Douglas Magno/AFP
Douglas Magno/AFP

Contra Bolsonaro, Haddad muda agenda e vai à Bahia

Petista retorna à região onde é mais forte após campanha detectar avanço de rival; aliados de ex-prefeito veem risco de candidato do PSL vencer ainda no 1º turno

Ricardo Galhardo e Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2018 | 14h44
Atualizado 05 Outubro 2018 | 23h09

O candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad, marcou de última hora em sua agenda uma caminhada neste sábado, 6, em Feira de Santana, a maior cidade do interior da Bahia. A estratégia inicial da campanha era manter o foco na região Sudeste, onde se concentram os maiores colégios eleitorais do País e o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, leva vantagem.

Haddad disse que o objetivo da viagem é garantir uma imagem positiva no encerramento do primeiro turno da campanha. Estrategistas do PT, porém, afirmam que a agenda foi marcada para conter o avanço de Bolsonaro na região Nordeste. 

O comando da campanha petista percebeu que Haddad vem perdendo votos na região que até agora é reduto do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso da Lava Jato, e deflagrou uma operação de emergência, na véspera da eleição, para conter a “onda” Bolsonaro. Desde o início da semana, quando essa “onda” foi detectada, o PT intensificou as ações para neutralizar a atuação dos apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais. 

Canais foram criados para que as fake news, divulgadas sobretudo pelo WhatsApp, sejam denunciadas. As acusações são prontamente respondidas nas próprias redes, publicamente, e viram alvo de ações na Justiça Eleitoral. Em um dia foram registradas 15 mil denúncias.

Levantamentos feitos pelo comitê de Haddad mostraram que Bolsonaro cresceu nos últimos dias entre o eleitorado de baixa renda do Nordeste, única região do País onde o candidato do PT está na frente do capitão reformado do Exército. Em conversas reservadas, a equipe do ex-prefeito não esconde a preocupação com o crescimento do adversário e teme a vitória dele no primeiro turno.

O governador da Bahia, Rui Costa, e o ex-ministro da Casa Civil Jaques Wagner vão acompanhar Haddad na caminhada em Feira de Santana. Costa é candidato à reeleição e as pesquisas indicam que pode vencer na primeira etapa. Coordenador da campanha do governador, Jerônimo Rodrigues confirmou ao Estado que há no PT uma ordem para reforçar a caça aos votos em redutos do partido após Bolsonaro ampliar as intenções de votos no Nordeste. A ordem da direção petista é “dar um banho de gente” em Haddad.

Esta é a segunda mudança repentina na estratégia petista. Na quarta-feira, diante do crescimento de Bolsonaro, a campanha de Haddad decidiu antecipar os ataques ao capitão da reserva, que estavam previstos para acontecer somente no segundo turno.

Desde quinta-feira, Bolsonaro tem investido no eleitorado do PT no Nordeste. O candidato do PSL deu uma entrevista à Rádio Jornal de Pernambuco, na qual chegou a elogiar Lula. “Ele (Haddad) agora está servindo um homem que poderia ser um grande presidente, mas o Lula está colhendo o que ele plantou. Lamento que ele esteja preso”, declarou.

Dirigentes do PT baiano disseram que a visita de Haddad a Feira de Santana visa encerrar de forma positiva a campanha do primeiro turno. Rodrigues afirmou que a ideia é obter imagens representativas da força do lulismo, o que seria mais difícil no Sudeste, onde Bolsonaro lidera a preferência do eleitorado. O candidato do DEM ao governo baiano, Zé Ronaldo, ex-prefeito da cidade, apoia o deputado do PSL.

Presidenciável do PSL tira votos do PT no Nordeste

Mesmo com a rápida transferência de votos que antes eram do ex-presidente Lula, Haddad tem hoje 43% das preferências no Nordeste. Trata-se de um porcentual bem menor do que o PT obteve em disputas anteriores, quando superou a faixa dos 60%. Bolsonaro, principal rival de Haddad, tem 24%, segundo pesquisa Ibope divulgada na quarta-feira, mas dá sinais de que está em ascensão.

É no Nordeste que o PT deposita a maior esperança para chegar ao Palácio do Planalto. Foi ali, no principal reduto eleitoral do partido, que Haddad estreou sua campanha, quando foi escolhido por Lula para substituí-lo. Na região, muitos não sabem nem mesmo pronunciar o sobrenome do ex-prefeito de São Paulo – em alguns locais chamado de “Andrade” –, mas dizem que votam nele porque é o candidato de Lula.

O problema é que, de acordo com pesquisas que têm chegado à campanha de Haddad, Bolsonaro está atraindo parte dos eleitores do PT às vésperas do primeiro turno. O partido vai agora reforçar a estratégia de lembrar que programas sociais importantes, como o Bolsa Família, foram adotados nos governos Lula e Dilma.

O cenário escolhido para a caminhada que Haddad fará hoje em Feira de Santana também traz o simbolismo dos anos em que Lula passou por lá. “Isso pode ajudar na arrancada final”, avaliou o presidente do PT da Bahia, Everaldo Anunciação.

Haddad esteve no Estado outras duas vezes nesta campanha. Foi a Salvador e também a Vitória da Conquista e Jequié. /COLABORARAM YURI SILVA e CECÍLIA DO LAGO 


 

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