Cabral aposta na área social contra crise

Governador tenta manter de pé projeto de eleger vice investindo mais em programas para a população mais carente do Rio de Janeiro

WILSON TOSTA / RIO , O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2013 | 02h07

Acossado por manifestações em sua residência, no Leblon, e no Palácio Guanabara, sede do Executivo, em Laranjeiras, o governador Sérgio Cabral tenta romper o acuamento político e até físico apostando no apoio da população mais pobre do Estado. O plano é manter em pé o projeto de eleger seu vice, o também peemedebista Luiz Fernando Pezão, como seu sucessor em 2014.

Cabral tem usado boa parte de sua agenda para anunciar programas sociais em cidades do interior do Estado ao lado de Pezão.

Diferentemente de outros mandatários, Cabral não conseguiu retomar a rotina após o auge do movimento em junho. Mudou a agenda, restringiu contatos com a imprensa e até anunciou que não usaria mais helicóptero para ir trabalhar.

Não adiantou. Na semana passada, pela sexta vez, um ato pediu o seu impeachment, na rua Aristides Espínola, onde reside. A demonstração degenerou em depredação na zona sul carioca.

Tentando romper a impressão de acuamento, o governador, na semana passada, primeiro tentou responsabilizar adversários - os alvos são o ex-governador e deputado federal Anthony Garotinho (PR) e o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL).

Internacional. O Twitter da Polícia Militar, durante o tumulto da noite de quarta e madrugada de quinta, chegou a atacar Freixo que, como Garotinho, repudiou a acusação. Na sexta-feira, Cabral mudou de foco: responsabilizou ativistas estrangeiros, articulados via web, pelas depredações na capital fluminense.

"A gente sabe que há organizações internacionais estimulando o vandalismo", afirmou, com expressão abatida, após dois dias sem aparecer em público.

O sinal de alerta no grupo de Cabral, que comanda a política do Rio desde sua vitória em 2007, acendeu em 1.º de julho, quando o instituto Datafolha revelou que o governador atingiu em 27 e 28 de junho seu mais baixo patamar de aprovação, 25% de bom e ótimo. Foi uma queda de 30 pontos em relação ao pico de popularidade, em novembro de 2010, quando atingiu 55%.

Polícia. Para o cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, diretor do Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj), a queda foi diretamente causada pela ação da PM, que atacou algumas das manifestações de junho com violência. Em uma delas, marcada por violento confronto em frente ao Centro Administrativo São Sebastião, na Cidade Nova, PMs atacaram com bombas de gás o Hospital Sousa Aguiar, o Circo Voador e até bares da Lapa.

"Aqui a repressão policial foi muito mais forte e as manifestações foram maiores", afirma Monteiro. "Quanto maior é a repressão, maior é a indignação e maior é o desejo de revanche", completa o cientista político.

De acordo com ele, as consequências políticas e sociais da ação policial foram ampliadas porque ela ocorreu em áreas "nobres" cariocas, onde moram as classes média e alta. "Quando se faz essa repressão no Flamengo, em Laranjeiras, no Leblon, isso repercute enormemente porque ali moram jornalistas, professores universitários, profissionais liberais. Politicamente, foi um desastre." Ele cita também a remoção da Aldeia Maracanã e a denúncia de uso, pelo governador, de um helicóptero do Estado para viagens privadas, como fatores que ajudaram no desgaste.

O pesquisador diz achar difícil que o governador recupere os níveis anteriores de popularidade. "O grande trunfo que ele tinha e tem ainda são as Unidades de Polícia Pacificadora. Só que as UPPs de certa maneira esgotaram o seu potencial junto à opinião pública. Se fizerem mais cinco ou dez UPPs, não vai ter o mesmo impacto que teve. Vai ser mais do mesmo", explica. Para ele, a visita do papa Francisco e a Copa do Mundo de 2014 farão a tensão continuar. "Certamente, Cabral vai continuar a ser acossado pelos movimentos sociais", afirma. Ainda segundo Monteiro, o vice Pezão também será atingido. "Para o Pezão, vai ser bem mais difícil."

'Tranquilo'. O presidente regional do PMDB, Jorge Picciani, reconhece dificuldades, mas afirma ver possibilidade de recuperação. Ele nega que o governador esteja acuado. "Cabral está tranquilo. O que ele tem pedido é serenidade. E confiança. Porque sabemos o que estamos fazendo."

Uma das fontes de esperança dos peemedebistas é a inauguração, no fim de 2013, do Arco Metropolitano, que liga a Baixada e estradas federais ao Porto de Sepetiba e ao Comperj, em Itaboraí, e terá grande impacto na periferia. Ele afirma que os protestos nascem na oposição a Cabral.

"Evidente, isso é comandado pelo que há de pior na polícia. Ex-policiais expulsos, ex-chefes de polícia", diz o presidente do PMDB estadual. "Mas não há enfraquecimento, nenhum acuamento do governador", afirma.

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