Brasil é acusado de roubar território na Guiana

Embaixada do País em Caiena, Guiana Francesa, é cercada por pescadores e garimpeiros; para eles, patrimônio é 'dilapidado'

JAMIL CHADE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2013 | 02h06

Pescadores e garimpeiros cercam o consulado brasileiro em Caiena, na Guiana Francesa, em protesto contra o que eles chamam de "roubo" dos recursos naturais do território francês por empresas e imigrantes irregulares brasileiros. O protesto começou na última sexta-feira e os organizadores da manifestação garantiram ao Estado que vão manter o bloqueio pelo menos até o próximo dia 7.

Os pescadores da Guiana Francesa acusam barcos, empresas e simples pescadores brasileiros de sair principalmente do Maranhão e Amapá para pescar ilegalmente nos 350 quilômetros de águas territoriais francesas. Sem controle, essa carga seria transportada ao Brasil e vendida no mercado nacional.

O que os sindicatos de trabalhadores pedem é que o Brasil ratifique um tratado assinado pelos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Nicolas Sarkozy, em 2008, e que estabelecia que Brasília criaria programas para reintegrar esses imigrantes, de volta em território brasileiro.

"Há dez anos estamos alertando para o fenômeno da pesca ilegal", declarou ao Estado Patricia Triplet, diretora do Sindicato de Pescadores da Guiana. "O que queremos é o fim dessa prática. Hoje, barcos de pesca industrial brasileiros estão instalados nas águas da Guiana, com um forte impacto para nossos pescadores. Nos últimos doze meses, vemos cada vez mais nossos barcos voltarem vazios", alertou.

"Três mil pessoas vivem da pesca na Guiana e o setor é o terceiro mais importante na economia da região. Mas o que estamos vendo é empresas falirem", insistiu Patricia Triplet. "Por isso, decidimos cercar o consulado", completou.

Para chamar a atenção, foram colocados caminhões de som, câmaras de frigoríficos e carros bloqueando as ruas que dão acesso ao consulado brasileiro. Mas os sindicatos garantem que uma passagem foi deixada para que funcionários possam entrar e sair do local a pé.

No fim de semana, organizadores alegam que um dos funcionários do escritório brasileiro tentou romper o bloqueio com seu carro, o que acabou gerando uma confusão entre manifestantes e autoridades. Troca de ofensas entre os funcionários brasileiros e os manifestantes também foram registradas por testemunhas.

Adesão. Hoje, será a vez de garimpeiros se unirem ao protesto. Eles também acusam os brasileiros de levar o ouro da Guiana Francesa de forma ilegal.

Ao Estado, o representante dos garimpeiros da Guiana, Gotier Ort, explica que a categoria já desistiu de protestar diante das autoridades francesas.

"Sabemos que estamos criando potencialmente um incidente diplomático. Mas nos demos conta de que a responsabilidade disso tudo não é apenas da França, que não controla a entrada desses trabalhadores irregulares, mas do governo brasileiro que faz vista grossa ao problema porque, de fato, ganha muito com o esquema que existe", explicou o sindicalista. Os garimpeiros passarão a apoiar a manifestação oficialmente a partir de hoje, disse ele.

Citando dados da WWF, Ort aponta que o garimpo do ouro na Guiana sustenta cerca de 100 mil famílias no Brasil. "Temos gente que vem desde o Ceará para garimpar aqui", declarou. "O que nós e os pescadores estamos dizendo é que há um roubo de nossos recursos naturais e, portanto, da renda de milhares de pessoas na Guiana", insistiu.

"Enquanto um brasileiro vem, retira o ouro ou leva o peixe sem pagar impostos, nós somos obrigados a ter tudo regularizado para poder trabalhar. Trata-se de uma concorrência desleal", declarou Gotier Ort.

O Comitê Regional de Pesca, o Sindicato de Pescadores da Guiana e os garimpeiros ainda recusaram uma proposta de Paris de viajar até a capital francesa para tentar debater uma solução. Segundo eles, trata-se apenas de uma estratégia para ganhar tempo.

"Há anos que a França sabe nossa posição e nossos problemas. Agora, o que queremos é pressionar o Brasil", disse o representante dos garimpeiros.

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