Cadeira azul custa até R$ 8 milhões Cabos eleitorais cobram R$ 200 mil para abrir as portas de comunidades Gasto oficial por voto é de R$ 12,50

Segundo os próprios vereadores, despesa por uma vaga na Câmara nestas eleições pode chegar a esse valor

FELIPE FRAZÃO, FERNANDO GALLO, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2012 | 03h04

Considerada a disputa legislativa mais concorrida do País, a corrida por uma das 55 cadeiras da Câmara Municipal paulistana requer, antes de mais nada, fôlego financeiro. Uma campanha alentada poderá custar nestas eleições, segundo relatos dos próprios vereadores, até R$ 8 milhões. O salário atual de um parlamentar municipal é R$ 9.288,05 - a soma em quatro anos de mandato, incluindo o 13º, não chega a meio milhão de reais.

O objetivo eleitoral de gastos alentados como esse é conseguir ao menos 40 mil votos nominais, que somados aos votos de legenda são suficientes para uma vitória. Ou seja, ao final da campanha, o candidato a vereador terá desembolsado cerca de de R$ 200 por voto conquistado.

Os custos de uma campanha parlamentar em São Paulo, porém, dependem muito do perfil do candidato. Se ele dispuser de outros "benefícios" listados nas páginas deste caderno, como presença forte numa área específica e bons padrinhos políticos, o valor final a ser gasto se reduz.

Os mais de mil postulantes que registraram suas candidaturas neste ano informaram oficialmente à Justiça Eleitoral que pretendem gastar, em média, R$ 2,7 milhões na campanha. Os valores mudam de acordo com a sigla. No PCO, a previsão é de R$ 50 mil por candidato. Já os postulantes do PSD, PSDB, PRB, PT do B e PTN, por exemplo, já entram na casa do milhão.

Em 2008, a campanha mais cara custou R$ 1,7 milhão declarados. Esse foi o valor informado à Justiça pelo vereador Antonio Carlos Rodrigues (PR), que gastou R$ 40 por voto. Naquele ano, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral, cada postulante ao Legislativo paulistano desembolsou, em média, R$ 12,15 por voto conquistado.

Para onde vai o dinheiro. A maior parte dos gastos de um candidato em São Paulo é com pessoal. É preciso formar uma equipe de assessores, manter boa relação com líderes comunitários que influenciam o voto em determinadas regiões da cidade e contratar cabos eleitorais. Vereadores com experiência em eleição estimam que, de cada R$ 100, pelo menos R$ 65 são destinados para pagar salários de colaboradores de campanha.

Quando a disputa começa, há uma corrida nos bastidores para ver quem consegue levar para o seu comitê os líderes comunitários que possuem uma rede de eleitores que segue sua indicação na urna. Muitas desses líderes são profissionais, que acabam trabalhando para o candidato que apresentar o maior orçamento. A corrida começa já no início do ano da campanha. O preço cobrado pelos líderes comunitários guarda relação direta com a oferta de votos. Nesse item, os candidatos à reeleição largam na frente. No decorrer dos mandatos, muitos amarram esses líderes comunitários a seus projetos políticos ao contratá-las como assessores de gabinetes. Os que já estão contratados por vereadores podem ter salários, pagos pelo poder público, de mais de R$ 10 mil.

Há também ofertas de "serviços especiais". Um candidato a vereador conta que, num bairro da zona sul, o proprietário de um posto de gasolina chegou a pedir até três parcelas de R$ 15 mil para ajudar a angariar votos - leia-se distribuir gasolina de graça ou com desconto em nome do candidato.

Dono de pequenos bares, por exemplo, também entram na campanha. Pedem cerca de R$ 1 mil para distribuir santinhos.

Para bancar toda essa estrutura, os candidatos acabam passando o chapéu entre os mesmos doadores: geralmente empresas com interesse em contratos com a administração e empreiteiras. As empresas doam, conta outro vereador, porque querem "interlocução" com o dono do mandato. Ele lembra que a preferência é dar o dinheiro para o partido, a quem cabe fazer a divisão.

A tendência hoje "é dar por dentro", ou seja, doar legalmente, com registro na Justiça Eleitoral. O motivo para evitar o chamado caixa 2 está nos escândalos recentes envolvendo doadores de campanha. O clima amedrontou as empresas. "Quem dá as regras é quem vai doar. O candidato quer mais é receber o dinheiro e acaba recebendo da maneira que o financiador quiser. O movimento de legalização vem das empresas", diz um candidato a vereador que concorre à reeleição.

Um importante ator nas eleições municipais é o deputado, seja ele estadual ou federal. Esses parlamentares costumam ajudar candidatos à Câmara Municipal para, dois anos depois, quando disputarem a eleição, contarem com a teia de colaboradores montada pelos vereadores na disputa anterior. Assim, costumam procurar seus doadores para pedirem ajuda a seus candidatos.

Nestas eleições, os vereadores têm reclamado da dificuldade de angariar fundos, principalmente pelo fato de não poderem contar com o dinheiro da Associação Imobiliária Brasileira (AIB), que na disputa anterior registrou a doação de R$ 6,1 milhões. Entidades de classe, porém, não podem fazer doações. Diante dos questionamentos sobre a ação irregular, a representante das construtoras e incorporadoras da cidade, uma das principais financiadoras das candidaturas parlamentares de 2008, decidiu não doar mais. Sem a ajuda, há queme esteja recorrendo até a jornal de bairro para engordar o caixa.

Vantagens. Os vereadores que tentam a reeleição dão a largada com outras vantagens em relação aos novatos. Os parlamentares costumam ter um trabalho de "atendimento" dos eleitores em seus escritórios políticos, trabalho esse que sempre acaba se revertendo em mais votos.

O custo da campanha declarado ao Tribunal Superior Eleitoral não inclui esse tipo de gastos, que vai de assessoria jurídica a eleitores, em questões como seguro-desemprego e aposentadoria, ao salário pago a líderes comunitários empregados nos gabinetes. As despesas com essa rede de atendimento não é computada. Se o candidato dispuser de toda essa estrutura, além de bons padrinhos políticos e "pedaços" da cidade para atuar, o cálculo é que o gasto mínimo seja de R$ 1,5 milhão.

Eles não escolhem partido político. Podem ser filiados ou não. A cada dois anos, aproveitam a campanha para ganhar um dinheiro extra como cabos eleitorais. Líderes comunitários mantêm vínculos com vereadores e os ajudam a fazer propaganda nas comunidades da periferia. Pelo trabalho, cobram valores que chegam a cerca de R$ 200 mil mensais para espalhar divulgadores com bandeiras e panfletos, carros e guardadores de placas nos bairros. E esperam ganhar vagas de assessores parlamentares, caso o candidato seja eleito.

Conhecido como Chico Loco na Associação de Moradores do Jardim Paraná, na Serra da Cantareira, zona norte, o despachante Geraldo Barreto, 40 anos, prepara planilha de custos para oferecer seus serviços. Cobra de R$ 3 mil a R$ 5 mil só para coordenar equipes - média de 15 por zona eleitoral - comprometidas em trazer uma média de mil votos cada. As equipes têm seis pessoas - cada uma recebe R$ 800 - e um líder de R$ 1,5 mil. Custos que podem ser declarados à Justiça Eleitoral se candidato quiser, diz o despachante.

"Todo vereador vai atrás de liderança, porque senão ele não entra na comunidade", diz Chico Loco. "Contrato aquelas mulheres que fazem bandeirada. Se não é uma pessoa como eu, que não tem medo de entrar na comunidade e conversar, não teria isso na rua hoje." Filiou-se ao PSC por influência do ex-vereador e ex-deputado Hanna Garib - acusado de envolvimento com a Máfia dos Fiscais, em 1998. Barreto planeja campanhas de rua e vende os pacotes que incluem até nove zonas eleitorais da região norte da capital paulista, de Santana ao Jaraguá.

Chico Loco trabalhou em eleições passadas para o vereador Juscelino Gadelha (PSB) e diz ter ajudado Nelo Rodolfo (PMDB) e Noemi Nonato (PSB) - de quem recebeu uma homenagem na Câmara no ano passado - o diploma de "Mérito Comunitário". Só trabalha por recomendação: "Liderança tem de ser de confiança", afirma.

"Aqui tem 3 mil votos garantidos", sustenta Valdivino Ferreira Souza, o Piriquito, presidente da Associação de Moradores da Chácara Santana, na zona sul. Há 12 anos Piriquito é cabo eleitoral do vereador Antonio Carlos Rodrigues (PR). Antes trabalhou nas campanhas municipais de um dos rivais de "Carlinhos" na região, o vereador Milton Leite (DEM).

Ele é dos que não têm coloração partidária: nas campanhas para deputado, trabalhou para petistas como Carlos Neder, Vicente Cândido e Rui Falcão. Também fez campanha para a tucana Delegada Rose e para o ex-governador peemedebista Orestes Quércia, morto em 2010.

Piriquito não revela quanto ganha. "O que preciso do político é de um ônibus, uma cesta básica e de tinta para pintar a associação. E de alguém que corra atrás dos prefeitos e secretários para implantar programas aqui pra gente".

No Jardim Colombo, zona sul, Ivanildo de Oliveira teme a reação do PT . É que em 2008 o presidente da associação de moradores local fez campanha para os candidatos do partido, mas agora fechou com o prefeito Gilberto Kassab (PSD) e faz campanha para José Serra (PSDB) e para a candidata a vereadora Rosa Richter (PSD), candidata à vereadora que tenta pela primeira vez uma vaga na Câmara.

O candidato que contratou seus serviços, desta vez, além de pagar também precisou assinar um termo de compromisso com a associação de moradores. Oliveira exigiu comprometimento com um projeto comunitário, que envolve a instalação de uma padaria no Jardim Colombo. Quer que, no futuro, a padaria aceite uma moeda própria, que circulará localmente.

"Poderia fazer um acordão e vender a comunidade, mas nenhum candidato entra aqui sem um compromisso por escrito com os moradores", garante Oliveira.

Em 2008, na última eleição municipal, São Paulo ficou em 12º lugar no ranking das campanhas mais caras para vereador nas capitais. Os candidatos à Câmara paulistana, eleitos e não eleitos, gastaram em média R$ 12,50 por voto válido recebido.

O valor foi calculado pelo Estado com base nas prestações de contas de todos os candidatos a vereador em 26 capitais, somadas às despesas declaradas pelos comitês partidários de campanha para as Câmaras Municipais.

Em capitais de pequeno e médio porte, o custo por voto é maior, como revela o quadro ao lado. Em primeiro lugar no ranking ficou Palmas (TO). / DANIEL BRAMATTI

Maiores

capitais

não estão

entre as

que têm campanhas mais caras, segundo

o ranking

de gastos de 2008

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