'Cabral é traidor e jararaca venenosa', afirma Garotinho

Líder do PR vê na rixa entre PT e PMDB no Rio a chance para se recompor com o Planalto e facilitar seu futuro político no Estado

LUCIANA NUNES LEAL / RIO, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2013 | 02h09

Depois de muitos desentendimentos com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de uma relação distante com a presidente Dilma Rousseff, o ex-governador do Rio Anthony Garotinho, líder do PR na Câmara, ensaia uma aproximação com o governo.

A iniciativa ocorre quando a aliança entre o PT e o PMDB do Rio vive seu pior momento. Provável candidato à sucessão do governador Sérgio Cabral (PMDB) - seu ex-aliado e hoje adversário -, Garotinho teve papel importante na defesa do governo durante a votação da MP dos Portos. Agora, diante da ameaça de Cabral de retirar o apoio à reeleição de Dilma caso o PT lance uma candidatura própria ao governo do Rio, o deputado se solidariza com a presidente.

"O que vai me aproximar da Dilma é o fato de que o Cabral já está armando o bote contra ela. Ele é como uma cobra jararaca, venenosa e traidora, que pega a pessoa de surpresa", diz Garotinho, em um típico exercício de ironia para atacar os adversários - prática que aprimorou na longa convivência com o ex-governador Leonel Brizola (falecido em 2004), nos tempos de PDT. "Dilma já percebeu que a candidatura do Lindbergh Farias (possível candidato do PT ao governo) é a desculpa do Cabral para traí-la", diz o deputado. Procurado pelo Estado, Cabral nada quis comentar.

Um inimigo comum une Garotinho e o governo federal: o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ). Foi com esse estilo "direto ao ponto" que Garotinho acusou Cunha, outro antigo aliado e hoje rival, de se associar, com outros parlamentares, ao lobby de empresários do setor portuário para tentar alterar pontos defendidos pelo governo na MP dos Portos.

A denúncia sem provas custou a Garotinho uma representação do DEM, do PSDB e da Mobilização Democrática, também assinada por Eduardo Cunha, na Corregedoria da Câmara. O peemedebista e os partidos acusam Garotinho de quebra de decoro parlamentar, alegando que ele teria mentido no exercício do mandato.

Garotinho promete revelar novos dados sobre a suposta "negociata", se o processo for adiante. "Vão jogar pesado contra mim. Mas as pessoas ficaram sabendo pelo menos uma parte do que estava acontecendo", diz Garotinho.

Irreverente. Deputado mais votado do Rio de Janeiro e segundo do País, com quase 700 mil votos, Garotinho, ex-radialista e bom comunicador, levou a provocação e a irreverência para o dia a dia da Câmara. Na discussão da MP dos Portos, apelidou uma emenda aglutinativa apresentada por Cunha de "emenda Tio Patinhas" e passou a chamar o projeto de "MP dos Porcos". "Isso sai na hora", diz o deputado sobre o jogo de palavras. "Não preparo antes porque não dá certo".

Em 2012, Garotinho apelidou Cabral e um grupo de aliados de "gangue do guardanapo", depois de publicar em seu blog uma série de imagens do governador em Paris - especificamente durante uma festa em que alguns participantes dançavam com guardanapos na cabeça. Na semana passada, Garotinho usou o programa eleitoral do PR para voltar ao assunto. "Guardanapo na cabeça nunca mais", provocou.

Mas foi em 2000, como governador, que Garotinho cunhou o apelido mais implacável. A "vítima" foi o PT, seu aliado à época. Os petistas pressionavam por mais cargos em sua gestão e Garotinho reagiu: "Devia se chamar PB, o Partido da Boquinha".

Garotinho diz que é cedo para falar das eleições de 2014, e alega que não assumiu compromisso de apoio a Dilma e que nem a presidente está comprometida com seu palanque no Rio. Na Câmara, no entanto, tem sido pró-governo desde que o PR voltou à base governista, ao ganhar de volta o Ministério dos Transportes.

Resistências. O líder do PR enfrenta resistências de um grupo de pelo menos oito dos 35 deputados de seu partido. Na votação da MP dos Portos, cobrou que eles votassem com o governo, sem sucesso. "Eu disse aos deputados que queriam se rebelar: 'O PR voltou ao governo. Na primeira bola dividida vocês vão votar contra? O que o governo vai pensar?' É uma questão de interesse do País", conta ele.

Nos últimos dias, Garotinho tem se dedicado a negar boatos de que desistiria da disputa à sucessão de Cabral e que daria o lugar à sua mulher, ex-governadora e prefeita de Campos, Rosinha Garotinho. "Chance zero de isso acontecer", garante.

Acusados de crime eleitoral na eleição de 2008, Rosinha e Garotinho foram condenados e tornados inelegíveis pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ), mas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entendeu que o processo deveria voltar à primeira instância, em Campos. Com isso, o ex-governador pôde tomar posse como deputado e Rosinha assumiu o segundo mandato no governo do município do norte fluminense.

Pesquisas encomendadas pelo PR mostram que a rejeição a Garotinho é grande na capital, que reúne quase metade do eleitorado, e que o interior é sua base mais forte.

Nas eleições municipais da capital, em 2012, Garotinho fez uma surpreendente aliança com o ex-prefeito Cesar Maia, do DEM. Eles lançaram seus filhos: Rodrigo Maia candidato a prefeito e Clarissa Garotinho, vice. Não deu certo. A dupla não chegou a 3% dos votos numa eleição na qual o prefeito Eduardo Paes (PMDB), aliado de Cabral, foi reeleito no primeiro turno.

Em 2014, Garotinho deverá enfrentar, entre outros, o vice-governador Luiz Fernando Pezão. É mais um nome na longa lista de amizades desfeitas do governador. Garotinho diz que, assim como Cabral, Pezão também o traiu. O vice-governador foge o quanto pode do tema eleições. "Tenho muito trabalho para fazer, muita obra para entregar."

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