Cachoeira ofereceu, em 2004, R$ 100 mil a petista Governo apressa 'triagem' de indicados

O empresário de jogos de azar Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, continua a assustar o PT. Nos últimos dias começaram a circular dois vídeos em que ele aparece oferecendo R$ 100 mil para o deputado Rubens Otoni (PT-GO). Os vídeos foram divulgados na página da revista Veja na internet. Neles, Otoni é orientado a não declarar o recebimento do dinheiro.

BRASÍLIA, RICARDO BRITO / BRASÍLIA , BRASÍLIA, RICARDO BRITO / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

10 de março de 2012 | 03h03

Cachoeira foi preso no início do mês durante a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, depois de uma investigação sobre a exploração de máquinas caça-níqueis. Conforme a investigação, Cachoeira mantinha contato com políticos goianos e tinha a seu serviço policiais militares e civis, além de um policial rodoviário federal.

Em 2004, a divulgação de um vídeo em que Cachoeira aparecia negociando propinas com o petista Valdomiro Diniz, então assessor do ministro José Dirceu, arrasou com a festa de 24 anos do PT, comemorada na mesma semana em que o escândalo foi revelado. No início deste mês, Valdomiro foi condenado a 12 anos de prisão pela Justiça do Rio, por envolvimento em irregularidades quando presidia a Loterj.

Otoni disse que a conversa com Cachoeira ocorreu em 2004. Na época, ele era candidato a prefeito de Anápolis (GO). Disse que fora procurado por políticos e empresários para ajudar Cachoeira a reerguer uma empresa de produtos farmacêuticos, a Vitapan. Disse ainda que não ajudou Cachoeira, tornou-se seu desafeto e desde então é chantageado com a possibilidade de divulgação do vídeo.

Os contatos com Cachoeira têm feito mal aos políticos goianos. Na operação da PF, descobriu-se que ele e o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) trocaram quase 300 telefonemas. Em discurso no Senado, nesta semana, Demóstenes reconheceu que ganhou uma cozinha de cerca de R$ 30 mil de Cachoeira, mas disse que não tem negócios com ele.

O governo Dilma Rousseff intensificou nos últimos 15 dias os pedidos de consultas aos servidores da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para que chequem os currículos de indicados por partidos da base aliada para cargos do segundo escalão.

A decisão do Executivo é um movimento para aplacar a voracidade dos aliados por cargos. No período, foram remetidos para o pente-fino da Abin 120 candidatos - comumente são analisados entre 15 e 30 nomes em um mês.

A triagem feita pela agência é uma precondição estabelecida pelo governo para que sejam liberadas as nomeações.

Os agentes fazem um raio X dos indicados, apurando se eles têm, por exemplo, condenações ou dívidas. O repasse de informações é meramente informativo, cabendo ao governo a decisão de vetar os candidatos com base nos dados fornecidos pela Abin.

Folha corrida. Apenas os pretendentes para os cargos de confiança acima do DAS-4 são alvo da varredura dos arapongas. Não poucas vezes a "peneirada" falha e a folha corrida do indicado vem à tona depois da posse.

A tentativa de liberação dessas indicações, feitas ao longo dos últimos meses pelos partidos da base aliada, está no seio da revolta que culminou, na quarta-feira no Senado, na derrubada da recondução de Bernardo Figueiredo para ficar mais quatro anos à frente da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).

Aprovação. Os servidores da Abin vasculharam nomes para cargos em agências reguladoras e em ministérios. Houve um "aprovado" (ou seja, sem restrições) pelos arapongas para ser indicado pelo governo para a Agência Nacional do Petróleo.

No final da semana passada, Alexandre Cordeiro Macedo teve seu nome avalizado pela Abin para ser o número dois do Ministério das Cidades. A nomeação de Macedo, um fiscal da Controladoria-Geral da União (CGU), foi publicada no Diário Oficial da União na quinta-feira.

Para o líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (BA), essas indicações estavam represadas porque, desde junho, quando Antonio Palocci deixou a Casa Civil diante de suspeitas de tráfico de influência e enriquecimento ilícito, o governo Dilma teve de lidar com sucessivas trocas de integrantes de ministros.

"A gente estava sempre discutindo o primeiro escalão. Como iríamos mudar o segundo?", questionou Pinheiro.

Ele disse que indicados pelo próprio PT e por todos os outros partidos da base aliada estão sob análise do governo.

Origem do problema. Segundo o petista, ao menos no Senado os problemas políticos do governo não estão ligados às tradicionais nomeações de cargos e liberação de emendas parlamentares.

"Não ouvi ninguém reclamando disso por aqui", afirmou Pinheiro. A seu juízo, a maior dificuldade está na interlocução do governo com os senadores.

"Espero que agora as coisas andem a contento, para não termos problemas mais sérios pela frente", disse o senador petista.

O ritmo de triagem da Abin adotado nas duas últimas semanas, segundo um servidor da agência, tem sido semelhante ao que foi constatado nos três primeiros meses do mandato da presidente Dilma Rousseff. Os funcionários da Abin, disse essa fonte, têm até se queixado de sobrecarga de trabalho.

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