'Brasil teve fé na democracia', diz Dilma

Na longa entrevista ao jornal espanhol em que falou sobre o mensalão, presidente também relembrou luta armada e disse querer um 'País de classes médias'

O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2012 | 02h04

Lutar contra a ditadura "valeu a pena, e muito" - e o processo de redemocratização "foi menos duro" porque os brasileiros tiveram "uma fé sem restrições no valor da democracia". Assim a presidente Dilma Rousseff recordou, em longa entrevista publicada anteontem pelo jornal El País, o seu envolvimento com a luta armada nos anos 1970. Na conversa ela falou também de projetos de governo, mensalão, liberdade de imprensa, crise europeia e seu futuro político. Sobre este, comentou: "Se vou ficar quatro ou oito anos só o povo brasileiro sabe".

Dilma esteve no fim de semana em Cádiz, na Espanha, participando de uma cúpula de países ibero-americanos - e a entrevista foi dada dias antes, no Brasil, ao próprio presidente do jornal espanhol, Juan Luís Cebrián.

Na conversa sobre luta armada - período que lhe custou três anos de prisão, nos anos 1970 - a presidente se dispôs a fazer um balanço didático e detalhado. "Necessariamente a gente evolui", começou, para acrescentar que em dezembro de 1968 "não andava na política nem na clandestinidade". Mas veio o Ato 5 e tudo mudou: "A partir de então qualquer um de minha geração que tivesse a mínima vontade democrática era violentamente perseguido. De modo que, do ponto de vista pessoal valeu sim a pena, e muito. Uma parte da juventude teve o gesto generoso de pensar que era sua obrigação lutar por seu país, até cometendo alguns erros".

A reavaliação histórica prosseguiu: "Talvez aqueles métodos não conduzissem a nada, não tivessem futuro e fossem uma visão equivocada sobre a saída da ditadura", mas eram vistos com "um sentimento de urgência. (...) Com o tempo comprovei o nosso excesso de ingenuidade e romantismo e nossa falta de compreensão da realidade. Minha passagem pela prisão me ajudou a entender que o regime militar não sobreviveria, porque não poderia prender, torturar e matar toda a juventude".

Veio o período "mais negro da ditadura", entre 1970 e 74, mas já lhe parecia evidente que "não haveria solução fora da democracia". "Talvez o que diferencia meu País de outros da América Latina é que nós tivemos uma fé sem restrições no valor da democracia. Isso fez com que o processo se tornasse menos duro."

Provocada, depois, a comentar as punições de petistas no processo do mensalão, ela se cercou de cautelas. "Como presidente, não posso me manifestar sobre as decisões do Supremo. Acato suas sentenças, não as discuto. O que não significa que ninguém neste mundo esteja acima de erros e das paixões humanas." Quando o entrevistador acrescentou "as humanas e as políticas", ela completou: "Talvez estas sejam as maiores".

Oito anos. Ao falar de seu governo, Dilma retomou o sonho de "fazer do Brasil um país de classes médias", em que tem de "enfrentar ao mesmo tempo a luta contra a pobreza e buscar padrões educacionais de primeiro mundo".

Isso seria tarefa para quanto tempo? "Não sei", reagiu a presidente. "Vou deixar uma boa contribuição. Lula ficou dois mandatos e me deixou um grande legado. Pretendo fazer o mesmo com quem me suceder. Se vão ser quatro ou oito anos, só o povo brasileiro sabe."

A presidente falou também de suas escolhas presidenciais e fez comparações entre Brasil e China. "Talvez a melhor coisa da China seja que ela sabe definir suas metas. Não acho que ninguém tenha que imitar a nenhum país, mas se pode aprender com suas boas práticas", avisou, para acrescentar: "Eu tenho um plano de meio prazo. Para saber onde quero chegar tenho de iluminar o presente, definir minha taxa de investimento se quero dobrar a renda per capita do Brasil e em quanto tempo. Talvez possamos fazê-lo em 12 ou 15 anos, mediante uma política adequada de investimentos públicos e privados".

O Brasil tem muitos desafios, advertiu o entrevistador: as péssimas estradas, o caos nos aeroportos, a precária rede de hotéis, atraso nas construções - tudo antecipando dificuldades na Copa do Mundo em 2014. A presidente respondeu que as coisas estão andando, há licitações para portos, estradas, ferrovias - "e nesse setor as empresas espanholas são muito competitivas", completou. Avisou, a seguir, a sua escolha: "Não tenho dinheiro para financiar um plano para todo mundo, mas sim para a população mais pobre".

Falsos dilemas. A crise vivida por vários países europeus, afundados em déficits e desemprego - e que interessa diretamente ao público espanhol - motivou a presidente brasileira a repetir suas críticas às soluções que vêm adotando os governos do continente, a seu ver equivocadas. Ela mencionou, então, a saída brasileira - estimular o crescimento. "Longe de mim propor nenhum modelo", avisou. Mas há "determinados falsos dilemas" que ela diz já ter vivido e que a Europa enfrenta agora. Por exemplo, controlar a inflação ou estimular o crescimento, reduzir gastos ou investir, desenvolver primeiro para depois distribuir renda, lutar só contra a pobreza ou entrar de vez na economia do conhecimento, escolher entre mercado externo e consumo interno. Sua conclusão sobre o dilema: "Todas essas coisas devem ser abordadas simultaneamente". Distribuir renda, por exemplo, "é uma exigência moral, mas também uma premissa para o crescimento".

Não seria, sugere Cebrián, o que chamam de "pragmatismo desideologizado"? A presidente reage repetindo, simplesmente, o tripé da estratégia do governo brasileiro: "Contas públicas austeras, controle da inflação e superávit de divisas para garantir a moeda contra a especulação".

A difícil situação europeia animou a presidente a prosseguir no tema - e ela retomou o que tem dito nos encontros do G-20: "A Europa passa por algo que já vivemos na América Latina. Há uma crise fiscal, uma crise de competitividade e uma crise bancária. E as receitas que se estão aplicando levarão a uma recessão brutal. Sem investir será impossível sair da crise".

Imprensa livre. A expansão das redes sociais e seu impacto na imprensa foi outro dos assuntos tratados. "Sempre disse que a imprensa brasileira comete excessos, mas eu os prefiro ao silêncio da ditadura", repetiu a presidente. "De qualquer modo, neste País existe algo que era tradicional entre nós, o formador de opinião. Faz dez anos que tomamos as decisões políticas em função do que beneficia os brasileiros, não por preconceitos ideológicos ou de qualquer outro tipo. O povo não se deixa manipular em absoluto."

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