Campanha não calculou impacto da propaganda, admite Marta

Inserção na TV questionava se Kassab era casado e tinha filhos; para petista, polêmica foi 'injustificada'

Vera Rosa e Clarissa Oliveira, de O Estado de S. P,

25 de outubro de 2008 | 14h47

Sem usar o substantivo "erro", a candidata do PT à Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy, admite que sua campanha não calculou a repercussão negativa da propaganda que perguntava se o prefeito Gilberto Kassab (DEM) era casado e tinha filhos. Indagada se estava arrependida do comercial, a petista foi econômica na resposta. "Com a resignificação que foi dada à propaganda por setores da imprensa, não poderia ficar no ar. E não ficou", insistiu. Veja também:Em debate morno, Marta tenta virar eleição com ataquesBlog da Eleição: as principais declarações do debate  Gabriel Manzano, de O Estado de S. 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A entrevista foi concedida por e-mail à Agência Estado. Marta reafirmou que não pretendia atacar a vida pessoal do prefeito, mas não poupou críticas ao adversário, que lidera as pesquisas de intenção de voto."Quando o PFL e o PSDB me atacaram e me caluniaram, na campanha de 2004, eu não vi estardalhaço dos mesmos setores da mídia para me defender", lembrou. "O site do PSDB falava então de 'dona Marta e seus dois maridos'. Era um absurdo. E Kassab, que agora se faz de vítima, nunca disse nada." Apelidada de "Martaxa" pela oposição, a mulher que administrou São Paulo de 2001 a 2004 promete agora isenção do Imposto Sobre Serviços (ISS) para autônomos e profissionais liberais, na tentativa de reconquistar a classe média, e jura que, se eleita, nunca mais criará taxas. "A garantia é a minha palavra", diz. A seguir, os principais trechos da entrevista: Se a sra. for eleita prefeita, qual será sua primeira medida?Não vamos colocar o carro adiante dos bois. Primeiro, é preciso vencer a disputa. O que posso dizer é que o primeiro ato de uma administração, quando ela tem de fato um projeto de cidade, deve já trazer toda uma carga simbólica. Por isso, sendo eleita, logo nos primeiros dias vou recuperar direitos que foram retirados do bilhete único, como o de recarregar na catraca. E, como vivemos um situação de abandono do transporte público, vou procurar o presidente Lula e o governador José Serra para discutir o plano de expansão do metrô, elaborar um cronograma para alocar os recursos e, no caso dos corredores de ônibus, implementar imediatamente medidas para viabilizá-los. Em todas as áreas prioritárias agiremos com a mesma prontidão, pois temos experiência e idéias claras do que fazer. Desde o primeiro dia de sua campanha a sra. procurou se desvencilhar do apelido "Martaxa". Que garantia, porém, a população pode ter de que novas taxas não serão criadas, caso a sra. vença a disputa?Governei São Paulo com um orçamento muito inferior ao atual. Com R$ 10 bilhões a menos que meu adversário. Com poucos recursos, fiz muita coisa. A saúde estava destroçada e eu recuperei o setor com a municipalização. O transporte era um caos e eu o deixei bem estruturado, com uma frota de ônibus amplamente renovada, mais de 100 km de corredores e a criação do bilhete único. Na educação, recebi escolas de lata - e criei os CEUs. Criamos os programas sociais, os telecentros. Hoje, a prefeitura tem dinheiro e a carga de tributos municipais per capita aumentou muito na atual gestão, em valores reais. Não houve iniciativas do governo Kassab para desonerar a população, pelo contrário, houve aumentos, como o do ISS dos taxistas. Daí minha proposta de isenção de ISS para autônomos e profissionais liberais, por exemplo. E outros incentivos que podem ser apresentados em planos para desenvolvimento de áreas da cidade que oferecem poucos empregos, e para onde queremos atrair empresas. A garantia é minha palavra. A população de São Paulo sabe que nunca fui de dizer uma coisa e fazer outra. Ao deixar o Ministério do Turismo, a sra. disse que seu maior desejo era reconquistar a classe média perdida em 2004, mas as pesquisas indicam que esse objetivo não foi atingido. O que aconteceu?Vamos esperar o resultado das eleições. Nosso programa de governo tem propostas para elevar a qualidade de vida em toda a cidade, como o transporte público de qualidade para todos, capaz de nos tirar do caos do trânsito e dos crescentes índices de poluição do ar. Ou o resgate da qualidade da educação pública, expresso pela rede CEU e pelo investimento nos professores. Ou os projetos de desenvolvimento urbano, como a retomada da recuperação do Centro. Ou ainda o grande salto nos serviços que propomos para a área de saúde. Evidentemente, continuamos a considerar que o maior problema da cidade permanece sendo a desigualdade social e, portanto, continuaremos dando atenção especial aos que mais precisam, com políticas de inclusão cujos resultados beneficiam toda a sociedade.  Sua proposta de ampliação da rede do Metrô provocou polêmica por contrariar o plano de expansão do atual governo. Como a administração do Metrô fica a cargo do governo, como será possível cumprir a promessa de um novo traçado?Acredito no diálogo, na busca conjunta do que é melhor para São Paulo. Com relação ao metrô, tivemos isso durante minha gestão. Naquela época, a Linha Amarela só iria até o Morumbi. E a estação do Largo da Batata estava prevista para uma segunda etapa. Conversei, apresentei ao governo estadual meus argumentos. Disse que era preciso fazer a estação de Vila Sônia e antecipar a obra do largo da Batata. E isso foi feito. Agora, da mesma forma, quero conversar, quero discutir as linhas, para que o metrô beneficie quem mais precisa, que é a população dos bairros mais afastados do Centro, que gasta de 3 a 5 horas no transporte público, todos os dias. A crise financeira internacional terá impacto sobre todas as administrações. É possível cumprir, por exemplo, a promessa de internet sem fio gratuita ou ela terá de ser readequada à realidade do Orçamento, caso a sra. seja eleita, já que é considerada muito cara por especialistas?É certo que a crise pode levar a redimensionamentos. Mas gostaria de lembrar que a cidade conta com um orçamento que é de R$ 10 bilhões a mais, por ano, em relação ao que tive quando governei, em valores reais. Mesmo com a crise, São Paulo terá um orçamento muito maior do que tivemos.A questão de acesso à internet tornou-se tão importante, no mundo de hoje, que é objeto de políticas públicas de acesso nas mais importantes cidades do mundo. Já tínhamos essa visão em nosso primeiro governo, quando criamos 121 telecentros. Hoje, a prestação de um computador sai mais em conta que uma assinatura mensal de banda larga. Por tudo isso, apresentamos nossa proposta de internet banda larga, que prevê investimentos muito pequenos em relação ao montante do orçamento municipal, sem prejudicar as áreas essenciais, como o transporte, a saúde, a educação. Cidades menos ricas já estão fazendo. Não é um problema para o orçamento e é uma solução para a população.  A sra. já disse que um político pode sair maior ou menor de uma disputa, sendo ou não vitorioso. Considerando que o PT tem um patamar de votos em São Paulo na casa de 30%, a sra. sai desse embate fortalecida para novos desafios?Insisto que não devemos fazer análises de véspera. Vamos esperar a contagem dos votos. Mas posso dizer que a experiência que acumulei me dá certeza de estar muito preparada para ser prefeita de São Paulo. Dirigentes de seu partido avaliam que a sra. deixou o prefeito Gilberto Kassab correr solto no primeiro turno. Foi um erro evitar o confronto com o prefeito quando todas as pesquisas já indicavam a ascensão dele?Os votos não foram contados e não vou fazer balanço antes da hora. A sra. iniciou a campanha como líder das pesquisas e agora até mesmo aliados dizem ser praticamente impossível evitar a derrota. A que a sra atribui essas dificuldades?Repito, mais uma vez: vamos esperar o final da apuração. Fez falta a aliança com o PMDB, que o PT deixou escapar?A aliança do adversário teve muito mais tempo de tv e rádio no primeiro turno, o que sempre pesa na disputa eleitoral. Mas nossa coligação tem afinidade programática, um esforço militante muito intenso e compromisso com a cidade, especialmente com os que mais precisam. Dou muito valor ao empenho dos partidos coligados, às centrais sindicais - que pela primeira vez estiveram unidas em torno de uma candidatura - e aos movimentos sociais, que nos apoiaram. A sra. diz ser vítima de preconceitos e se queixa da invasão de sua privacidade. Essa observação não é contraditória diante da propaganda de sua campanha que perguntava se o prefeito era casado e tinha filhos? Não se trata de um questionamento da vida privada?O questionamento era de caráter geral. Apontava o fato de o eleitorado não conhecer a biografia do candidato e o fato dele sonegar essas informações aos eleitores. Perguntava sobre a história política do candidato, seus vínculos partidários, se ele tinha se enriquecido na política, se era casado, tinha filhos. A partir da abordagem que foi dada no noticiário, instalou-se uma polêmica contra nossa campanha, injustificada, porque não fizemos ataque ou insinuação de caráter pessoal contra o candidato adversário. Quando o PFL e o PSDB me atacaram e me caluniaram na campanha de 2004, não vi estardalhaço dos mesmos setores da mídia para me defender. O site do PSDB falava então de "dona Marta e seus dois maridos". Era um absurdo. E Kassab, que agora se faz de vítima, nunca disse nada. Calou - e consentiu. Tenho uma história na defesa dos direitos humanos e das minorias e recebi apoio de muitos militantes desses movimentos, indignados com o oportunismo da campanha lançada contra mim. A sra. se arrepende dessa propaganda? Foi um erro de estratégia?Com a resignificação que foi dada a ela por setores da imprensa, não poderia ficar no ar. E não ficou. Em mais de uma ocasião a sra. garantiu que desconhecia o conteúdo do comercial referente ao prefeito, assim como o de panfletos da campanha e até mesmo de seu site na internet. A sra. não acredita que o candidato precisa ter ciência do que é divulgado em seu nome? Se a sra. soubesse, teria impedido a veiculação da propaganda?Eu não vi o comercial antes de ser veiculado, como muitos outros usados na campanha. Como não vi outros materiais de campanha. É humanamente impossível o candidato saber de tudo. Há uma divisão de trabalho na campanha, como certamente existe em uma empresa ou em um governo. Você discute a estratégia, participa da definição dos conteúdos do programa de governo, mas não acompanha o dia a dia da produção de peças publicitárias. Mas reafirmo que não atacamos nem pretendíamos atacar a vida pessoal de ninguém. Seu índice de rejeição estava na faixa de 30% quando começou o horário eleitoral e hoje é de 50%, segundo o Ibope. O que houve?Desconheço essa pesquisa. Não é o que vejo nas ruas, nas praças, em toda a cidade. Em todo lugar que fui, ao longo dessa campanha, a população sempre me recebeu muito bem, de braços abertos, com muito carinho e respeito. Mesmo quem não declarava voto em mim. A recepção sempre foi bastante calorosa. Quem conhece de fato o trabalho que fiz aprova nossa gestão e nossas propostas.  O marqueteiro João Santana é responsável pelos erros de comunicação da campanha? Como avalia o trabalho dele? A sra. o contrataria novamente?Como já disse, não farei balanço antes da hora. Muito menos de maneira apressada e superficial. Em seu livro Minha Vida de Prefeita, a sra. diz que um psicanalista busca a verdade, mas um político precisa esconder o que pensa "até o momento em que for do seu interesse saberem o que lhe passa pela cabeça". Um político deve mentir de acordo com suas conveniências?Eu não falei, em momento algum, de "mentira". Falei do ritmo e da forma das informações. São coisas completamente diferentes. Um político precisa ter o senso do momento de dizer as coisas. Tem que ter o "timing". Mas esta sensibilidade não pode ser confundida com a mentira. De modo algum. A sra. afirmou outro dia que "a política é muito suja". Por que, então, está na política?Entre outras coisas, porque acredito que a política não tem que ser necessariamente suja. Não há porque acharmos que a sujeira faz parte da essência da política. Acredito na democracia e teremos um país melhor se mais pessoas participarem ativamente das discussões sobre os destinos de sua cidade, de seu Estado e do País, e tiverem meios para cobrar e controlar as ações de seus governantes. Por isso, defendemos e aprovamos, no âmbito municipal, a criação dos conselhos de representantes nas subprefeituras, que foi vedada pela atual administração do prefeito Kassab.  A sra. pode disputar o governo de São Paulo, em 2010?No momento meus olhos estão voltados integralmente para as eleições de amanhã. Saí do Ministério do Turismo para fazer a disputa em São Paulo porque o projeto que temos para a cidade pode fazê-la muito melhor, em termos de crescimento econômico, qualidade de vida para sua população e redução das desigualdades sociais. É um projeto afinado com o governo do presidente Lula, e estou muito preparada para ajudar São Paulo a dar um salto.

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