Maurício Garcia de Souza/Alesp
Maurício Garcia de Souza/Alesp

Cancelamento de prévia põe em risco unidade do PT em São Paulo

Decisão de delegar ao diretório municipal a escolha do candidato a prefeito é criticada por lideranças importantes da sigla

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 16h57

A decisão do PT de São Paulo de cancelar as prévias e delegar ao diretório municipal, por conta da pandemia do novo coronavírus, a escolha do candidato a prefeito da Capital provocou uma série de reações negativas e coloca em risco a unidade do partido na eleição da maior cidade do País.

Em um abaixo assinado que circula desde a semana passada, três pré-candidatos comparam a escolha do candidato pelo diretório, que tem apenas 46 membros, ao colégio eleitoral que elegeu Tancredo Neves em 1984 e que foi boicotado pelo PT, que considerava antidemocrática qualquer forma de eleição do presidente que não fosse pelo voto direto.

Em vídeo divulgado no final de semana, o ex-ministro José Dirceu diz que é “quase escandaloso” o PT adotar essa forma de escolha em plena era das redes sociais e da tecnologia. O ex-presidente do partido José Genoino também disse ser contra a definição do candidato pela cúpula municipal.

Em conversas privadas, lideranças importantes do PT na capital ameaçam não apoiar a candidatura de Jilmar Tatto, o franco favorito na disputa interna, caso o partido não amplie a base de consulta para escolha do candidato.

Os críticos da escolha do candidato pelo diretório defendem o uso de tecnologias na decisão, como uma prévia por meio digital.

O diretório municipal reagiu nesta segunda-feira, 27, com uma carta na qual defende o método de escolha pela cúpula e acusa os defensores da prévia digital de, “por uma condição de classe”, provocarem a fragilização do partido e criar uma categoria de “excluídos digitais” -- filiados petistas que, segundo a direção, não tem acesso à internet.

“Somos contra a democracia na qual as regras são feitas pelas elites para privilegiar setores mais abastados e ausentar das decisões os pobres e excluídos dos meios de fazer valer a sua vontade (…) A escolha por prévia digital, neste momento, deformaria a nossa democracia e terminará por alijar os mais pobres: os moradores das favelas e dos cortiços, os sem-teto, os subempregados e os desempregados. Justamente onde se encontra a maioria da nossa base social”, diz a carta assinada por dezenas de lideranças, entre elas três deputados federais, sete estaduais e seis vereadores.

O pano de fundo da controvérsia é o favoritismo de Jilmar Tatto na disputa interna. Líder da chamada “tattolândia”, conjunto de bairros pobres da Zona Sul onde Tatto e sua família construíram uma sólida base de eleitores e filiados do PT capaz de desequilibrar qualquer disputa interna, o ex-secretário de Transportes conseguiu mais de 70% dos votos para seu candidato a presidente do diretório municipal, Laércio Ribeiro, no ano passado.

Tatto é favorito em qualquer instância partidária, mas é visto como um candidato frágil, desconhecido e com baixa densidade eleitoral. Na eleição para o Senado em, 2018, ficou em sétimo lugar com apenas 6% dos votos.

Lideranças petistas avaliam que, com a escolha de Tatto, o partido corre o risco de uma derrota histórica na principal cidade brasileira, perdendo a hegemonia da esquerda para a chapa do PSOL formada por Guilherme Boulos e Luiza Erundina, o que refletiria no restante do País e nas eleições de 2022.

No entanto, o PT não conseguiu até agora construir uma alternativa a Tatto. O favorito do partido, Fernando Haddad, já disse reiteradas vezes que não é candidato em hipótese alguma. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou emplacar a volta de Marta Suplicy ao PT, mas desistiu diante de resistências da base que não perdoa a ex-senadora por ter votado a favor do impeachment de Dilma Rousseff.

Alguns dirigentes do PT apontam a impotência de Lula diante do quadro. Ele não é próximo de Tatto, mas não teria força, hoje, para interferir no processo. Além do amplo controle sobre o diretório municipal, Tatto é aliado do presidente estadual, Luiz Marinho, e da presidente nacional, Gleisi Hoffmann.

Segundo aliados de Tatto, os críticos à escolha do candidato pelo diretório municipal querem, na verdade, ganhar tempo para articular outra alternativa. A forma de escolha seria apenas o pretexto alegado para isso, mas levou a uma escalada verbal no partido.

“Eu às vezes não consigo acreditar que é verdade. É quase escandaloso que se proponha que o diretório decida na era que estamos vivendo. Está errado. É um sinal péssimo para a sociedade e para a nossa imagem”, disse José Dirceu.

“Não podemos reduzir uma decisão tão importante como essa, que envolve seis candidatos e uma candidata, a uma reunião do Diretório Municipal. Isso seria a imposição de um absurdo colégio eleitoral formado por 46 dirigentes municipais em detrimento do poder de decisão de milhares que já participaram dos debates e de outros tantos que aspiram participar dessa decisão”, diz o abaixo assinado proposto pelos pré-candidatos Eduardo Suplicy, Carlos Zarattini e Nabil Bonduki.

Nesta terça ou quarta-feira, Lula deve ter uma conversa com todos os pré-candidatos. Os opositores de Tatto pedem que a definição da candidatura, marcada para quinta-feira, 30, seja adiada.

Segundo o presidente do diretório municipal, Laércio Ribeiro, a decisão de escolher o candidato por meio da instância partidária segue orientação da direção nacional. O diretório nacional do PT se reúne na véspera da data marcada para a definição do nome para avaliar os três recursos apresentados por adversários de Tatto contra a forma de escolha do candidato. Segundo dirigentes, existe a chance de a definição ser adiada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.