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Calcanhares desnudos

O primeiro (e maior) desejo do PT era o de que todo mundo acreditasse na inexistência do mensalão. O segundo, que se desse um desconto ao "pecadilho" do caixa dois e ficasse tudo por conta dos vícios do sistema que leva todos ao terreno da ilegalidade, por esta ótica legitimada pelo compartilhamento da prática.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2013 | 02h03

Não deu certo. Prevaleceu, por mais consistente, a narrativa feita na denúncia da Procuradoria-Geral da República aceita pelo Supremo Tribunal Federal para abertura de processo, a Ação Penal 470.

O desejo seguinte, que o julgamento não acontecesse no ano eleitoral de 2012. Outra vontade frustrada, não obstante o rigor do Supremo não tenha influenciado o resultado das eleições: o PT perdeu ou ganhou por questões de ordem política.

O mensalão não foi o tema central da campanha, seja porque a oposição não o explorou a fundo, seja porque os petistas - da presidente da República aos candidatos, passando pela posição majoritária nas bancadas do Congresso - atuaram para marcar distância entre o episódio e o partido.

Com habilidade, desmontaram preparativos de reações mais radicais na defesa dos réus e no ataque ao tribunal. Os estridentes do ano passado não caracterizaram uma ação coletiva. Pois toda sutileza foi abandonada quando ficou decidida a execução das penas de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares.

A presidente Dilma Rousseff calada estava, resolveu se manifestar aludindo a risco de morte quando Genoino teve uma crise de pressão alta; o ex-presidente Lula da Silva um dia recusou-se a falar - "quem sou eu para comentar decisão do Supremo?" - e no seguinte ecoou as reclamações - "parece que a lei só vale para o PT" - as bancadas no Congresso foram contundentes na ofensiva contra o presidente do STF e os dirigentes do partido assinaram manifesto de protesto.

Teria sido a isso que o secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, se referia quando disse "em 2013 o bicho vai pegar"? Caso tenha sido, trata-se de um bicho daqueles que não se cria em casa. Pode morder o dono.

Com suas atitudes explícitas, o PT vem anulando o esforço que fez para se distanciar do mensalão ao desnudar em público os calcanhares que até então procurava resguardar. O que pretende conseguir de objetivo com isso não está ao alcance da vista.

Antes disso era razoavelmente fácil discorrer sobre a recorrente indagação a respeito da influência das prisões sobre a próxima eleição: a julgar pelo exemplo de 2012 e considerando que o PSDB provavelmente terá um ex-presidente do partido (Eduardo Azeredo) julgado por peculato e lavagem de dinheiro no mesmo foro, a resposta seria negativa.

Hoje não se pode dizer com a mesma certeza. Não por ação dos adversários. Tanto Eduardo Campos quanto Aécio Neves têm sido discretos. Até porque tripudiar seria, no mínimo, de extremo mau gosto.

Quem se expõe ao risco é o próprio PT, ao se abraçar ao mensalão, levar o assunto para o cerne do partido e transformar em questão de honra um assunto absolutamente desonroso. Entre outros motivos, por apontar arbitrariedade na execução das penas dos seus e deixar os outros condenados por parceria no esquema ao Deus-dará.

Disciplinar. Nem bem havia entrado no PSB, a ex-senadora Marina Silva deu um chega para lá no deputado Ronaldo Caiado, que vinha construindo aproximação forte com o presidente do partido, Eduardo Campos. O setor do agronegócio, até então permeável às investidas do governador de Pernambuco, afastou-se.

De lá para cá Campos vem investindo firme na reconstrução das pontes. E, note-se, Marina Silva não deu mais uma palavra ácida sobre o assunto nem nominou esse ou aquele personagem ligado à área, cujo apoio poderia desagradá-la.

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