'Campanha de Campos deve ter mais ousadia'

Deputada federal e uma das principais lideranças do PSB quer que candidato à presidência defenda propostas mais progressistas

Entrevista com

Luiza Erundina

Ana Fernandes, Estadão Conteúdo

05 de agosto de 2014 | 18h50

Uma das principais lideranças do PSB em São Paulo, a ex-prefeita Luiza Erundina defende que a campanha do seu correligionário Eduardo Campos à Presidência tenha mais coragem. Em entrevista exclusiva ao Broadcast Político, Erundina sugeriu a adoção de propostas progressistas para dar "cara" à candidatura de Campos e de sua vice, Marina Silva. "Essa ambiguidade não é uma coisa boa", disse sobre a tentativa de Campos de agradar a empresários e à classe trabalhadora.

A deputada federal, que tenta a reeleição este ano, argumenta ainda que Campos precisa se libertar dos vínculos com o governo Lula e ir para a campanha de rua. Para ela, levar à frente propostas polêmicas pode tirar votos, mas pode também dar votos. Apoiada em sua experiência como prefeita da capital paulista, entre 1989 e 1992, quando tinha minoria na Câmara de Vereadores e era sustentada pelo apoio popular, Erundina disse querer ver o candidato de seu partido ter uma postura ousada nestas eleições. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista.

Como a senhora enxerga o processo eleitoral até aqui, em 2014?

Está meio atípica esta eleição. Você não consegue perceber por onde vai o processo. O quadro ainda está indefinido, sobretudo no plano federal. Os indicadores econômicos não são favoráveis. A inflação está sem controle, acima da meta. O emprego está se mantendo, mas com salários baixos. O crescimento provavelmente será de menos de 1% neste ano, o que é muito grave. Há uma conjuntura instável do ponto de vista econômico e evidentemente do ponto de vista político. Os partidos estão esgotados em suas propostas, todos eles. A representação está em crise, sem legitimidade. São 32 partidos, todos esses candidatos e há uma dificuldade de marcar o perfil de candidaturas.

Nesse cenário, a senhora acredita que a proposta de chapa de Eduardo Campos e Marina Silva tem chance de vencer? 

Acredito que sim, sobretudo se chegar ao segundo turno. O resto do quadro é a mesmice de sempre. A Marina já teve uma projeção importante na última eleição e a presença dela na chapa é um diferencial. Tenho restrições a ela em certas posições, mas ela é muito franca, não foge do debate. É uma pessoa que traz o novo, a questão da sustentabilidade, da ética, de ver a política com responsabilidade e compromisso. O Eduardo fez duas gestões exitosas em Pernambuco. É uma liderança emergente, jovem, inteligente, uma pessoa de fácil relacionamento. Ele nos anima a acreditar que tem com competência e condições reais de conduzir o País.

Havia uma expectativa de que ele, ao lado de Marina, estivesse mais bem posicionado nas pesquisas neste momento da corrida eleitoral?

Não é automática a transferência (de votos). O projeto é diferente, a própria aliança programática foi uma novidade. Mas (a campanha) está com dificuldade, isso é real.

Quando será período chave para eles conquistarem o eleitorado?

A partir dos debates, não necessariamente do programa eleitoral. Nos debates, Eduardo leva uma vantagem em relação aos outros porque é uma pessoa preparada. Agora, ele tem que se libertar um pouco dos vínculos com o projeto anterior. Ele tem ainda uma dificuldade de se firmar porque tem um enorme respeito pelo Lula. O PSB esteve no governo até há pouco tempo. Essa história de fazer o mesmo e mais... Não é por aí. Por exemplo, eu não diria que vou manter o Bolsa Família nos termos em que está. Diria que vou manter o Bolsa Família por um tempo delimitado e, ao mesmo tempo, implementar outra política que contribua para emancipar essas pessoas.

Os dois principais candidatos de oposição têm dificuldades em tratar temas delicados?

Mesmo os que hoje disputam no campo da oposição têm dificuldade de enfrentar o que foi o governo Lula. Isso é que é ruim na política. Minha experiência indica que ser aberto, franco, ajuda em certos momentos e tem um preço. Gosto de correr esses riscos e isso me afirma como liderança. A pessoa pode até não votar mais em mim, mas sabe o que eu penso, sabe até onde vou. Essa ambiguidade não é uma coisa boa.

Por que há essa ambiguidade?

Porque não se acredita no voto popular, não se acredita na massa. Tem que pensar na maioria. Aécio e Dilma provavelmente têm muito mais elementos para agradar à elite financeira brasileira do que Eduardo e Marina. A quem eles podem agradar de maneira convincente? A essa massa de trabalhadores, ninguém fala a linguagem deles.

Falta coragem?

É. Vai lá e defenda uma proposta. Ela é polêmica? É. Desagrada a determinado segmento? Desagrada. Paciência. Toda proposta que tenha consenso não é proposta que sirva numa sociedade contraditória, desigual e injusta como é a nossa.

O que a senhora sugeriria à campanha de Eduardo Campos?

Tem que ter um projeto bem construído, convincente, e segurança na defesa. Não há coisa pior em uma liderança política que dois ou mais discursos. Não pode ficar no meio. No caso do passe livre, não pode ficar limitado ao que ele propôs. Se quer apoiar, é ir fundo. Passe livre como um direito social à mobilidade. Socializar através de um aumento sobre imposto de propriedade. Como a reforma tributária. Não pode ficar adiando, tem que pensar em justiça social, justiça fiscal, distribuir encargos tributários, senão você agrava as desigualdades. Um governo progressista não pode anunciar que vai acabar com tributo, ele tem que dizer que vai distribuir a estrutura tributária de forma mais justa.

Campos se comprometeu a não aumentar a carga tributária.

Sim, mas o perfil do sistema tributário teria que ser mais equânime. Experimentamos isso na Prefeitura e é viável. Mas tem que ter coragem. Pode tirar voto, mas também dá voto.

O passe livre não deveria ser uma proposta só estudantil?

Tem estudante que pode pagar passe. O que faz a diferença é o trabalhador, o encargo do transporte pesa sobre sua renda familiar.

Com relação à reforma tributária, Campos prometeu entregar um texto base antes do primeiro turno.

Mas você tem que já pegar algumas ideias. Não tem que ir para uma mesa e ficar não sei quanto tempo elaborando uma proposta bonitinha e acabadinha. Na política e na dinâmica eleitoral o impacto é quando você chega com uma reforma forte, bem construída, exequível. 

A senhora vai fazer campanha de rua com Campos?

Essa posição meio sem cara se reflete na agenda, se reflete na campanha. Tinha que ser uma campanha mais ousada. Estou disposta, vamos para a periferia, para o Centro de Tradições Nordestinas, para Feira da Madrugada, para os pontos dos ônibus. É esse povo que precisa ser representado. Estou andando pela periferia, fazendo as rodas de conversa. O povo está com fastio da política, dessa política convencional.

Nessas conversas você fala das propostas de Eduardo e Marina?

Não, porque essas propostas não estão dadas. Para eu me convencer de levar uma proposta, tem que ter me convencido antes. O projeto é do bem, mas está muito genérico ainda, não está enfrentando as questões focais, as questões contundentes que afetam a maioria do nosso povo.

Qual sua opinião sobre a parceria do PSB, em São Paulo, com o governador Geraldo Alckmin (PSDB)?

Foi muito ruim. Tive constrangimento no ato que formalizou a convenção do partido. Ele (Márcio França, candidato a vice na chapa e presidente estadual do PSB) é o dono do partido, é da Executiva Nacional, tesoureiro. Tem muita força porque é um pragmático. É mais fácil fazer política com pragmatismo, não tem senões. Para ele, pessoalmente, foi bom.

Como a senhora vê a aposta no voto Edualdo (Alckmin para o governador e Eduardo para presidente)?

Essa junção é incoerente. Você fala em mudança, no novo e não há projeto mais velho que esse daí, 20 anos de PSDB. O Alckmin quer se candidatar a presidente, você acha que ele vai marcar diferença de tudo que fez até agora? Não é a pessoa dele, gosto dele pessoalmente, mas o projeto... São determinações que terminam neutralizando o diferencial que determinada candidatura ou projeto sugere. Neutraliza. Chega aqui em São Paulo, um discurso de mudança convence? Com Alckmin junto?

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