2012), queixou-se da falta de recursos e chegou a sugerir, brincando, que cada apoiador pagasse R$ 0,50 pela voltinha no fusca vermelho, ano 1969. O veículo será o mascote de campanha da petista.

A candidata chegou ao evento no carro, tendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sentado no banco do passageiro da frente e o vice-dela, Elmano de Freitas (PT), pilotando. Ela se lançou na disputa sem apoio de outros partidos. Não vai contar nem com a ajuda do governador Camilo Santana, que, apesar de também ser do PT, vai trabalhar informalmente por Roberto Cláudio. Camilo e o atual prefeito pertencem ao grupo político liderado pelos irmãos Cid e Ciro Gomes, ambos do PDT.

Apadrinhado pelos senadores Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Eunício Oliveira (PMDB-CE), Capitão Wagner tem informado que vem recebendo pedido de voluntários para transformar suas casas em ponto de apoio nos bairros da cidade. Em seu favor, ele também conta com a simpatia de boa parte da tropa de policiais do Ceará.

A reportagem fez contato com a assessoria de imprensa do candidato Roberto Cláudio. Mas, até a conclusão desta matéria, a assessora não deu retorno. Os coordenadores dos demais candidatos não foram localizados.

De acordo com a legislação eleitoral deste ano, o limite de gasto passou a ter valor fixo, calculado a partir das contas da campanha de 2012. Em Fortaleza, por exemplo, o candidato que mais gastou em 2012 foi o atual prefeito, Roberto Cláudio. Os gastos dele, portanto, foram utilizados como base de cálculo, e sobre o valor foram acrescidos 33%.

Recife. Os principais candidatos à Prefeitura do Recife dizem que vão poupar recursos apesar de poderem gastar até R$ 6,6 milhões no primeiro turno e R$ 1,9 milhão no segundo. Trabalham com um teto abaixo do permitido e sem marqueteiros. Dos sete candidatos mais cotados para assumir a cidade, apenas o atual prefeito Geraldo Julio (PSB) terá marqueteiro. 

A aposta será nas redes sociais, no poder de atração de votos dos vices, na força da base aliada e na troca de acusações que envolvem o processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff e as investigações em curso sobre corrupção que atinge políticos graúdos do Estado.

Para a disputa, além de Geraldo Julio, outros seis nomes homologaram suas candidaturas: João Paulo (PT), Priscila Krause (DEM), Edilson Silva (PSOL), Carlos Augusto (PV), Simone Santana (PSTU), e Daniel Coelho (PSDB).

Tentando a reeleição, Geraldo Julio terá o apoio de aproximadamente 20 partidos da base de sustentação e aliados de grande estatura como o ministro Fernando Filho e o senador Fernando Bezerra Coelho, ambos do PSB. Sem poder participar de atos públicos para apresentar os seus feitos, o socialista tem utilizado as redes sociais para exibir, sem patrocínio, algumas de suas ações. Na plataforma digital, Julio também vem experimentando o diálogo com o eleitor. O que pesa ao seu desfavor, porém, é o poder de ataque que os adversários têm para essa eleição. Envolvimento de integrantes da alta cúpula do partido no Estado nos escândalos de corrupção como as Operações Fair Play e Turbulência colocam em xeque a atual administração. A primeira ação investiga a participação indireta do prefeito no superfaturamento da construção da Arena Pernambuco. Já a Turbulência, que investiga desvio de dinheiro das obras do São Francisco para irrigar as campanhas de 2010 e 2014 do ex-governador Eduardo Campos - morto em um acidente de avião em 2012 - atinge diretamente aliados do prefeito como Bezerra Coelho. Setores da oposição, inclusive, já têm utilizado essas denúncias para provocar os adversários e cobrar explicações. 

Buscando retornar um projeto que se afundou em 2012, com a perda da prefeitura para o PSB, o PT tenta a disputa com o candidato João Paulo, que administrou a cidade por duas vezes. Em meio ao desgaste da legenda pelos escândalos nacionais como o mensalão e o esquema de corrupção na Petrobrás, João Paulo vai para a disputa com cinco partidos aliados (PTN, PTB, PRdoB, PT e PRB). A aposta, no entanto, está no corpo a corpo com a população, além do poder de agregação do seu vice, o deputado estadual, Silvio Costa Filho (PRB),  filho do deputado e ex-vice-líder do governo Dilma, Silvio Costa (PTdoB). O petista, que conta ainda com o apoio do senador e ex-ministro Armando Monteiro, defende a comparação das gestões para desbancar os socialistas. O discurso do "golpe" contra os adversários também ditará o tom da campanha.

Correndo por fora, os candidatos Simone Santana, Edilson Silva, Carlos Augusto e Priscila Krause surgem como o novo do cenário eleitoral. Ambos têm experimentado plataformas digitais para conquistar o voto do eleitor com debates ao vivo.

A democrata tem no seu ninho grandes nomes do cenário local a exemplo do ex-governador e ministro, Gustavo Krause, o ministro Mendonça Filho (DEM) e o ex-governador Roberto Magalhães. Segundo colocado nas últimas eleições, quando ainda era do PV, o deputado federal Daniel Coelho, hoje no PSDB, reviverá um tira teima. Aposta na força do seu mandato na Câmara dos deputados, como a defesa pela saída do PT, e a defesa de um programa de governo mais programático, pensando na cidade. 

Santos. Na busca pela reeleição, a equipe de campanha do atual prefeito de Santos (SP), Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), está 1/3 menor do que a contratada em 2012. O registro da candidatura foi feito na segunda-feira, 15, e ainda não há previsão de quanto será gasto porque a arrecadação não começou.

Para Ricardo Mucci, coordenador de marketing da campanha de Barbosa, a criatividade será fundamental, com uma campanha muito mais orgânica, para aproximação com o novo eleitor. "O candidato precisar estar muito mais preparado. E terá de ser mais presente. Ir para a rua, conversar com  a população, se apresentar com muita transparência. Nosso desafio é conquistar a atenção do eleitor, que está cansado", diz. "Temos quase 60% do tempo na TV, mas a estrutura é menor, os programas serão mais simples, com menos efeitos especiais", ressalta Mucci.

O coordenador afirma que, apesar de força da internet e das redes sociais, é uma ilusão imaginar elas atinjam toda a população. "Chega principalmente nas classes A e B, ao público jovem, mas é complementar. Ela pode até destruir uma campanha se houve denúncia de alguma irregularidade, mas não tem a mesma força que nos Estados Unidos, por exemplo", analisa o especialista.

Mucci diz ainda que o Whatsapp, aplicativo de troca de mensagens, se tornou uma ferramenta estratégica muito eficiente. "A prefeitura se comunicou pouco com a população na primeira gestão do atual prefeito e o cidadão não conhece os projetos municipais. O cenário político atual é atípico. E a crise financeira afetou até os repasses federais", comenta. "Nosso limite é o adversário, que pode reclamar e até pedir punição se houver algo irregular", completa.

Também disputam a prefeitura santista Carina Vitral (PCdoB), Débora Camilo (PSOL), Edgar Boturão (PROS), Genival Bezerra dos Santos (PSDC), Hélio Hallite (PRTB), Marcelo Del Bosco (PPS) e Paulo Schiff (PDT).

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