André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

'Brasil tem muito partido', diz Michel Temer

Para vice-presidente da República, 'número excessivo' de siglas 'não é útil para o País'

Débora Bergamasco, Marcelo de Moraes e Vera Rosa - O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2013 | 02h24

BRASÍLIA - Na semana em que o Tribunal Superior Eleitoral legalizou o PROS e o Solidariedade, o vice-presidente Michel Temer considerou "politicamente inadequada" a criação de mais dois partidos e admitiu que até o seu PMDB perdeu "um pouco" a identidade. "Há muitas siglas partidárias no Brasil e esse número excessivo não é útil para o País", afirmou o vice.

Presidente licenciado do PMDB, Temer minimizou os embates com o PT nos Estados e disse que a parceria está "consolidada" para 2014. Embora o PSB de Eduardo Campos tenha anunciado a entrega dos cargos no governo Dilma, Temer torce para que o governador de Pernambuco não entre na disputa. "Se todos nós pudermos trabalhar para que ele não deixe a base governamental e eleitoral será muito útil para a aliança PT-PMDB", insistiu.

Leitor voraz e autor de poemas escritos em guardanapos de avião, Temer recorreu a uma analogia ao garantir que não tem receio de perder a vaga de vice. "Já andei em tantas estradas que, a essa altura, a vice não é coisa de vida ou morte." Com o PMDB prestes a ganhar o Ministério da Integração, ele disse que o partido está "preparado" para ter mais espaço em eventual segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.

O que o senhor achou da legalização de dois novos partidos, o PROS e o Solidariedade, no momento em que o PSB desembarca do governo?

No plano legal, é perfeitamente legítima a criação de novos partidos. Embora seja legal, politicamente é inadequado. Há muitas siglas partidárias no Brasil e esse número excessivo não é útil para o País. Aqui, os partidos perderam substância. Na época do autoritarismo, você tinha a Arena, a favor do status quo, e o MDB, contra. Quem aderia a um deles sabia o que estava fazendo. Hoje, com 32 partidos, eles perderam sua identidade.

O PMDB não perdeu?

O PMDB perdeu um pouco sua identidade. O que ele não perdeu foi a função de assegurar a governabilidade. Agora, nesses movimentos de rua, o que o povo queria? O povo passou a exigir uma democracia eficiente e o PMDB está trabalhando por isso.

A presidente Dilma pode convencer o governador Eduardo Campos a mudar de ideia (sobre concorrer à Presidência) ou isso já está sacramentado?

Se todos nós pudermos trabalhar para que ele não deixe a base governamental nem eleitoral será muito útil para a aliança PT-PMDB.

O senhor não tem receio de perder a vice para o PSB, em nome da manutenção da aliança para a eleição de 2014?

Sob o foco pessoal, eu já andei em tantas estradas que, a essa altura, a vice não é uma coisa de vida ou morte, embora seja extremamente honroso trabalhar ao lado da presidenta Dilma. No plano político, vejo que se consolida cada vez mais a aliança PT-PMDB.

O PT e o PMDB estão em pé de guerra em vários Estados. Como montar palanques para a presidente desse jeito? No Rio, por exemplo, a situação é crítica.

Ainda é muito cedo. Temos hoje menos dificuldades do que no passado e capacidade maior de superá-las.

O PMDB diz que vai lançar Paulo Skaf (presidente da Fiesp) para o governo de São Paulo e o PT vai de Alexandre Padilha, ministro da Saúde. Skaf é "imexível" como candidato?

É imexível. Em São Paulo, vamos ter dois candidatos. Nós já fizemos isso na campanha pela Prefeitura. É estratégico para puxar bancada.

Que marca o governo Dilma tem para mostrar na campanha?

Em primeiro lugar, uma austeridade absoluta. Em segundo, não houve tropeço na economia. Enquanto o cidadão puder ir ao supermercado, botar o filho na escola, comprar um carro, a economia do cotidiano não mudou.

O senhor falou em austeridade, mas, depois da "faxina", partidos que foram defenestrados voltaram para o Ministério, como o PDT, o PR...

Acho que podem ter voltado partidos, mas não pessoas, não é?

Todos puseram pessoas ligadas às que saíram na faxina.

É... Mas você não pode pegar alguém que foi defenestrado e dizer que todos aqueles que estão nesse partido são suspeitos. Enquanto tivermos esse sistema político-partidário só se consegue governar com coalizão.

Corrupção ainda hoje é uma preocupação do governo?

Acho que é uma preocupação permanente desde o tempo do Santo do Pau Oco. Sabe que o Santo do Pau Oco existia porque, quando os portugueses iam pegar a participação no ouro, o pessoal escondia tudo dentro (da imagem) do santo.

E tem muito santo do pau oco aqui?

Hoje só nos museus (risos). Aparece de vez em quando.

Como resolver os problemas de gestão e retomar o crescimento, que apresenta números nada empolgantes?

O empolgante do governo Dilma é que nós temos a menor taxa de desemprego do mundo. E este é um fator indicativo da conduta da economia. Fico meditando sobre esse tema: se a economia vai mal, como é que o emprego vai bem? Na Europa, o desemprego é uma coisa assustadora.

O governo apostou que a economia cresceria porque viriam as concessões, o pré-sal. Houve concessão em que ninguém apareceu, no campo de Libra as grandes não entram e o trem-bala ficou para trás. Isso não é falta de gestão?

A gestão está correta. Sobre ter feito lá uma licitação em que não apareceu (interessado) faz-se uma segunda vez. A questão fundamental é: o governo está ou não abrindo para investimentos privados e públicos?

Mas as taxas de juros continuam altas, a inflação é problema e a carga tributária é uma das maiores do mundo...

Mas era bem mais alta, viu? E os pequenos ajustes havidos no tocante aos juros são para evitar a inflação. Houve um momento em que a impressão que se tinha era de que a inflação ia explodir. E ela não explodiu.

Bolsa Família e superação da miséria já foram "vendidas" na campanha passada. Agora, o governo lançou o Mais Médicos... Não falta um passo adiante?

A pessoa só sonha com mais depois de atingir determinado patamar. No passado não podia sonhar com nada porque estava num patamar tão baixo que nem lhe era permitido sonhar.

Mas, colocando água no chope da campanha, muitas conquistas não vieram do governo Dilma. Vieram dos governos Lula, Fernando Henrique, Itamar...

Mas tem gente que gosta de chopinho fraco (risos). Veja, qual é a marca do governo Dilma? Promover o desenvolvimento social, acolhendo aspirações, que chegaram a novo patamar.

Se a presidente Dilma for reeleita, o PMDB exigirá mais espaço no governo?

O PMDB tem boa representação. Nos ministérios onde está, faz um belíssimo trabalho. Evidentemente, se você me perguntar se o PMDB poderia ter um núcleo maior de atividades no governo, eu digo: "O partido está preparado para isso". Se a presidenta decidir que deve ampliar a participação do PMDB, temos quadros.

Um dos pactos que a presidente propôs foi o da reforma política. Que tipo de reforma deve ser feita?

Sou a favor de manter a reeleição. O que acho fundamental mudar é o sistema eleitoral dos parlamentares. Sou adepto do voto majoritário, do distritão. O argumento contrário é que isso destrói partidos. Mentira. Hoje, o voto proporcional permite o quociente eleitoral. Então, há deputado que chegou na Câmara com 282 votos e já tivemos candidato que em São Paulo teve 128 mil votos e não foi eleito.

Qual o principal defeito do governo?

(Pausa) Se eu responder rápido vocês vão achar que tem muito defeito (risos). Eu preciso pensar um pouco. É difícil. Eu diria o seguinte: é a questão de dedicar mais verbas para a Saúde. Não é defeito. É uma ação feita agora para corrigir equívocos do passado.

A articulação política é defeituosa...

Não acho. É claro que há dificuldades e nos últimos tempos tenho colaborado bastante com essa articulação. O governo está muito bem entrosado com o Congresso.

O fato de o julgamento do mensalão continuar em 2014 não atrapalha a campanha da presidente Dilma?

Uma coisa é a atividade do Judiciário e outra é a campanha eleitoral. O problema é: os opositores vão explorar muito esse ponto? Certamente vão. Mas isso faz parte da vida. Quem disputa campanha tem que enfrentar esses argumentos.

O senhor teria concedido os embargos infringentes aos réus?

Fiquei impressionado com os argumentos do ministro Celso de Melo, compatíveis com o amplo direito à defesa, que a Constituição assegura. Ele deu uma aula. Hoje são uns que estão na pauta, amanhã poderão ser outros. Eu não teria objeção aos embargos infringentes.

O senhor publicou recentemente Anônima Intimidade, um livro de poemas. Continua escrevendo poesia?

Rabisco. Um amigo me disse que tenho jeito muito cerimonioso, muito metálico e isso humaniza minha figura (risos). Quando eu puder, vou escrever uma ficção. Para vocês que cobrem Política eu recomendo Sexo na Casa Branca. Parece livro pornográfico, mas não é. Mostra a influência das esposas e de amantes na política americana, desde Thomas Jefferson.

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