Cachoeira tem de depor hoje na CPI, e PT fecha blindagem da Delta nacional

O contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, terá de depor hoje na CPI criada para investigar as relações dele com políticos. O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, rejeitou pedido para que o depoimento fosse adiado mais uma vez. Na mesma noite, uma reunião na casa do deputado Maurício Quintela (PR-AL), articulada pelo PT da Câmara, foi acertada com a finalidade de os aliados fecharem acordo para que as investigações não atinjam nacionalmente a Delta Construções, principal empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

EUGÊNIA LOPES / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2012 | 03h06

A CPI deveria ter ouvido Cachoeira na terça-feira da semana passada. Na véspera, porém, Celso de Mello autorizou o contraventor a não comparecer. Para convencer os ministros, os advogados argumentaram que não conheciam a integralidade das provas existentes contra ele.

Agora, Celso de Mello disse que a CPI garantiu o direito à defesa de consultar a investigação. Segundo o ministro, apesar disso, a comissão informou que não houve interesse dos advogados em consultar os dados.

"É de assinalar, por relevante, que se propiciou, aos ora impetrantes, mesmo neste fim de semana, amplo acesso a todos os elementos e documentos probatórios existentes em poder de mencionado órgão de investigação parlamentar, não havendo notícia, contudo, de que tenham eles se utilizado de tal faculdade", afirmou. Além disso, o ministro observou que a defesa pôde consultar as provas existentes em ação penal aberta pela Justiça Federal em Goiânia.

Apesar de ter rejeitado o segundo adiamento, o ministro ressaltou na decisão que, pela jurisprudência do STF, ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. Ou seja, Cachoeira poderá optar pelo silêncio.

Reunião. Por sua vez, integrantes da base governista temem que ampliar a apuração além da regional Centro-Oeste da Delta possa revelar relações próximas de outros políticos com a empresa. Na semana passada, a CPI já havia evitado a convocação do empresário Fernando Cavendish, dono da Delta, e restringido as investigações à regional Centro-Oeste. Cavendish é amigo do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PMDB). Na mesma linha, os parlamentares já tinham dado sinais de que poupariam os governadores citados em investigações da PF nas operações Monte Carlo e Vegas - que mostraram os laços de Cachoeira com políticos.

A gestão da Delta foi passada à J&F Participações, holding proprietária do frigorífico JBS, do qual o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) detém 31% do capital.

Na semana passada, governistas foram surpreendidos pelo PMDB, que se recusou a apoiar o PT. Os petistas tentaram aprovar a convocação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e investigar o jornalista Policarpo Júnior, da revista Veja, mas não tiveram apoio de peemedebistas. "Prefiro que a relação entre nós fique azeda e manter a minha posição. Não tem acordo para atingir o Policarpo e convocar o procurador", afirmou o deputado Luiz Pitiman (PMDB-GO), que foi convidado para o jantar na casa de Quintela.

Os governistas estão dispostos a "dar a cabeça" de governadores envolvidos com o esquema ilegal de Cachoeira. Por ora, alegam que só o tucano de Goiás, Marconi Perillo, tem envolvimento direto com o contraventor. Mas se as investigações atingirem governadores da base, como o petista Agnelo Queiroz (DF), o governo não terá pena de rifá-lo. O mesmo serve para os deputados sob suspeita.

Preocupados com as notícias de blindagem, os petistas se apressaram em garantir que o jantar era só "uma reunião normal da base". "É apenas uma busca de um entendimento maior entre as pessoas da base", afirmou o ex-líder Cândido Vaccarezza (PT-SP), um dos mentores do encontro.

Na semana passada, Vaccarezza foi flagrado trocando mensagens com Sérgio Cabral. A assessoria do deputado Odair Cunha (PT-MG), relator da CPI, informou que ele não tinha conhecimento do jantar e, portanto, não participaria do encontro.

Diante da estratégia dos governistas, a oposição e a "ala independente" dos parlamentares resolveram reagir. Ontem mesmo também pretendiam promover um encontro para traçar uma tática a fim de evitar a blindagem da Delta. "Ficou claro na última reunião da CPI que o problema é a Delta", observou o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ).

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