Fabio Motta/AE - 27.06.2013
Fabio Motta/AE - 27.06.2013

Cabral: o parceiro agora é persona non grata

Derrocada do peemedebista faz Planalto reavaliar ligação com governador do Rio, o mais mal avaliado do País

Leonencio Nossa, enviado especial, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2013 | 02h02

Rio - Visto como principal parceiro do Planalto na realização dos grandes eventos - a Copa do Mundo e a Olimpíada -, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), tornou-se rapidamente um aliado incômodo do governo. A continuidade dos protestos de rua no Rio e a divulgação de episódios pessoais desabonadores derrubaram sua popularidade e levaram a presidente Dilma Rousseff a discutir com auxiliares uma forma de, sem constrangimentos, distanciar-se do peemedebista.

Mas a estratégia exige cuidados. Como lembra um auxiliar direto da presidente, o Planalto não pode escancarar esse isolamento de Cabral - afinal, os dois estarão lado a lado, como dita a agenda oficial, em muitas cerimônias relativas à organização dos dois grandes eventos esportivos. No mês passado, no Rio, a presidente disse a Cabral, em discurso: "Estamos juntos". Se o distanciamento vier de forma brusca e rápida, há um alto risco de o efeito político, para Dilma, ser exatamente o oposto.

Alguns auxiliares e ministros próximos da presidente não veem razão para prosseguir com os encontros marcados por gentilezas e afetos. O governador, admitem, entra nos dois anos finais de mandato em uma situação "dramática". A pesquisa CNI/Ibope da semana passada, ao mostrar que só 12% dos entrevistados avaliam Cabral como ótimo ou bom, indicou também que é justamente no Rio que Dilma tem a sua pior avaliação no País - 19% de aprovação.

Em conversas mantidas antes da pesquisa, a presidente definiu o discurso com seus ministros - a ideia era não se pronunciar sobre a repressão policial aos protestos do Rio. O Planalto avaliou que essa era a melhor forma de não "pular do barco" pilotado por Cabral e, ao mesmo tempo, de evidenciar que a violência nas ruas, criticada por muitos, era problema estadual.

Um ministro próximo de Dilma chegou a avaliar, em um encontro com ela, que a má condução de Cabral na crise - com o uso abusivo da polícia - ao menos diminuiria a pressão do governador de tentar ser o vice na chapa do PT na eleição presidencial do próximo ano.

Outro cuidado, nas tarefas diárias do Planalto, era evitar um racha com Cabral após a decisão do diretório do PT fluminense de lançar candidato à sucessão estadual - o senador Lindbergh Farias. Há tempos Cabral havia acertado com o Planalto o apoio, em 2014, ao seu vice, Luiz Fernando Pezão (PMDB).

Apoio em baixa. O apoio à aliança com o governador não tinha sido abalado, na avaliação do Planalto, pelos episódios que o aproximavam do empresário Fernando Cavendish, então dono da Delta Construções, que mantinha contratos com o governo do Estado. Cabral e Cavendish foram fotografados em cenas deselegantes, com guardanapos na cabeça, em um restaurante em Paris, e viajaram juntos com suas famílias para Porto Seguro.

Essa avaliação começou a mudar no mês passado, com a violência na rua, os protestos diante de sua casa e as denúncias de que usava um luxuoso helicóptero oficial para viagens de fim de semana. Numa coletiva para se explicar sobre a compra do aparelho - parte da "agenda positiva" do Planalto - o governador não gostou das perguntas e foi embora, deixando sozinhos os ministros Miriam Belchior (Planejamento) e Aguinaldo Ribeiro (Cidades).

O constrangimento foi relatado a Dilma, que no momento prepara um evento para formalizar a anunciada ajuda de R$ 50 bilhões para Estados e municípios. O lugar de Cabral no evento está garantido - mas numa cadeira afastada do palco.

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