'Cabresto digital' derruba político

Prefeito do interior é cassado após comitê comprar voto e mandar eleitor pegar o dinheiro via torpedo

CHICO SIQUEIRA, ESPECIAL PARA O ESTADO ,

04 de agosto de 2013 | 02h10

BIRIGUI - Antes os coronéis da política rasgavam cédula de dinheiro ao meio e entregavam metade antes de o eleitor votar e outra depois da vitória nas urnas.

Agora, o "cabresto" é digital, a contar pelas acusações que recaem sobre o prefeito de Birigui, Pedro Bernabé (PDT), e seu vice, Carlito Vendrame (PSD), ambos cassados pelo Tribunal Regional Eleitoral paulista por compra de votos.

O teor da sentença revela como funcionou o esquema. Os votos foram pagos em duas parcelas: uma de R$ 50, antes das eleições; outra, de R$ 70, depois da vitória de Bernabé. Os eleitores que toparam participar do esquema eram orientados sobre o local do recebimento da segunda parcela por meio de mensagens SMS.

A central de pagamentos era uma fábrica de móveis do então prefeito Wilson Borini (sem partido), que apoiou Bernabé e colocou dois filhos e um sobrinho para trabalhar de coordenadores na campanha do aliado.

Numa reunião na fábrica, vereadores receberam a incumbência de comprar, cada um, 20 votos para eleger Bernabé e tentar reverter as pesquisas que indicavam vitória do segundo colocado, Roque Barbiere (PTB). Bernabé venceu as eleições com 30.985 votos (50,42%) ou 5.313 votos à frente de Barbiere.

Uma das eleitoras que vendeu o voto e teve mensagem de seu celular captada pelos investigadores do caso foi Antônia Cristina Romeira, que trabalhou na campanha e aliciou outras sete amigas para fazer o mesmo. Segundo Antônia, ela atendeu ao pedido de uma candidata a vereadora, que lhe telefonou pedindo que arrumasse votos para ela e Bernabé. Ela e as amigas receberam no mesmo esquema: R$ 50 na véspera da eleição e R$ 70 depois da vitória de Barnabé.

Na terça-feira pós-eleição, a fábrica ficou tão cheia de eleitores que foram lá receber os R$ 70 que o pessoal da campanha enviou torpedos dando orientações sobre outros locais para o recebimento do dinheiro. Antônia e amigas receberam os R$ 70 na casa de outra amiga, Aline.

Outra aliciada foi Sônia da Silva, que teve o celular apreendido. Ela contou que um grupo de amigas foi assediado por cabos eleitorais na frente da escola em que votariam e aceitaram a proposta de venda de voto. "Na terça-feira fui lá receber os R$ 70 que eles tinham prometido. Eles me pagaram, mas depois minhas amigas disseram que isso era errado, que era proibido fazer. Fui à delegacia denunciar e o delegado apreendeu meu telefone."

As provas digitais foram reforçadas por depoimentos. Um dos coordenadores de campanha confessou o esquema, afirmando que Bernabé não só sabia da compra de votos, como também participou de uma das reuniões realizadas com os vereadores para organizar o esquema de aliciamento de eleitores.

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