Campos cobra de Dilma corte do custo da água, assim como fez com a energia

Governador de Pernambuco, que pode disputar com a petista em 2014, fez cobranças em evento organizado pelo governo federal para anunciar medidas de combate à seca no Nordeste e afirmou que política de desoneração do setor elétrico deve ser repetida

BRUNO BOGHOSSIAN - ENVIADO ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2013 | 02h05

FORTALEZA - Em encontro reservado da presidente Dilma Rousseff com governadores do Nordeste para anunciar medidas federais de combate à seca - a pior dos últimos 50 anos -, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), cobrou da União a isenção de tributos (PIS e Cofins) de empresas públicas de água do Nordeste para diminuir o custo da prestação de serviços na região.

Num contraponto à presidente, Campos, que se movimenta para disputar a Presidência contra Dilma em 2014, sugeriu que a petista repita o modelo de desoneração adotado para o setor elétrico, que levou à redução das contas de luz. A diminuição das tarifas de energia é uma das principais bandeiras que a petista deve exibir na campanha pela reeleição.

"Recentemente, seu governo anunciou desonerações da ordem de R$ 14 bilhões em favor das empresas distribuidoras de energia elétrica. Agora, é chegada a hora de conceder benefício semelhante às nossas companhias de água, que estão sendo duramente castigadas pela estiagem", disse o governador, cujas frases na reunião fechada foram divulgadas por sua assessoria.

Ao chegar ao evento, pela manhã, Campos não quis comentar sua possível candidatura. "Quem está sofrendo com a seca, perdendo suas plantações e rebanhos, não quer saber agora sobre quem vai disputar as eleições no ano que vem", afirmou.

O ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra (PSB), confirmou que a proposta de desoneração foi feita por Campos. A presidente Dilma disse ao governador que uma desoneração só tem sentido se for revertida em benefícios à população - como o que ocorreu com a conta de luz.

Outros governantes sugeriram, como alternativa, que o governo federal "capitalize" as empresas de água - ou seja, faça aportes via BNDES para reduzir prejuízos das estatais, que na seca intensificam o abastecimento de caminhões-pipa. Para o governo, essa proposta é mais factível.

"As empresas de água estão passando por uma situação difícil, com tendência a se agravar", disse o governador do Ceará, Cid Gomes (PSB). Ele afirmou que Dilma deverá analisar a proposta de desoneração "em um segundo momento", em debates sobre renegociação tributária.

Os pedidos de socorro às empresas foram endossados pelos governadores Ricardo Coutinho (PSB-PB), Wilson Martins (PSB-PI) e Rosalba Ciarlini (DEM-RN). De acordo com o discurso de Campos, o corte de impostos daria fôlego às empresas para fazer caixa e investir em obras estruturantes.

Crítico. No encontro de ontem, Campos manteve uma postura "crítica" em relação ao governo federal, segundo governantes e parlamentares presentes à reunião. Enquanto outros governadores, como Cid Gomes, elogiaram a "agilidade" dos investimentos feitos pelo governo Dilma, o pernambucano apontou falhas na infraestrutura da região.

Em entrevista antes do encontro com Dilma, Campos destacou que a base econômica nordestina está "desprotegida" e cobrou "clareza" na formulação de um plano de longo prazo.

"Hoje, não se tem o trauma que se tinha há 50 anos no que toca à questão da fome, mas o que essa estiagem demonstra é que a base econômica ainda está desprotegida. Precisamos de obras de infraestrutura e políticas públicas que protejam essa base", disse. "Isso exige obras emergenciais e um olhar estratégico sobre o futuro, sobre como nós vamos recompor essa economia."

Ao encarar o problema da seca, Eduardo Campos tem reconhecido avanços sociais, mas afirma que a região precisa de um plano "de longo prazo" para desenvolver sua economia. Essa visão é parte do projeto de Campos para se apresentar como um candidato "pós-PT", superando avanços sociais da atual gestão.

Para se antecipar às críticas e defender o governo, Dilma adota uma estratégia de "demarcar território", segundo petistas, em que destaca ações de sua administração. "Barragens, adutoras e estações elevatórias, (...) junto com toda a estrutura de proteção social, montada pelo governo do presidente Lula e pelo meu governo, explicam por que a cara da miséria nessa região não foi tão acentuada perversamente pela estiagem", disse, ao abrir o encontro.

Mais tarde, em evento que não contou com a presença de Campos, reforçou: "Conviver com a seca tem várias dimensões, e uma delas é como iremos superar os seus efeitos garantindo uma obra de grande duração. Essas obras fazem parte de um conjunto de obras que o governo federal tem desenvolvido."

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