Caixa 2 compromete todo mundo, afirma Silvio Pereira

Ex-secretário-geral do PT fez acordo com a Justiça e livrou-se do processo do mensalão; hoje está à frente de restaurante

PEDRO DA ROCHA, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h05

No restaurante localizado em frente à Prefeitura de Osasco, Silvio Pereira dá ordens para os funcionários, comanda a cozinha e verifica se ainda há macarrão em uma das bandejas do buffet.

Secretário-geral do PT durante os primeiros anos do governo Luiz Inácio Lula da Silva e o único réu do mensalão a conseguir um acordo com a Justiça para que ficasse de fora do julgamento que hoje é conduzido pelo Supremo Tribunal Federal, Silvinho, como é conhecido, conversou com o Estado na sexta-feira, logo após constatar que tudo funcionava direito no almoço servido pelo restaurante de sua família na cidade da região metropolitana.

Ao falar sobre o processo do mensalão, que já condenou seu conterrâneo João Paulo Cunha, ele reproduz o discurso dos advogados que defendem os réus no Supremo: o que ocorreu entre os anos de 2003 e 2005 foi um repasse de dinheiro via PT para que parlamentares pagassem dívidas de campanha. Ou seja, não houve compra de votos, e sim caixa 2. "Se condenarem políticos por esse crime, então teriam que prender todos os dirigentes dos partidos do Brasil", afirma.

Depois, ele discorre sobre a necessidade de mudança do sistema de financiamento de campanha brasileiro. "Tem o PMDB, o PL (hoje PR), o PTB, o PP... Com todos esses partidos se poderia fazer uma discussão séria", diz, listando legendas que tiveram políticos envolvidos no escândalo.

"Mas o próprio PT demorou para falar a verdade", completa Silvinho, segundo quem o partido deveria, logo que o mensalão estourou, dizer rapidamente que tudo, diz ele, não passou de caixa 2.

Silvinho pediu desfiliação do PT em meio às denúncias. Como ex-secretário-geral do PT, era o responsável por encaminhar as indicações de partidos aliados para cargos na administração federal.

A revelação de que havia sido presenteado com uma Land Rover de R$ 74 mil por César Roberto Santos Oliveira, proprietário da GDK, empresa que prestava serviços à Petrobrás, complicou sua situação. Silvinho acabou acusado pela Procuradoria-Geral da República do crime de formação de quadrilha. Em 2008, assinou o acordo que o excluiu da ação após prestar 750 horas de serviço comunitário, na Subprefeitura do Butantã, em São Paulo.

Sete anos após a eclosão do escândalo, Silvinho diz estar fora da política. Afirma que não trabalha pela eleição de Jorge Lapas (PT), que substituiu João Paulo na disputa pela prefeitura local após as condenações do ex-presidente da Câmara por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro. Segundo ele, toda a sua atenção está voltada para o trabalho na cozinha do restaurante Tia Lela.

Diante de mais questões, o ex-secretário-geral do PT decide que não é hora de se alongar sobre o julgamento. Lembra-se de que seu advogado pediu para que não desse entrevistas até que o caso seja dado como encerrado pelo Supremo.

Há alguma intenção de voltar a fazer política? "Não", afirma o único réu do mensalão a já estar quite com a Justiça, pelo menos "por enquanto", conclui a conversa antes de se despedir.

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