GABRIELA BILÓ/ESTADÃO
GABRIELA BILÓ/ESTADÃO

Desgaste da classe política faz campanhas ficarem 'silenciosas' nas ruas em 2018

Desgaste dos políticos se reflete em panfletagem tímida e militantes tentam driblar falta de paciência do eleitor ao distribuir propaganda dos candidatos nas eleições 2018

Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2018 | 05h00

“Não é santinho de político, não”, se apressa José Augusto Moura, enquanto tenta distribuir folhetos de um restaurante na Avenida Paulista, na região central de São Paulo. É uma estratégia. “Só assim para as pessoas aceitarem. Era eu esticar o braço e as pessoas respondiam ‘já tenho candidato’. Hoje em dia ninguém quer saber de político. Até o pessoal das campanhas percebeu.”

Driblar a resistência das pessoas nas ruas e enfrentar a falta de paciência em relação à política tem sido um desafio - não só para Augusto, que trabalha no comércio e é afetado indiretamente - mas para militantes que, nas eleições 2018, ainda veem no contato corpo a corpo uma forma eficaz de conquistar votos. 

Para analistas ouvidos pelo Estado, este comportamento e a consequente debandada das militâncias das ruas para as redes são sintomas da desilusão dos brasileiros em relação às eleições. Assim como há quatro meses o “clima” de Copa do Mundo não foi como em anos anteriores do País, o barulho típico das ruas nos tempos de eleição foi bem diferente e fez surgir a sensação do surgimento de campanhas “fantasmas”. Sem grande quantidade de bandeiras, adesivos ou presença massiva de cabos eleitorais, as campanhas se restringiram a distribuir folhetos e, de forma tímida, se fazer presente em prol dos candidatos. 

“Houve muita resistência. Sentimos isso indo para a Praça da República todos os dias”, conta Alex Sandro, que trabalhou numa campanha do PT para a Assembleia Legislativa de São Paulo. “As campanhas foram mais tímidas nas ruas neste ano. Mas fomos para a rua por acreditar na candidata e porque tínhamos gente disposta a trabalhar por ela.” Esta também é a avaliação de Magali Cristina Lopes, que trabalhou em Itaquera para um candidato do PSDB. “Difícil. Uma forma de fazer as pessoas aceitarem os santinhos é conversando. Fiz isso, mas mesmo assim muitos negavam. Não era assim em outras eleições.”

No Brasil há 29 anos, a peruana Gladys Valdívia decidiu militar em prol de um candidato do partido Novo. Distribuiu folhetos na Avenida Paulista com uma remuneração que chama de “simbólica” e, diferente de eleições anteriores, sentiu a “decepção” das pessoas com a política. Ela diz que foi justamente esse sentimento de decepção que a fez ir para a rua. "Temos que deixar para trás a política que nos deixou desacreditados com tantas promessas que não foram cumpridas. Precisamos acreditar em algo novo e foi justamente esse espírito que me fez continuar na rua. Mas reconheço e entendo a decepção das pessoas hoje. Mas temos que acreditar que as coisas podem mudar.”

“A menor intensidade de militância nas ruas indica um desgaste dos políticos e da política num sentido geral”, analisa o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Mackenzie. “Isso deixa as pessoas receosas de se se exporem. O clima de violência na política também leva a isso. Mas as campanhas também estão mais virtuais. Mais nas redes do que nas ruas. Isso tudo contribui para que as pessoas prefiram não ir às ruas para defender um ou outro candidato.”

Outro fator que pesou no afastamento das militâncias das ruas foi justamente a atuação de seus partidos. Em geral, a sensação de não se sentir mais representado. Foi o que aconteceu com o funcionário público Caike Guedes Ramos, por exemplo. Depois de atuar na rua em defesa de candidaturas do PSTU, ele disse ter se decepcionado com a forma como os partidos de sua preferência ideológica, esquerda, vêm dialogando com a periferia. “A desilusão vem por parte dos partidos de esquerda não conseguirem dialogar com o povo, com a periferia”, diz Caike.

“As ruas talvez tenham sido trocadas pelos celulares e computadores”, diz o cientista político Jairo Pimentel, da Fundação Getúlio Vargas. “Com uma possibilidade de que as pessoas estejam se manifestando agora de forma mais negativa do que positiva em relação às candidaturas. Além disso, é importante destacar que as campanhas estão com menos dinheiro, com a proibição de doações empresariais. Isso se reflete em menos gente na rua. Então, além das desilusões com os partidos, que afasta a militância voluntária, as campanhas estão com menos dinheiro, o que diminui a contratação de pessoas. E aí a tendência é mesmo o esvaziamento.”

O momento impôs dificuldades mesmo para quem já tinha experiência de militância na rua. Foi o que aconteceu com Ivan Valente, deputado federal do PSOL, que tenta se reeleger para o quinto mandato. O Estado acompanhou uma panfletagem do candidato e sua equipe na Avenida Paulista. Apesar da grande movimentação de pessoas e de ser um político conhecido, poucos paravam para receber o material de campanha e conversar ou tirar fotos com Valente. O destino fatal de boa parte dos folhetos distribuídos era a primeira lixeira no trajeto dos eleitores.

“Houve um processo de desmoralização dos partidos políticos. Então, isso se manifesta às vezes na rua na negação dos folhetos, levantando as mãos. Reação de forma mais agressiva é de um outro. Essa negação atrapalha”, diz o candidato. “Além disso, com as mudanças (nas regras de campanha), houve uma higienização da política. Você não vê mais cavalete, faixas, isso trabalha contra a democracia. Você vê no máximo alguns folhetos. Isso faz as campanhas parecerem menores, enxutas.”

O Estado também esteve em Grajaú e Parelheiros, no extremo sul da capital. Entre o horário de almoço e fim da tarde, a reportagem contou apenas cerca de 15 pessoas com bandeiras de candidatos nesta quinta-feira, 4, último dia de campanhas. "Nem recebemos mais santinhos na porta de casa ou do comércio”, diz a comerciante Márcia Bartiromo do Carmo. “Os que chegam são colocados na caixa do correio."

“O cenário de incivilidade da nossa política atual faz com que as pessoas repensem prioridades. Ir para a rua e se arriscar não é uma dessas prioridades”, analisa Prando, sobre a forma como a discussão política parece se distanciar, de forma voluntária, do cotidiano de eleitores. Avaliação vista na prática até por quem é afetado indiretamente pela rejeição à política, como Augusto, o distribuidor de folhetos do restaurante da Paulista, do início desta reportagem. “No fim das contas, parece que as pessoas estão mais interessadas mesmo é no preço do prato feito, não com esses caras.” / COLABOROU ADRIANA FERRAZ

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.