Brigas e divórcio na Bahia são laboratório da disputa entre Lula e Bolsonaro

Montagem de palanques para a eleição ao Palácio de Ondina racha o PT e o Centrão

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2022 | 14h36

Caro leitor,

A disputa pelo governo da Bahia se transformou em laboratório do que pode ocorrer no cenário nacional, com um jogo de traições entre partidos do Centrão, além de  divórcios na seara do PT. O vice-governador da Bahia, João Leão (Progressistas), está mesmo disposto a romper com o PT de Luiz Inácio Lula da Silva e se aliar ao ex-prefeito de Salvador ACM Neto, candidato ao Palácio de Ondina pelo União Brasil e favorito nas pesquisas.

Apesar dos apelos do senador Jaques Wagner (PT-BA), que chegou a pedir desculpas a Leão por ter anunciado uma composição na Bahia sem levar em conta o desejo do antigo aliado de ficar os últimos nove meses do ano à frente do governo,  não houve acordo. “Leãozinho,  me desculpe. Estou aqui para conversar”, disse Wagner.

Foram várias as negociações a portas fechadas, no Planalto e no Congresso, mas não houve sinal de fumaça para o PT de Lula. Pela estratégia definida no gabinete do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira – coordenador da campanha do presidente Jair Bolsonaro à reeleição –, Leão deve ser candidato ao Senado pelo  Progressistas, na chapa de ACM Neto. Tanto o vice-governador quanto Neto estavam nesta quarta-feira, 9, em Brasília.

Lula e o governador da Bahia, Rui Costa (PT), ainda vão conversar mais uma vez com Leão, na tentativa de demovê-lo da ideia. No Planalto, porém, a separação é tratada como favas contadas. Se assim se confirmar, o partido de Ciro Nogueira e do presidente da Câmara, Arthur Lira (AL), ficará com Bolsonaro – e não com Lula – na Bahia. Trata-se do quarto maior colégio eleitoral do Brasil, só perdendo para São Paulo, Minas e Rio.  

O movimento não pára aí. Pré-candidato ao governo baiano, o ministro da Cidadania, João Roma, também está a um passo de se desfiliar do Republicanos, ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, para ingressar no PL, partido de Bolsonaro. A estratégia também foi discutida ontem em gabinetes do Planalto, na esteira de uma articulação política que prevê a construção de um palanque para o presidente da República enfrentar Lula na Bahia. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou das negociações.

Mesmo com importante ala do Centrão indo na sua direção, ACM Neto se recusa a dar apoio explícito a Bolsonaro, uma vez que Lula lidera todos os levantamentos de intenção de voto e tem seu melhor desempenho no Nordeste.

“Nós teremos um palanque aberto na Bahia porque contamos com o apoio de vários partidos”, desconversou o deputado Elmar Nascimento (BA), líder do União Brasil na Câmara e aliado de Neto.

Na outra ponta, o problema para João Roma e também para Bolsonaro é que o Republicanos  não pretende apoiar oficialmente nenhum candidato à Presidência. Até agora, tudo caminha para que o partido libere seus diretórios regionais na campanha e invista na eleição dos deputados federais. Não sem motivo: a divisão do dinheiro dos fundos partidário e de financiamento eleitoral leva em conta o tamanho das bancadas na Câmara.

Diante desse cenário, a alternativa para o impasse é a filiação de Roma ao PL, comandado por Valdemar Costa Neto. As tratativas já provocaram divergências entre aliados de Bolsonaro. A cúpula do Republicanos  se sente desprestigiada na Esplanada e avalia que sofre ataque especulativo, por parte do PL, sob orientação do presidente.

Como efeito colateral dessas idas e vindas, o presidente do PL na Bahia, José Carlos Araújo, não só renunciou ao cargo como entregou sua carta de desfiliação. Argumentou que o partido havia garantido a aliança com ACM Neto e descartou a possibilidade de trair o compromisso para apoiar Roma no PL e dar palanque a Bolsonaro.

Roma foi chefe de gabinete de ACM Neto na prefeitura de Salvador, entre 2013 e 2018. Elegeu-se deputado com o aval de Neto, mas se distanciou do padrinho político após ser nomeado ministro da Cidadania, há um ano.

No Palácio de Ondina, a ira de João Leão chegou às redes sociais, provocou impacto na chapa do PT e pode ter reflexos na campanha de Lula. O imbróglio ocorreu porque Jaques Wagner desistiu da candidatura ao governo e fez um arranjo pelo qual Rui Costa não sairá para concorrer ao Senado, como previsto, ficando no cargo até o fim da gestão. Com isso, o vice Leão – que já estava até mesmo convidando amigos para a posse – não assumirá a cadeira de governador, como gostaria.

A confusão teve início após Otto Alencar (PSD) se recusar a ser candidato ao governo da Bahia, com apoio do PT de Lula, quando Wagner desistiu do páreo. Otto é desafeto de Leão e vai disputar novo mandato no Senado. “Se eu fosse candidato a governador, havia risco de ganhar e eu não quero ser executivo”, ironizou o senador.

A equação para a montagem das alianças na Bahia ainda pode causar estragos ao PT, que planeja agora lançar o secretário estadual da Educação, Jerônimo Rodrigues, ao Palácio de Ondina. “Quando o Lula desembarcar na Bahia, acaba essa falsa novela. Quem ele apoiar, ganha”, resumiu Wagner. “É por isso que o ACM Neto quer que o Lula mande um beijinho para ele”.

Na prática, porém, os dois lados podem se beneficiar de uma política de “paz e amor” na Bahia, uma espécie de “pacto de cavalheiros” entre o carlismo e o lulismo. Em um passado não muito distante, interlocutores de ACM Neto enviaram recados a Lula de que o União Brasil tinha interesse em filiar o ex-governador Geraldo Alckmin, nome acertado para vice na chapa do PT. Nada foi adiante. Mas, como se vê, tudo se passa bem longe dos holofotes...

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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